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O riso da velha grávida (revisto)

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão. Pormenor do painel central.1505-1506.

Só de imaginá-las, essas figuras de terracota fascinam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas  imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas estou convencido que é antepassada da Gioconda: não é fácil descortinar se está ou não a rir. Tão pouco chora.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, tropeça-se em muito desperdício. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

Outras estatuetas de terracota aproximam-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, no entanto, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso. Destaca-se, porém, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está coberta de dobras: de sombras, do tempo, do movimento e da dialéctica dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento da criança. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho entre a morte e a vida, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, começo da vida. O mundo dobra-se e os extremos tocam-se.

Se no lugar do riso de uma velha grávida, tivesse optado pelo sono de uma mulher volumosa, com curvas muito generosas, ficaria satisfeito, 2 000 anos antes, com a estatueta da “Vénus adormecida”, datada de 4 000 a 2 500 a.C. (Museu de Arqueologia de Valletta, em Malta). Dorme, como a Terra Mãe, à espera da (re)generação do mundo. Um sono de Inverno com sonho de Verão. Baptizaram-na Vénus (Afrodite, na mitologia grega). Parece aguardar Adónis.

Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

07. Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

Afrodite apaixonou-se por Adónis ainda este era criança. Guardou-o num cofre que entregou a Perséfone, que também se apaixonou pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.

10. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

08. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

As sociedades têm uma costela de Adónis. Mudam de lugar e de espírito consoante as estações do ano. O estudo dedicado por Marcel Mauss às “variações sazonais” dos esquimós é um clássico (” Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimo”, l’Année Sociologique, tome IX, 1904-1905). Na Primavera, os esquimós separam-se, partindo cada um com a sua família, a sua tenda e a sua canoa. Aproveita-se o degelo. Mal o Inverno se aproxima, os esquimós concentram-se em grandes acampamentos fixos. De fase para fase, tudo muda: a arquitectura, a vida religiosa, a economia, o direito, as relações de poder, as relações de parentesco, o convívio e a interacção social. Passa-se de um oposto ao outro.

11. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

09. A Morte de Adónis. 250 a 100 aC. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Quase todas as sociedades conhecem variações sazonais. Algumas, à semelhança de Adónis, trocam de lugar; outras, alteram-se sem se deslocar.

Em Castro Laboreiro, no século XX, muitas famílias residiam , durante o Inverno, no vale, nos lugares conhecidos por “inverneiras”; durante o Verão, viviam nas terras altas, no planalto, nos lugares conhecidos por “brandas”. Tudo e todos transitavam de um lugar para outro, incluindo os animais (Polonah, Luís, 1987, Comunidades camponeses no Parque Nacional da Peneda Gerês, SNPRCN). A vida dos emigrantes portugueses dos anos setenta também era pautada por variações sazonais acentuadas (Gonçalves, Albertino & Gonçalves Conceição, “Uma vida entre parênteses: tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 (6-7), 1991, pp. 147-158). Há povoações, incluindo cidades, que se transfiguram durante a época balnear ou durante os “desportos da neve”. Tanto mudam os territórios “receptores”, por exemplo, as praias, como os territórios “emissores”, por exemplo, as cidades do interior. A vida parisiense torna-se irreconhecível durante o mês de Agosto. “É em Setembro que a vida começa a sério” Gilbert Bécaud).

Nestes casos, as variações sazonais estão associadas a dinâmicas demográficas internas ou externas. Existem, porém, sociedades em que as variações sazonais ocorrem sem qualquer movimento de população. Nas sociedades camponesas, as pessoas permanecem, mas o mundo roda com o tempo. Santo António, dos casamentos, São João, do solstício, São Miguel, das colheitas, São Martinho, dos magustos, o Natal, da generosidade, o Carnaval, da esperança, a Páscoa, da ressurreição… A cada festa corresponde uma realidade e um imaginário específicos. São versões de comunidades em constante reconfiguração. Não há grande plano ou instantâneo que as reduza ao mesmo. Talvez depois de mortas, como Adónis que, ferido mortalmente por um javali, passou a viver, para sempre, no inferno.

