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Saída de palco

Bink’s Sake. One Piece.

Alguém pediu uma homologia? Noção recomendável na sociologia dos anos sessenta. Lucien Goldman foi um praticante convicto, mormente nos livros Sociologie du roman (1964) e Dieu Caché (1955). Pierre Bourdieu acumula homologias, designadamente, na Distinção (1979), e na “semiótica” da casa cabila (“La maison ou le monde renversé”, in Esquisse d’une théorie de la pratique, 1972). Não esquecendo o contributo de autores clássicos como Max Weber e Georg Simmel. O afunilamento da investigação não ajuda ao estudo das homologias, cuja pesquisa pressupõe abrangência, comparação e sentido da diferença. A comparação não requer, antes pelo contrário, igualdade de origens, conteúdos ou funções entre realidades

Pode-se falar de homologia entre o vídeo da canção Bink’ Sake, do anime One Piece, e a Sinfonia do Adeus de Haydn. Os músicos retiram-se paulatinamente da orquestra. Trata-se de uma despedida colectiva e individual. Um corpo que se fragmenta. Os intérpretes retiram-se um a um, sem cronograma pré-definido. No palco, permanece, “abandonado”, o maestro.

Na canção Bink’ Sake relevo duas correspondências: uma relativa à dança macabra, a outra à Sinfonia do Adeus.

O protagonista de Bink’ Sake é um mortal que se tornou imortal. Imortal como a morte. Apesar de ser imortal, não escapa à corrosão do tempo: decompõe-se como um transi. Conforme antes ou após a imortalidade, ora aparece como humano, ora como esqueleto. O que não o impede de comandar a música e a dança. Na parte final, os músicos e os cantores formam um círculo, à semelhança da maioria das danças macabras, e (des)falecem desamparados. A letra da canção confirma o destino: “We all end up as skeletons”.

A canção Bink’ Sake e a Sinfonia do Adeus são de géneros distintos. Concentram-se nos intérpretes: instrumentistas, cantores e maestros. A saída da vida, num caso, e do palco, no outro, são quase desenhadas a papel químico. Uma a uma, as pessoas retiram-se do grupo, da vida ou do palco. O último conta os estragos: “What’s wrong… We’re just a quartet… Trio…Duet… Solo.”

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Bink’ Sake. One Piece. Vídeo.

As regras do jogo

Hans Arp. Birds in an Aquarium. c. 1920

Hans Arp. Birds in an Aquarium. c. 1920.

O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário.

Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.

Trepadeiras e crocodilos

Gravura do século XVIII.

Gravura do século XVIII.

Há países que acabaram com a nobreza e multiplicaram os nobres.
Curiosamente, fala-se muito do funcionalismo público e pouco da nobreza de Estado.
Quase invisíveis, quase não prestam contas.
Se fossem plantas, seriam trepadeiras; se fossem animais, crocodilos.
Como os da canção de Isabelle Mayereau (1979).

 

Vous qui refaites le monde
Avec des gants de boxe
Qui n’avez qu’une idée :
Être premiers au box
-Office des P.D.G.
Vous écrasez les gens
Vous marchez sur leur tête
Vous y cognez dedans,
Un peu comme à la fête,
Décidés

Et vous grimpez l’échelle des coefficients
Agendas de croco, Mercedes six-cent,
Six-cent, six-cent

Vous qui manipulez
Les gens comme des mounaques,
Qui en faites du mou à chat,
Par kilos et en vrac,
Dégueulasse,
Vous glissez dans l’ velours
De ces bureaux foncés
Aux senteurs de havane
Légèrement sucrées,
Efficaces

Et vous prenez le pas de tous ces géants
Qui ont fait l’Amérique d’un seul coup de dents,
De dents, de dents

Et vous écrasez tout
Pour un seul bout de fric
Vos mots, c’est pas des mots
Mais c’est des coups de trique
Mais hélas,
Vous ne pourrez jamais
Pénétrer dans ma tête
Y fourrer vos doigts sales
En forme de chronomètres,
Carapace

Et vous prenez le pas de tous ces volcans
Qui ont vomi leur âme, c’était noir dedans,
Dedans, dedans

Vous qui refaites le monde
Avec des gants de boxe
Qui n’avez qu’une idée :
Être premiers au box
Office des P.D.G.
Vous écrasez les gens
Vous marchez sur leur tête
Vous y cognez dedans,
Un peu comme à la fête,
Décidés

Vous nagez dans des eaux mais ce n’est pas le Nil
On vous appelle parfois, parfois “les crocodiles”,
Crocodiles, crocodiles