Língua e pensamento

Anchor Point. V.P. Âncora. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadas exteriores. Estava alojado nesta casa quando comecei um namoro que ainda dura.
Passou uma viatura com o letreiro: AnchorPoint. Pesquisei na Internet: trata-se de uma Surf School, Escola de Surf, sedeada em… Vila Praia de Âncora (“Anchor Beach City”). Nomes de empresas, associações e outras entidades portuguesas em inglês é uma prática que se repete como uma música do Philip Glass. Consta que o inglês cativa os clientes! Um País que engole a própria língua e se dobra perante o estrangeiro deve ser um país indisposto consigo próprio, com a sua identidade. Não há património imaterial da humanidade que compense. A indiferença face à língua, falada ou escrita, reflecte-se na língua com que se pensa, logo na qualidade do pensamento. “A minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa). E a nossa?
É possível pensar condignamente em todas as línguas. Sem hierarquias. Há quem domine e pense em várias línguas. Colhe, porventura, alguma vantagem. O que me preocupa é a leveza do linguajar das zonas francas. O estar entre duas línguas sem dominar nenhuma. Estranho que Portugal pareça apostar numa política linguística, científica e cultural de zona franca.
Philip Glass. Einstein on the beach – Knee Play 1. Einstein on the beach. Ópera. 1975.
Com o peixe na boca
É possível que, no enfiamento da política da língua portuguesa, o fado venha a ser cantado em inglês nos pubs de Lisboa. Esta decisão promoverá a internacionalização, senão a globalização, do fado.
A nível mundial, o português é a quinta língua mais falada e a sexta língua mais utilizada nos negócios. É a língua mais falada no hemisfério sul e a terceira língua da Europa mais falada no mundo. Se não for alterada a política da língua portuguesa, mais tarde ou mais cedo, a língua portuguesa será a segunda língua mais falada em Portugal.
A política da língua é complexa. Não é para asininos como nós. É para predestinados que sabem mandar desde o berço. Um exemplo. Os licenciados por cursos ministrados em língua portuguesa estão a sair do País. Podemos chamar a este movimento uma expiração de cérebros. Fossem os cursos ministrados em língua inglesa e talvez tivessem permanecido em Portugal. Por que motivo importa apostar na criação de cursos ministrados em língua inglesa? É plausível que os alunos estrangeiros inscritos nos cursos ministrados em língua inglesa acabem por se fixar em Portugal. Podemos chamar a este movimento uma aspiração de cérebros. Este é um caso exemplar de uma política de génio: aspirar, em vez de expirar, cérebros.

