Esferas

Na esfera celeste, o planeta é redondo. Os seres humanos vivem em bolhas, contribuindo para o bem ou para o mal do mundo. Para o bem, na óptica da Ikea. Existem homologias entre curvaturas. Mike Oldfield retoma a noção de “música das esferas”: “a música das esferas, tal como a entendo, remonta à Antiguidade, quando se concebiam as relações matemáticas entre o movimento dos planetas e as harmonias da música”.
Segue o anúncio Our little word (2021), da Ikea, e o excerto Harbinger, do álbum Music of the spheres (2008), de Mike Oldfield.
Ternura

Dois computadores avariados. O fixo e o portátil. Uma orfandade eletrónica? Nem por isso. Existe vida para além do ecrã. A música, por exemplo. E sentimentos frescos. A ternura, por exemplo. Segue La Tendresse, de Daniel Guichard.
A cópia, a série e a ovelha negra
Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).
Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.
Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.
A engenharia da imagem
É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem (Friedrich Nietzsche, Considerações Extemporâneas, 1873-1876)
The Marmalade é uma empresa, conceituada, de criação de vídeos, particularmente exímia ao nível da pós-produção. Showreel reúne excertos de vídeos produzidos pela empresa até 2016. A técnica ao serviço da estética. A técnica e a estética ao serviço do cliente e do consumidor.
“É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem”, escreve Nietzsche, a partir de Arthur Schopenhauer. Existem correntes na Sociologia que se concentram nos sujeitos colectivos em detrimento dos sujeitos individuais. Por exemplo, Lucien Goldmann e o estruturalismo genético. Não me ocorrem abordagens da arte que tenham logrado esta suspensão do artista. De qualquer modo, nada de mais social, histórico e cultural do que uma pessoa, artista ou não.
The Marmalade. Showreel. 2016.
Flor&Cultura
“C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui rend ta rose importante” (Saint-Exupéry. Le Petit Prince.1943).
Com ou sem fumo, há sinais de criatividade no mundo digital. Os videojogos são a meca da originalidade. Há jogos para todos os gostos e para todos os sonhos. Por exemplo, o Flower, desenvolvido, em 2009, pela Thatgamecompany para a Playstation 3.
O Davide elegeu este videojogo para o trabalho da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura:
“Para quem está familiarizado com videojogos, mesmo ao nível mais básico, este trailer pode parecer bastante confuso. Se neste momento pedisse a você leitor, para simplesmente pensar em qualquer videojogo, imaginaria você uma temática onde se utiliza o vento para colher pétalas de flores, e revitalizar espaços verdes? Pois essa é a proposta de Flower. Kellee Santiago, a presidente de Thatgamecompany, descreve o jogo como:
“…a videogame version of a poem. I think asks something different of the player.” (Playstation, 2009)” (Davide Gravato, Flower – Uma poesia interactiva: https://comartecultura.wordpress.com/2015/04/23/flower-uma-poesia-interativa/)”.
O videojogo Flower é sweet, com aroma a flower power. A música (Catch the Wind, 1965), também. Nos antípodas do movimento Punk, Donovan é o compositor e cantor apropriado.
Playstation 3. Flower. Trailer. 2009.
A Teia
Dizem os sábios que a liberdade é um estado e a libertação, um acto. Afirmam, também, que tendemos a sentir o acto, mas não o estado. À libertação opõe-se a opressão. A liberdade aumenta com a libertação e diminui com a opressão. Na segunda metade do século XX, viveram-se momentos de libertação: a descolonização, a emancipação da mulher, a independência dos países de Leste, a queda do muro de Berlim, a fragmentação da Jugoslávia e a independência de Timor Lorosae. Nas últimas décadas, não se vislumbram sinais expressivos de libertação (a não ser que se considere a Primavera Árabe uma libertação). Ao nível global, o aumento da opressão é-nos servido diariamente na bandeja mediática. Ao nível nacional, o Estado regulador cerceia as margens de liberdade, nos actos, nas palavras e nas omissões. O seu zelo estende-se a esferas outrora consideradas privadas ou íntimas. A autonomia é condicionada pela normalização, pela programação e pelo controlo. Há quem, no início dos anos 2 000, se sinta menos livre do que há três décadas atrás. Os ímpetos libertadores dos anos sessenta enrolam-se agora numa teia sem princípio nem fim. E os computadores? E a Internet? E o tribunal de Haia? E as ONG? Na verdade, o que capacita pode não libertar.
Marca: Yves Saint Laurent. Título: Femmes Modernes. Agência: CLM & Team. França, 1973.
Da necessidade de voar
Convocar gaivotas e música dos anos setenta com um vídeo pasmado e escuro é, na opinião de um amigo, um desconsolo. Importa dar vida e asas à canção Seagull, dos Bad Company (19739, de um modo mais animado. Quando o horizonte anda por baixo, voar é preciso. E quanto mais asas, melhor! Mesmo que sejam tão místicas como o Be de Neil Diamond (álbum Jonhatan Livingston Seagull,1973).
Bad Company. Seagull. Bad Company. 1973
Neil Diamond. Be. Jonhatan Livingston Seagull. 1973
René Magritte


















