De Estranheza em Beleza. SAXualidade

O Tendências do Imaginário reincide: de beleza em beleza. Será que em tempos de ideias turvas, senão ameaçadoras, e de acontecimentos estranhos, senão sinistros, a beleza se insinua como consolo? Já aconteceu noutras épocas.
Perguntei então à IA: “Existem períodos históricos marcados pela persistência de ameaças em que a beleza se insinua como consolo?”
Solícita, respondeu:
Sim — e isso acontece com uma frequência impressionante. Em muitos momentos da história, quando a vida ficou mais frágil e ameaçada, a beleza não desapareceu: ela mudou de função. Deixou de ser ornamento e passou a ser consolo, resistência e sentido.
Alguns exemplos marcantes:
Antiguidade tardia e Idade Média
Em períodos de guerras, fome e instabilidade, a beleza se insinuou sobretudo no sagrado. Igrejas, mosaicos, cânticos e manuscritos iluminados não eram luxo: eram uma promessa de ordem e transcendência num mundo caótico. A beleza apontava para algo que sobrevivia à morte.
Após a Peste Negra (século XIV)
Depois de uma devastação inimaginável, surgem obras cheias de intensidade emocional. A arte se torna mais expressiva, mais humana. O próprio impulso que desemboca no Renascimento nasce desse contato brutal com a finitude — a beleza como afirmação da vida diante da morte.
Barroco (séculos XVII–XVIII)
Em meio a guerras religiosas, absolutismo e insegurança, o Barroco exagera, emociona, deslumbra. A beleza aqui é dramática, quase excessiva, como se dissesse: o mundo é instável, mas ainda pode ser arrebatador.
Guerras Mundiais do século XX
Mesmo com destruição em escala industrial, surgem poesia, música e artes visuais que não negam o horror, mas convivem com ele. Pense em Paul Celan, em Shostakovich, em Picasso. A beleza não consola suavemente — ela testemunha, e isso já é uma forma de resistência.
Regimes autoritários e ditaduras
A beleza muitas vezes se esconde na palavra, na canção, no gesto mínimo. Poemas, metáforas, artes “menores” viram refúgio e linguagem cifrada para preservar a dignidade humana.
Em todos esses casos, a beleza não aparece como fuga ingênua, mas como algo profundamente humano:
um modo de dizer “nem tudo foi tomado pela ameaça”.
Talvez por isso, sempre que o mundo parece mais sombrio, a beleza encontre uma fresta — não para negar o perigo, mas para lembrar que ainda há algo que vale ser protegido. (ChatGPT, 06.02.2026)
Fado abensonhado

Amanhecer “abensonhado” (Mia Couto) com o saxofone de Ran Kiao.
J.S. Bach – Saxofone

Interpretar J.S Bach com recurso ao saxofone é ousado. Os Paris Saxophone Quartet interpretam a Cantata #147, BWV 147- Adagio. O Tendências do Imaginário é o meu antidepressivo. Tóxico. Para evitar o tédio, convém, no entanto, alternar os temas e os modos.
O saxofone de Baker Street

A música de Gerry Rafferty (1947-2011) não parece talhada para os auscultadores da geração Z. Nem da geração Y. Mais ao estilo dos Baby Boomers e da geração X. Quem conhece, hoje, Gerry Rafferty? Não obstante, quase todos reconhecemos o saxofone da música Baker Street. Baker Street é retomada em muitas paródias ou pastiches digitais. Sublinhe-se, porém, que uma canção, Right Down The Line, atinge, neste momento, numa única página, 48 407 543 visualizações. Seguem dois exemplos de enxertos da música Baker Street: o primeiro resume-se a uma colagem no filme The Hobbit; o segundo integra o original, The Simpsons. Para aproveitar o ensejo, acrescentam-se quatro músicas de Gerry Rafferty, todas do álbum City to City, de 1978. Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves.
David Gilmour. A guitarra e o saxofone.

David Gilmour e Roger Waters são diferentes. Talvez por esse motivo funcionaram bem juntos. Dos discos a solo de David Gilmour, escolhi três músicas: Love On The Air, do álbum About Face, de 1984, e Smile, do álbum On An Island, de 2006. A terceira música é um extra: David Gilmour toca um solo, não de guitarra, mas de saxofone (Red Sky At Night, On An Island, ao vivo, The Island World Tour 2007).
