Netos da revolução, filhos do esquecimento

Gosto de escavar como um arqueólogo indisciplinado. Por exemplo, na história do rock. Numa sociedade acelerada, cinquenta anos representa muito tempo. Quem ouviu os T. Rex? Uma banda de rock inglesa, com um som próprio, ativa entre 1967 e 1977. The Slider foi o álbum mais vendido em 1972 no Reino Unido. A banda dissolveu-se em 1977 na sequência da morte num acidente de automóvel do vocalista Marc Bolan. Em dez anos, produziram treze álbuns.
Música contra as constipações

A música mexida é recomendada contra as constipações. Os vírus dançam, abanam o capacete, cansam-se e desaparecem. Seguem quatro celebridades musicais de há algumas décadas atrás.
A ternura dos sessenta

Creedence Clearwater Revival.
Percorro a aldeia com passos de velho e cabeça de criança. Aqui, lançava para-quedas que subiam. Perto, agarrava-me a uma motorizada para ganhar balanço com os patins. Ali, matava laranjas com um arco improvisado a partir de um guarda-chuva. Além, treinava os tombos para as habilidades de bicicleta… Ternura dos sessenta. Ouvia-se música em qualquer sítio, incluindo uma casa em construção sem portas nem janelas. A ementa musical era reduzida: Beatles, Rolling Stones, The Doors, Moody Blues, Deep Purple e um grupo com nome estranho e sucesso fantástico: os Creedence Clearwater Revival. O passado não descansa, amadurece. Seguem três cristalizações.
Maturidade

Não tenho tempo para amanhã, nem agora. Sejamos rápidos como o Lucky Luke: All Right Now é uma música estimulante. Foi um sucesso dos Free (1970). Paul Rodgers era o membro mais influente da banda. Fundou, mais tarde, os Bad Company. Quarentão, reinterpreta a canção All Right Now, acompanhado por três monstros da guitarra: Brian May, Steve Vai e Joe Satriani. Corria o ano de 1991. O concerto integrou o programa da Expo 92 em Sevilha.
Amor sobre rodas
O anúncio espanhol Electric Love, da Smart, dá-se ao luxo de tomar o seu tempo (2:39). É repetitivo e atarda-se em cada sequência. Respira jovialidade, confiança e sedução. Adivinha-se o público-alvo. Trata-se de um anúncio meticuloso: cada imagem, cada som, no seu momento oportuno.
Para constratar, passemos da publicidade para a música. Clássica ou moderna, a Espanha sempre foi um país de boa música. Héroes del Silêncio consta entre os melhores grupos rock espanhóis. A revista Rolling Stone, de 22 de novembro de 2012, atribui-lhe o segundo lugar num conjunto de cinquenta grupos rock “mais representativos de Espanha” (http://rollingstone.es/noticias/especial-rs-los-50-mejores-grupos-de-rock-espanol/). Retenho duas cançõe: El Estanque, do álbum El Mar No Cesa (1988) e La Chispa Adecuada, do álbum Avalancha (1995).
Electrocussão
Gosto de saber não só o que consumo mas também quem é o produtor. Na literatura, na música, em todos os domínios. Se algo me agrada, informo-mo sobre o autor. Conheço, porventura, mais histórias acerca dos sociólogos do que as respectivas teorias. Sem toque humano, a fonte seca. E “a força da água provém da fonte” (provérbio persa). Cativado pelo álbum lançado pelos Armaggedon em 1975, interessei-me por Keith Relf, vocalista e mentor da banda. Ingressou, em 1963, nos The Yardbirds, banda por onde passaram Jeff Beck; Jimmy Page e Eric Clapton. Funda, com Jim McCarty, em 1969, os Renaissance, com a irmã Jane Relf como vocalista. Em Maio de 1976, sofre um “acidente de trabalho”: morreu electrocutado enquanto tocava numa guitarra com deficiente ligação à terra. Estava em curso a criação de uma nova banda: Now. But Now is gone. Tempo para recordar os The Yardbirds, os Renaissance e os Armaggedon. Carregar nas imagens seguintes para aceder aos vídeos correspondentes.
The Yardbirds. Dazed and Confused. Do programa “Bouton Rouge”, da Televisão Francesa, no dia 9 de Março de1968.
Renaissance. Face of Yesterday. Illusion. 1971.
Armaggedon. Buzzard. Argammedon. 1975.
Inspiração
Quando estou com gripe, tusso as palavras. Espalham-se sem nexo. A audição, essa, escapa imune. Escrevo menos e escuto mais. Recorro à prateleira dos vinis. Afigura-se-me que a memória auditiva suplanta a memória visual. Do passado, trauteio músicas mas não pincelo imagens. Massajem-se, portanto, os tímpanos.
Três canções melodiosas dos norte-americanos Chicago, uma das grandes bandas dos anos sessenta e setenta.
Chicago. Colour of my world. 1970
Chicago. If you leave me now. Chicago X. 1976
Chicago. Hard to say I am sorry. Chicago 16. 1982.
Peregrinos e missionários
Há quem viaje para conhecer e quem viaje para se dar a conhecer. No mundo das ciências e das artes, a tendência crescente é viajar para se dar a conhecer. Sinto-me, no entanto, mais próximo dos primeiros, os peregrinos, do que dos segundos, os missionários. Nos anos setenta, viajei pela Europa do Leste. Desencantei os Omega, um grupo húngaro de rock progressivo, talvez a melhor banda rock da história da Hungria, um país com vasta tradição musical. Guardo dois álbuns no cantinho dos semáforos arqueológicos. Lembrei-me dos Omega durante a passagem de ano. Não sei porquê. A minha memória não segue o fio da razão. Dos Omega, escolho uma canção de 1969: Gyöngyhajú lány (The girl with the pearl’s hair), do álbum 10 000 lépés. Segue a versão ao vivo do concerto dos 50 anos, na Hungria, em 2012. Os Omega são pouco conhecidos em Portugal tal como os Xutos e Pontapés devem ser pouco conhecidos na Hungria. Fossem ambos ingleses ou norte-americanos e seriam, provavelmente, conhecidos em ambos os países. Assim pende a democracia cultural global. É o princípio da justeza variável: uns viajam sentados; outros fartam-se de andar sem nunca chegar.
Para aceder aos vídeos, carregar nas imagens.
Omega. Gyöngyhajú lány (The girl with the pearl’s Hair). 1969. Concerto dos 50 anos. 2012.
Dizia-se, na altura, que os Omega eram parecidos com os Uriah Heep. Como o Tendências do Imaginário ainda não contemplou esta banda, segue a canção Lady in Black, do álbum Salisbury, de 1971. Com Ken Hensley, a solo, ao vivo, em Frankfurt, numa fase avançada da carreira.
Uriah Heep. Lady in black. Salisbury. 1971. Ken Hensley, a solo, em Frankfurt.







