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Velas

Nostalgia_poster_goldposter_com_4.jpg@0o_0l_800w_80qVisitar relíquias faz bem à identidade. Andrei Tarkovski é um realizador de culto. Um Tarkovski é um Tarkovski. Mas há quem o desconheça e ainda menos o admire. Quem quer sentir a repetição lenta da tragédia da vida? Porquê convocar Tarkovski? Porquê ser um grande eco quando podemos ser um pequeno grito? Neste excerto final do filme Nostalgia (1983), um homem cumpre uma promessa: a travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa. Um gesto sacrificial que lembra Sísifo. Um ritual de purificação contagiosa que a vela representa. Sobre a vela como símbolo de purificação, Paulo VI dizia:

“A vela simboliza a pura e primitiva fonte em que se devem iluminar as religiosas. Pela sua rectidão e doçura, ela é a imagem da inocência e da pureza (…) A vela é, enfim, destinada a consumir-se em silêncio, tal como a vossa vida se consume no drama, contanto inevitável do vosso coração consagrado” (Paulo VI, 2 de Fevereiro de 1973, in Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969).

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Lisa Gerrard.

A vela é um símbolo nuclear na obra de Tarkovski. Recordo o filme Espelho (1975): pousada sobre a mesa da cozinha, uma vela pontua o tempo e a vida.
Lisa Gerrard é Lisa Gerrard. Antes e depois dos Dead Can Dance, antes e depois do Gladiador (2000). Uma voz e um modo de cantar únicos. Alguém se lembrou de fazer bricolage. Extraiu o episódio da piscina e da vela, do filme Nostalgia, de Tarkovski, retirou o som original e substituiu-o pela canção Adrift de Lisa Gerrard (álbum Twilight Kingdom, 2014). O resultado é, no mínimo, interessante.

Antrei Tarkovski, Nostalgia (excerto), 1983 / Lisa Gerrard, Adrift, Twilight Kingdom, 2014.

Compra sacrificial

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“Vários estudos sustentam que a maior parte das compras não se destinam ao próprio mas a outros. Acresce que quando uma pessoa decide uma compra convoca, frequentemente, o olhar, o gosto e o interesse, de outrem. O ato de comprar encerra, assim, uma componente sacrificial. Quando alguém compra, entrega-se. A compra é uma dádiva de si, que se agudiza nos picos convencionais de generosidade como o Natal. Os anúncios prestam-se a dar uma mão!” (AG).

Dois anúncios da Dior no mesmo mês! Por sinal, bastante distintos. O primeiro diviniza uma mulher (http://tendimag.com/2014/11/19/mulher-sujeito/); o segundo promove a apoteose de um objeto. “The enchanted factory” é um triunfo do perfume e dos cosméticos, com embalagens a deslizar sobre carris oníricos (um pouco como as garrafas de Coca-Cola na “Fábrica da Felicidade”). Dois anúncios da Dior, dois conceitos diferentes. É certo que o primeiro é institucional e o segundo focalizado no segmento do perfume e dos cosméticos, candidatos habituais a prenda de Natal. Pelo sim, pelo não, tão cedo não vejo anúncios da Dior. Para não correr o risco de ficar estrábico.

Marca: Dior. Título: The Enchanted Factory. França, Novembro 2014.

Barroco por barroco, carril por carril, ao castanho dourado da Dior, prefiro o vermelho libidinoso dos Goldfrapp. É outra vertigem! Menos céu, menos geometria, menos séries, mais terra, mais entranhas e mais travessia.

Goldfrapp. Twist. Black Cherry. 2003.