Riso arrepiado

Hornbach

Existem várias formas de riso: desbragado, disfarçado, cínico, sarcástico, amarelo… Rimos, por exemplo, às gargalhadas com acidentes inesperados e insensatos. Com os infortúnios do Charlot, do Pamplinas, do Bucha & Estica, dos Marx Brothers, do Monsieur Hulot, de Mr. Bean… Em contrapartida, os acidentes da Prevenção Rodoviária gelam o riso numa máscara de horror. Passamos do regozijo à aflição consoante as condições e as consequências.

A marca alemã Hornbach habituou-nos a um humor grotesco peculiar (ver o extenso mas fabuloso anúncio The Infinite House; https://tendimag.com/2012/03/15/casa-infinita/); ver também No one feels it like you: https://tendimag.com/2012/03/16/martelada/) e Crack: https://tendimag.com/2012/09/22/casa-dos-espiritos/). Os anúncios da Hornbach combinam estranhamento e familiaridade, quaresma e carnaval, delírio e razão, desalento e consolo.

No recente No Regret ocorre um acidente que não é burlesco. Suspende o nosso sentido de segurança. As expectativas normais resultam ameaçadas. Num cenário natural paradisíaco, a casa em construção desaba sobre o construtor. A aflição da criança testemunha a amplitude do desastre. Esta catástrofe não dá vontade de rir. A criança chora. O pai emerge dos escombros combalido mas a risonho. Agora, temos vontade de rir. Pai e filho riem de alívio, para restauro dos neurónios. Nós, também! “Sem remorsos”.

Em 2016, a Hornbach lança o anúncio You’re alive. Inicia com uma imagem intermitente de um homem, ora nu, ora vestido. O homem escorrega, nu, por uma encosta inóspita. Um prazer indescritível embalado num ritual sacrificial todo vertigem e dor, aventura no espírito, contusões no corpo e endorfinas no sangue. O diabo já registou este anúncio para introduzir uma nova tortura no inferno. A descida vertiginosa do herói é arrepiante. Mas eis-nos regressados ao homem vestido a cavar um enorme buraco no jardim. Pelos vistos, sonha enquanto trabalha! Realidade que nos faz rir e nos sossega. A terra continua a girar no sentido contrário aos ponteiros do relógio!

Marca: Hornbach. Título: No regrets. Agência: Heimat Czar. Direcção: Andreas Nilsson. Alemanha, Março 2017.

Marca: Hornbach. Título: You’re Alive. Do You Remenber? Agência: Heimat Partizan. Direcção: Tom Noakes. Alemanha, Março 2016.

 

De rir a chorar

spotify-play-this-at-my-funeral

Ontem como hoje, na Europa e no mundo, há funerais festivos e há funerais macabros. E outros ainda difíceis de classificar. Existem muitos anúncios publicitários com funerais. Começo por reter dois a pender para o risonho.

O ser humano delira. Dá-lhe para dançar e rir quando é suposto ensimesmar e chorar. No primeiro anúncio, um funeral com lágrimas e dança (ver anúncio português semelhante: https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/). No segundo, o humor resulta mais vulgar: o velório passa colectivamente das lágrimas às gargalhadas. Passar de uma emoção à emoção oposta parece ser apanágio do homem. Talvez porque os extremos estão mais próximos do que se pensa.

Marca: Spotify. Título: Play this at my funeral. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Fevereiro 2007.

Marca: Tages Anzeiger. Título: L’Enterrement. Agência: McCann Erikson. Suíça, 1998.

A isabel comentou este artigo relembrando o vídeo Doing It To Death, dos The Kills. Já o tinha colocado no Tendências do Imaginário (https://tendimag.com/2016/11/02/grao-a-grao-meio-milhao/). Mas o vídeo é extraordinário e a coreografia, fantástica. Vou recolocá-lo. O comentário da Isabel vem a preceito, também o vou colocar.

