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O arquiteto da ternura e as bolas de cristal

William-Adolphe Bouguereau. Compassion. 1897

Francisco de Assis, o “segundo Cristo”, abençoado com as cinco chagas, santo que abraçou a divindade na figura de um leproso e foi abraçado pela divindade despregada da cruz, reformador da devoção cristão, sobressai, não só pela ênfase na Paixão, mas também como o grande arquiteto da ternura: inventou o presépio. Vivemos tempos em que é particularmente oportuno evocar o franciscanismo. Faço votos que cada um possa abraçar, desta vez, o próximo na figura do menino Jesus.

Os anúncios Vive la magie des fêtes, da Air Canada, e The Biggest Gift, da Deutsche Telekom, convocam a figura da bola de cristal, uma variante do presépio. Encenam outros encantos que nos aguardam, do tamanho do nosso olhar e à escala das nossas mãos.

Distinguem-se, porém, num aspeto: no presépio, os nossos dedos podem percorrer os caminhos de serrim, molhar-se no lago e afagar as personagens de barro; nas bolas, o cristal materializa uma fronteira que impede a tangibilidade, os dedos embatem numa porta que não se abre. O presépio é marcado pelo toque e pela aproximação, a bola de cristal, pela visão e pelo confinamento. Trata-se de uma separação involuntária que cada anúncio, a seu modo, se propõe ultrapassar. Quer-me parecer que o motivo da bola de cristal se vai multiplicar nesta quadra natalícia como uma alegoria ou uma metáfora da nossa condição atual. Existe, todavia, um mundo em que as bolas de cristais, tantas e de tantos feitios, já não cabem. O mundo é o da comunicação social, e as bolas assumem, até à saturação, outra virtude: a previsão fantástica do futuro.

Marca: Air Canada. Título: Vive la magie des fêtes. Agência: FCB Toronto. Canadá, dezembro 2021.
Marca: Deutsche Telekom. Título: The Biggest Gift. Agência: DDB Budapest. Direção: Stina Lütz. Hungria, novembro 2021.

Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

O Pai Natal na publicidade. Glória e crise.

Júlia Ramalho. Presépio.

A maior mentira dos pais aos filhos não se refere à existência do pai Natal mas à promessa tácita de que as suas prendas os tornarão felizes (Laurent Gounelle, L’Homme que voulait être heureux, 2008).

Tenho andado ausente. Encalhei na Ilha de Sísifo. Perde-se tempo e não se ganha alento. Este artigo é gordo como o Pai Natal. O texto é esquelético mas os exemplos são muitos.

O Pai Natal mágico, risonho e rechonchudo, com barba branca e roupa vermelha, de trenó e na chaminé, é uma enorme fantasia da humanidade, que se espelha na publicidade. Mas tenho a impressão que cada vez menos. Perfila-se uma certa erosão.

No início de Dezembro, identifiquei 16 anúncios de Natal. Todos de grandes marcas. O Pai Natal propriamente dito aparece apenas em três: Coca-Cola, Oreo e Orange. Em outos três anúncios, Rema 1000, Bouygues e NOS, o Pai Natal resume-se a uma pessoa disfarçada. Oito anúncios (Globe Telecom, McDonald’s, Holiday, Migros, Admas Day, John Lewis, Fedex e Posten) recorrem a figuras alternativas ao Pai Natal. Por exemplo, o ET ou o dragão. Os dois anúncios restantes, da Macy’s e da Virgin, envolvem questões de género.

 Do conjunto de anúncios, só encontrei três com a presença do Pai Natal original: o anúncio positivo da Coca-Cola, marca de que o Pai Natal é “embaixador”, o anúncio da Oreo, em que o Pai Natal quase não se vê, sendo o protagonista um duende, e no anúncio dúbio da Orange em que o Pai Natal é armadilhado e capturado por um grupo de crianças.

