Ausência
Le mal du pays est avant tout un mal de soi et on se sent dépaysé justement à l’endroit où l’on ne se retrouve plus (Bernard Arcand, Quinze lieux comuns, 1993)

A saudade fala português, mas o sentimento é poliglota.
Sabia que a música [“tango da alma”] Ausência, cantada por Cesária Évora e estreada em 1995 no filme Underground de Emir Kusturica, foi composta pelo sérvio-bósnio Goran Bregović e a letra pelo cabo-verdiano Teófilo Chantre? Sabia, não sabia?
Imagem: Goran Bregović
Estou a chamar as minhas cabras

Volvidos quarenta anos, reencontrei uma amiga graças ao Tendências do Imaginário e ao Facebook. Publicou livros de poesia. Retenho o poema “Estou a chamar as minhas cabras”, humano e cósmico, um apelo e uma voz das raízes num imaginário que lembra Castro Laboreiro.
estou a chamar as minhas cabras
o dia fecha-se
um canto de pássaro já levanta as sombras
a cancela rangepesa-me o silêncio
por isso chamo as minhas cabrasos aloendros trazem -me aquele aroma
veio a coruja
e os lamentos a açoitar o ventovou chamar as minhas cabras
conto os grãos aligeiro os medos
levo-te na minha cesta
envolto no pão com passas
para oferecer àquele penedosão as águias que já lá vêm
e as colinas tombam
é tudo um segredochamarei as minhas cabras
quando a noite cantar
e trouxer consigo a lenda
dos lobos brandos e montanheirosfoge-me a voz
alongo o ouvido em quebrantoiria chamar as minhas cabras
na ventania errantee a música alisando as fragas
as luas rodopiando
os silvos cortam o ar
chamandosão as minhas cabras
dançando
os montes sulcando à procura de mimfui chamada pelas minhas cabras
a noite abre-se
a memória do mundo ecoou no tempo
e o silêncio viveé uma flor
que chama pelas minhas cabras
elas me levaramno monte me deitarei
eu e as minhas cabras(Almerinda Van Der Giezen)
Galeria de imagens: Caprinos (carregar nas figuras para as destacar).









Aniversário com corda partida

A uma ex-aluna de doutoramento
Hoje, acordei incompleto.
Uma das suas músicas:
Teño Morriña, teño saudade. Un canto a Galicia.
Em conversa com um galego, afirmo:
– Não costumo seguir a moda.
Responde:
– É uma lástima! Os outros vão de carro e tu vais a pé.
A minha voz pede outras línguas. Sinto saudades da Galiza! Cresci junto à Galiza, e não o esqueço. Apraz-me republicar, com pequenos retoques, o artigo Um Canto a Galiza.
Faz tempo que não vou à aldeia. Criança, mal abria as janelas do quarto, a Galiza, como o Melro de Guerra Junqueiro, dava-me bons dias. Mais quatrocentos metros e nascia galego. Aprendi cedo, com a ferrugem dos anos, o que significa a interculturalidade. “Vendo-os assim tão pertinho / A Galiza mais o Minho / São como dois namorados / Que o rio traz separados / Quasi desde o nascimento… (João Verde, Ares da Raya, excerto). Gosto de poesia, de verdades sentimentais. João Verde escreve: “Que o rio traz separados”. O Minho não separa, une! Nas ruas de Melgaço, Monção, Valença, Cerveira e Caminha fala-se tanto português como galego. E come-se bacalhau!
Uma cantiga com a voz de Luz Casal, a gaita-de-foles de Carlos Nuñez e a poesia de Rosalía de Castro é uma Negra Sombra abençoada. Festiva é a interpretação ao vivo de Mar Adentro por Carlos Nuñez. E, para que não digam que não trago nada de novo, acrescento a canção tradicional galega Camariñas, interpretada por Luz Casal com Luar na Lubre.
Não há três sem quatro. O Álvaro Domingues sugeriu uma canção em galego interpretada por Teresa Salgueiro com a colaboração de Carlos Nuñez. Uma sugestão oportuna.
Luz Casal & Carlos Nuñez. Negra Sombra. Poema de Rosalía de Castro.
Carlos Nuñez. Mar Adentro. Ao vivo em Vigo.
Camariñas, canção tradicional galega interpetrada por Luz Casal & Luar na Lubre.
Teresa Salgueiro & Carlos Nunez. María Soliña. Teresa Salgueiro. Obrigado. 2005.
Saudades
“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos” (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa, Ática, 1982).
“Insiste-se no sentimento de falta a propósito da saudade. Às vezes, o motivo também é o excesso, a imensa vontade de dar e não ter quem receba” (Albertino Gonçalves).
Andrea Bocelli. Con te Partiro. 2015.
Abraços
Esgotam-se as fontes de carinho. De tanto correr, secam. Convertem-se em cruzes. Um gesto, um olhar, uma palavra… Um abraço. Como são imateriais os abraços da saudade! Solos de alaúde sem cordas… Na Idade Média também conheciam o prazer do abraço. Tanto corpo contra tanto corpo! Seguem um solo de alaúde com cordas e três abraços medievais. Um lembra o Beijo de Klimt. Todos davam belos postais ilustrados.
- Codex Manesse Herr Conrad von Altestetten. C. 1340.
- Master of Guillebert de Mets. Decoração marginal. 1425
- Giacomo Jaquerio (c. 1375-1453). A Fonte da Vida (detalhe).
Teledesejo
Penélope transformou o teledesejo em tapeçaria. Na Idade Média, os cavaleiros andantes queriam-se teledesejantes. A saudade é teledesejo embalado no colo dos dias vazios. E, no entanto, os corpos movem-se. Mas o desejo voa!
José Afonso, Menina dos Olhos Tristes, 1969.










