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Margens (Ficção)

M.C. Escher. Encounter. 1944.

Das margens sólidas da fábrica da razão para as margens líquidas do Norte, de onde contemplo a Espanha, coisa digna de ser vista.

Na fábrica da razão certificada, no concelho onde resido, anda tudo com a fita métrica elástica na cabeça. Nada escapa à quantificação. Algum resto inverosímil que resista tem o selo do sétimo dia da criação. O “sonho da razão” Goya “persegue a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim Sorokin). Assim como existe o “reino da Taquicardia” (filme de Paul Grimault: https://tendimag.com/2011/09/04/o-reino-de-taquicardia-animacao-musica-e-palavra/), também existe o reino da Quantofrenia. Se na fábrica da razão a medida é compulsiva, nas margens salgadas da minha residência balnear, “estigmatizam” mais do que me calculam. Somos semáforos de identidade. Olha-se para a barriga e não se vê mais nada. O cerne, segundo Goffman, do estigma: a parte polui o todo. Não sei que escolher: ser medido ou estigmatizado. Ontem, fui ao restaurante. Fiz o pedido. O empregado inspecciona, focaliza a barriga e pergunta: quantas doses? Acho que vou regressar antes do Carnaval às margens da fábrica da razão: medem-me a barriga como caso particular do geral. A avaliação é como a “donna” do Rigoletto de Pucinni: incerta e volúvel, mas abstracta e global, graças aos indicadores, aos índices e às ponderações. Nunca conhecerei ao certo o volume da barriga. Aguardo, os cartógrafos de Jorge Luís Borges:

“Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele” (Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, in História Universal da Infâmia, Assírio e Alvim,1982, 117).

Hoje fui ao concelho do meu berço, as minhas margens de água doce. Fui a uma residência sénior. No salão, uma mulher de 89 anos exclama: “Olhó Tino! Há quanto tempo!” E dá-me um abraço. A barriga não estorvou. Nestas margens de água doce, não sou nem uma equação nem uma aparência. Tenho um nome, uma história e afectos. Sem precisão de números. Como diria Alfred Schutz, sou um ser “apostrofado”, uma pessoa única, avessa a generalizações.

Das margens da água salgada e da água doce, avista-se a Espanha. Também se pode ouvir pela mão de um pianista norte-americano: Chick Corea, com Bobby McFerrin

Spain. Chick Corea com Bobby McFerrin. Original: Return to Forever. Light as a Feather. 1972.

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Qualidade de Vida

A qualidade de vida também se mede. A Organização Mundial de Saúde (OMS) concebeu uma ferramenta para aferir a qualidade de vida das pessoas: o WHOQOL, um questionário com várias escalas num total de 100 itens (pdf da versão portuguesa ). Trata-se de uma ferramenta robusta, validada, com várias versões, utilizada em diversas áreas científicas. O que é a qualidade de vida? Quais são as dimensões e os indicadores? A versão portuguesa abreviada contempla 26 itens (pdf da versão portuguesa abreviada). Uma categorização rápida, inevitavelmente arbitrária, destes 26 itens proporciona os seguintes resultados (o total ascende a 30, uma vez que quatro itens foram incluídos em duas categorias): a maioria dos itens remete para as seguintes categorias: saúde (8), capacidades várias (7) e mobilidade (2).

Qualidade de Vida_Página_1

As escalas WHOQOL suscitam alguns reparos.

À luz destes itens, o barco dos valores pós-materialistas encalhou em algum rochedo antes de arribar às escalas do WHOQOL. Responsável por pesquisas internacionais dedicadas às dinâmicas dos valores, Ronald Inglehart (1977: 1990) prevê a ascensão de valores pós-materialistas, tais como a autonomia, a participação, a realização pessoal e o prazer no trabalho, em detrimento dos valores materialistas, tais como o desafogo económico e a segurança. No WHOQOL, as dimensões “materialistas” imperam. É certo que “qualidade de vida”, sobretudo quando associada a condições de vida, não é o mesmo que “valores de vida”. Não se confundem, mas pressupõem-se e intersectam-se.

Figura 2. Pawel Kuczinski.

Figura 2. Pawel Kuczinski.

Os autores do WHOQOL fazem do indivíduo o ponto de fuga da qualidade de vida. Tudo desagua no entrevistado. Este, ou se autoavalia ou avalia o seu entorno. Mais do que egocentrismo, parece egoísmo. Atente-se no seguinte item: “Até que ponto está satisfeito com o apoio que recebe dos seus amigos?” Nunca se pergunta ao entrevistado o que faz, ou fez, de bem ou de mal, aos outros. Dar, participar e amar pode proporcionar mais felicidade do que receber, desfrutar e beneficiar. Dar é uma bem-aventurança!