“En el spot [de Coca-Cola] se ironiza con cariño la conducta de Papá Noel, un hombre extraño que llega de una tierra misteriosa y entra a las casas sin ser invitado, pese a lo cual las personas siempre eligen ver su bondad por encima de todo” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-regional-de-la-campa%C3%B1a-navide%C3%B1a-global:-santo-coca-cola-y-santa-claus-proponen-aceptar-las-diferencias).

Marca: Coca-Cola. Título: “What We Share Is Stronger”. Agência: Santo. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Novembro 2019.

Graças às bolachas Oreo, nasce uma amizade entre um duende e um empregado de uma loja de conveniência que culmina numa viagem no trenó do Pai Natal.

Marca: Oreo. Título: First Christmas. Agência: Martin. Estados Unidos, Novembro 2019.

O anúncio da Orange coloca o Pai Natal numa situação, no mínimo, embaraçosa. Graças às conexões electrónicas, um grupo de crianças, enfants terribles, sequestra o Pai Natal. A crise da imagem do Pai Natal começa a esboçar-se.

Marca: Orange France. Título: #AttrapezNoël – On l’a. Agência: Publicis Conseil. França, Novembro 2019.

Os três anúncios seguintes convocam o “espírito” do Pai Natal, mas o protagonista é um ser humano disfarçado. No anúncio da Rema 1000, o “pai Natal” não consegue entrar na casa inteligente, submetendo-se a uma série de infortúnios. No anúncio da Bouygues, o pai, que imita ao telemóvel o Pai Natal, é surpreendido pela própria filha. No anúncio da NOS, uma rapariga acredita que uma determinada pessoa é o Pai Natal. Esta última acaba por se disfarçar de Pai Natal. Uma “predição criadora”.

Marca: Rema 1000. Título: Crazy Santa. Agência: Try (Oslo). Direcção: Andreas Riiser. Noruega, Dezembro 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Papa Noël. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Novembro 2019.
Marca: NOS. Título: A Descoberta. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: Marco Martins. Portugal, Novembro 2019.

Reis Magos

De mago e de rei, todos temos um pouco
Assim como de sábio, de juiz e de louco
Adiantados, atrasados, parados ou sem alento
Guardamos sonhos maiores que o movimento (AG).

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Adoração dos magos. Sarcófago romano do séc. IV, proveniente do cemitério de Santa Inês. Museu Pio Christiano. Roma.

Journey of the Magi, álbum Barry & Beth Hall, A Feast of Songs: Holiday Music from the Middle Ages, 2002.

No friso de um sarcófago romano do séc. IV, figuram os três reis magos e respectivos camelos. Parecem clones. A estrela paira sobre a cabeça de Maria. Não há sinal do burro nem da vaquinha. O menino nasceu crescido. A música medieval, Journey of the Magi, é pequena mas encantadora.

We Believe in entertainment!

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O homem é um animal de convicções! Os franceses não destoam. Durante a crise de 1973, lembraram-se do seguinte lema: “Os franceses não têm petróleo, mas têm ideias”. Ao contrário dos romanos, que são malucos, os franceses são experts em ideias fantásticas.

Obélix. Les romans sont fous

A BEPC Paris, uma das melhores agências de publicidade a nível mundial, confirma esta vocação nacional. O anúncio The Wise Man surpreende com um dos desfechos mais espantosos e irreverentes de que há memória. As figuras do presépio rendem-se aos encantos da televisão. Eis uma inspiração digna de quem lhe está a cair o céu na cabeça.

A França tem ideias! Mas não tem petróleo. O que é incómodo. Talvez um ajustamento desse jeito… Para começar, um programa ambicioso de benchmarking externo e interno… Por exemplo, apostar em converter ideias originais em porcaria de série. De preferência, porcaria de alta qualidade. Existem alguns casos de sucesso que podem servir como referência: no século XIX, os franceses ergueram uma ideia colossal, a Torre Eiffel; desde então, reproduziram milhões de miniaturas. A multiplicação do mesmo sempre rende petróleo.

Marca: Canal+. Título: The Wise Man. Agência: BEPC Paris. Direção: Gary Freedman/The Glue Society. França, Dezembro 2013.