 “Embora não seja novidade no tendimag, suponho que este é um dos casos difíceis de classificar: https://www.youtube.com/watch?v=498zUzNGQxY (…) Quando os mortos têm um sentido de humor fora do comum e se tem um relação próxima com eles, o que fazer? Chorar de saudades ou rir com saudades? Não me parece assim tão difícil de compreender, só sentindo. Não deixa de ser uma homenagem, num sentido ou noutro. Ou oscilando” (Isabel Vilela).

The Kills. Doing It To Death. Ash & lce. 2016.

Os cavalos também riem

jolly-jumper“Os cavalos também se abatem” é o título de um filme de Sydney Pollak (1969), a partir do romance homónimo de Horace McCoy (1935). Embora “o riso seja apanágio do homem” (François Rabelais), os cavalos também riem. Por exemplo, o Jolly Jumper, do Lucky Luke. Os anúncios abrem-se cada vez mais ao disparate. A promoção do produto processa-se através do desvio. Um desvio impregnado de imaginação. Os cavalos riem, rebolam-se no chão. Riem de um condutor que não consegue estacionar. Este é o caudal do anúncio. Outro condutor consegue estacionar graças ao dispositivo de reboque do Volkswagen Tiguan. Esta é a foz em que desagua o anúncio.

Os cavalos riem! Mas, a crer neste anúncio, não riem de tudo. “Rir de tudo o que se faz ou diz é estúpido, não rir de nada é imbecil” (Erasmo). Bem-aventurados os cavalos: “a faculdade de rir às gargalhadas é sinal de uma alma excelente” (Jean Cocteau).

Os cavalos riem! Os burros mordem.

Marca: Volkswagen. Título: Laughing horses. Agência: Grabarz & Partners. Direcção: Bart Timmer. Alemanha, Setembro 2016.

A moral e o riso

“Sair para fora, cá dentro” é um dos meus lemas preferidos. Graças à Internet, também vou ao Brasil, cá dentro, no âmbito de um projecto aliciante e inovador em torno da moral e do riso.

Para aceder à página original, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.uefs.br/modules/noticias/article.php?storyid=182.

A Moral e o Riso

O riso da velha grávida

01. Mulher grávida Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

Só de imaginá-las, estas figuras de terracota cativam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas  imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas ela teima em não se rir. Tão pouco chora.

03. Figura de Terracota sentada numa cadeira. Boeotia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, o que mais se encontra é lixo. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

Outras estatuetas de terracota avizinham-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, porém, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso (ver galeria). Destaco, mesmo assim, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está repleta de pregas e dobras: dobras de sombra, do tempo, do movimento e da aproximação dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho no ciclo da vida e da morte, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, no início da vida. O mundo dobra-se e os extremos confrontam-se.

Galeria de imagens

Humor e respeito

“Pode-se rir dos erros sem lesar a decência” (Blaise Pascal, Les Provinciales, 1656-1657)

Para os franceses, Napoleão Bonaparte é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e motivo de riso. Escarnecem quem mais admiram. Esta postura é uma raridade. Em Portugal, sobram os governantes risíveis e escasseiam os prodigiosos: D. Afonso Henriques, D. João II, Marquês de Pombal… Nenhuma grande figura histórica lusitana combina veneração e gracejo. Os portugueses constam “entre os povos mais tristes da Europa”. Falta-lhes, porventura, a reverência burlesca, o cómico nas alturas, rir nas barbas do herói.

“Portugal é um dos países europeus onde os cidadãos menos confiam nos outros, revelam os resultados do Inquérito Social Europeu, um projecto que desde 2001 estuda e compara os valores e atitudes sociais na Europa. Os portugueses são ainda dos europeus mais tristes e descontentes com a política” (Público, 27/11/2008, baseando-se num estudo internacional, coordenado, em Portugal, por Jorge Vala).

Para aceder ao anúncio Napoleon, da Coca-cola Light, carregar na imagem.

Coca-Cola_Light_Napoleon

Marca: Coca-cola Light. Título: Napoleon. Agência: Santo Buenos Aires. Direcção: Marcelo Burgos. 2014.