Saltei da qualidade de vida para a felicidade. Mas qual é a qualidade de vida que não namora a felicidade? É verdade que a felicidade ainda não se mede. Mas não tarda. Se calhar, a tribo já está a cometer a proeza. Desde há milhares de anos, mantivemos os neurónios relativamente inalterados, mas, num ponto, evoluímos: nasceu-nos uma fita métrica na cabeça. No algoritmo promovido pela técnica e pela ciência, a felicidade é uma sub-rotina desgarrada, regada por principezinhos poetas.

Figura 3. Pawel Kuczinski.

Figura 3. Pawel Kuczinski.

Não há memória de uma montagem de padrões e protótipos de perfeição humana tão consensual, precisa e sistemática. Outrora, escalava-se o peixe e a lampreia. Agora, escala-se tudo. Da horta até à cátedra. Pitirim A. Sorokin (1956) já falava, nos anos cinquenta, em quantofrenia e testomania. O nutricionista empenha-se em registar as gramas em excesso e receita doses de sementes; o cientista dissemina as ideias na roleta indexada da excelência. Eis, em suma, a questão: ser ou não ser uma equação.

Há palavras que dizem uma sociedade. Salvação, na Idade Média; prosperidade, nos últimos séculos. Se bem me lembro, no Natal, prosperidade era a palavra mestre, repetida vezes sem conta nas mensagens dos militares da Guerra do Ultramar. Qualidade de vida ergue-se como a palavra mestre da sociedade atual. Não demora a digitalização de postais ilustrados com a seguinte mensagem: “Votos de qualidade de vida para sempre”.

Hans Surén, Der Mensch und die Sonne, edição de 1936.

Figura 4. Hans Surén, Der Mensch und die Sonne, edição de 1936.

A qualidade de vida é a nossa lebre. Corremos atrás dela como os medievais corriam atrás da salvação. Multiplicam-se os aparelhos e os dispositivos: organismos políticos, hospitais, universidades, centros de investigação, comunicação social, ONGs… O equilíbrio é, por sua vez, a disposição certa, a nova pedra filosofal. Há séculos que o equilíbrio é vital, pelo menos, no que respeita à saúde. Recorde-se o equilíbrio dos quatro humores corporais, aproximado à custa de sangrias e sanguessugas. Hoje, alcançar ou manter o equilíbrio é uma missão. E uma provação, num mundo prenhe de tentações nefastas à qualidade de vida: o tabaco, o álcool, o sofá, os fritos, as gorduras, a Coca-Cola, o açúcar, o sal, o pastel de nata e, pasme-se, o leite. Quase tudo desequilibra. Importa revisitar as estátuas gregas, os palácios renascentistas e os corpos coreografados da propaganda nazi (Figura 4). Esta fixação no equilíbrio tem pouco de pós-moderno. O barroco, o trágico e o grotesco não conseguem destronar esta aspiração clássica. Tanto equilíbrio traz-nos desequilibrados.

Figura .Pawel Kuczinski

Figura 5. Pawel Kuczinski

Mas o grande desequilibrador deste funambulismo coletivo é, naturalmente, a morte. Afastamo-la do claustro para o cemitério, do centro para a periferia, da rua para o ecrã, sempre com ela ao colo (Thomas, 1979). Entre 1960 e 2011, a esperança de vida de um português subiu de 60,7 para 76,7 anos e a esperança de vida de uma portuguesa de 66,4 para 82,6 anos. Cerca de 16 anos! Já há quem “declare morte à morte” (Alexandre, Laurent, La mort de la mort, Paris, JC Lattès Editions, 2011). Entretanto, a morte espera, dança e ri, como nos quadros de James Ensor, Otto Dix e George Grosz. “A morte agarra aqueles que lhe fogem”, terá dito Horácio. Se a qualidade de vida é a nossa luz, a morte é a nossa sombra. O equilíbrio é amigo da repetição, a vida tem limites e a perfeição, defeitos.

Referências:

Inglehart, Ronald (1977), The silent revolution. Princeton, Princeton University Press.

Inglehart, Ronald (1990), Culture shift in advanced industrial society, Princeton, Princeton University Press.

Sorokin, Pitirim A. (1956), Fads and Foibles in Modern Sociology and Related Sciences, Chicago, Henry Regnery.

Thomas, Louis-Vincent (1979), Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, Paris, Payot.