 

Figuras Remojadas Sorridentes

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

“A serendipidade remete para o facto bastante frequente de se observar um dado inesperado, insólito e decisivo que dá azo ao desenvolvimento de uma nova teoria ou ao alargamento de uma teoria existente” (Merton, Robert K., 1965, Elements de Théorie et de Méthode Sociologique, Paris, G. Monfort, p. 47).

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Há quem encontre o que procura, com protocolos de investigação. O método indica o caminho. Há, também, quem descubra caminhando. Uns, clássicos, desfiam uma realidade complexa. Outros, barrocos, constroem a realidade a partir de singularidades imprevistas.

No livro dedicado a François Rabelais, Mikhail Bakhtin refere-se a umas figuras de terracota com velhas risonhas. Tenho procurado estas imagens em vão. Encontrei, em contrapartida, sem qualquer guia, estas figuras cerâmicas sorridentes da cultura Remojadas (Vera Cruz, México) dos séculos VII e VIII. Para quem aprecie o grotesco, este achado representa um filão.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

“The so-called Smiling Figures from the Remojadas region of Veracruz are often regarded as expressions of Mesoamerican humor. These hollow ceramic sculptures are thought by many to be associated with a god of dance, music, and joy. Another compelling interpretation, however, relates them to a cult of pulque, an intoxicating beverage made from the fermented sap of the maguey plant. The animated faces, puffy cheeks, and swollen protruding tongues are regarded as evidence of intoxication. The figures may depict ritual participants, or even sacrificial victims. The survival of many more smiling Remojadas heads than bodies suggest to some a possible ceremonial decapitation and destruction of the bodies. This bare-chested figure, with open mouth and filed teeth, stands energetically with legs spread and arms lifted as if caught in mid-motion. The garb of this celebrant consists of circular earrings, a beaded necklace and bracelet along with a loincloth decorated with laterally symmetrical patterns. On his cap are ollin symbols, a sign for motion. This sculpture evokes a festive dance or ritual accompanied by the rhythmic reverberation of the hand-held rattle and celebratory sound escaping from the figure’s open mouth” (The Metropolitan Museum of Art: http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/1979.206.1211).

Deixa-me rir!

Coca cola smileO que une uma dúzia de bebés risonhos e a Coca-Cola? Aproximar aquilo que tudo separa é uma arte. A arte, por exemplo, da alegoria. Uma coisa puxa outra. Quanto mais estranhas, maior o efeito. Para Gilles Deleuze, a alegoria é caracterizada por três elementos: o símbolo, o lema e o nome (ver Dobras e Fragmentos), Pois, no final do anúncio, lá aparecem em pose, como num retrato de família, o símbolo (a garrafa), o lema (choose happiness) e o nome (Coca-Cola).

Marca: Coca-Cola. Título: Choose to smile. Agência: Ogilvy & Mather Amsterdam. Direcção: Marleen Jonkman / Czar. Holanda, Maio 2015.

Do Japão, com humor

A publicidade oriental é um caso à parte. Ora nos brinda com anúncios de seis minutos de fazer chorar as pedras, ora nos espevita com sequências frenéticas que, ao jeito japonês, fazem dançar as galinhas.

No Anúncio da Shop Japan, o segredo reside na repetição acelerada do disparate (ver excerto de Henri Bergson). Pouco importa o que te faz cair, o que interessa é o que te levanta, eventualmente, um aparelho para abdominais. No segundo anúncio, Lighters, a evolução de uma pen USB isqueiro, desde a criação até à conquista do planeta, é pretexto para uma miscelânea tresloucada de tudo quanto é símbolo japonês e mundial.

Marca: Shop Japan. Título: Wonder Core – Ab Machine. Japão, 2014.

Marca: Jii USB Lighter. Título: Lighters. Japão, 2013.

Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: “Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir por sua semelhança.” Por nossa vez diríamos: “Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, por sua repetição fazem rir.” É que a vida bem ativa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo. Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo clichê, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação do cómico. 1ª edição: 1899).