Os pés

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)
Selfie Shoes
Grandes problemas, pequenas soluções. Eis o ovo de Colombo da reflexividade na era da modernidade avançada. O triunfo dos pés. Os pés são a parte do corpo mais distante da cabeça. O que comporta vantagens. Sobretudo quando a cabeça parece um vegetal: nabo, coco, abóbora, alho chocho, batata, cebola, grelo…Voltando ao anúncio. Parece falso (fake), mas, se calhar, não é: a marca parece existir. Por outro lado, nos vários sites que pesquisei, não é mencionado nem o nome da agência, nem o nome da direção. O que pode acontecer: algumas marcas asseguram essas funcionalidades. Mas é raro. Foi publicado um ou dois dias antes do dia 1 de Abril! Há quem tenha sentido de humor. Se for o caso, tiro o chapéu. Não sei que diga: o melhor é esperar para ver.
Marca: Miz Mooz. Título: Selfie Shoes. USA, Março 2015.
A evolução da espécie
Feliz por estar de volta! A intensidade da ergoterapia diminuiu. Por um tempo. Aguarda, impaciente, a mezinha do costume (candidaturas, defesas, avaliação, escrita e actos administrativos). As “férias”, sem subsídio, estão com vontade de ir a banhos. Mesmo disfarçado no sobe e desce das ondas, não há excesso sem ironia: será que todo este zelo ergoterapeutico contribui, estupidamente, para a dispensabilidade paraconstitucional da função pública? Uma das principais mutações genéticas da sociedade portuguesa. Enquanto dou pontapés à água, pasmo! Não me lembro de jovens (portugueses) e velhos (europeus) se entenderem tão bem. Deve ser coisa da astrologia: uma constelação extraordinária sob influência de um astro luminoso (neoliberalismo, tecnocracia, neocurialização…). Nunca o saberei. Cegueta como sou, já não enxergo bem as estrelas.
A evolução das espécies sempre gerou controvérsia: Lamarck, Darwin, Mendel… Hoje, em plena civilização do teclado, a hereditariedade joga-se nos polegares. Mas há quem contraponha os pés, para descanso das mãos. Tive ensejo de mencionar a subida da cotação dos pés no mercado simbólico: A emancipação dos pés (http://tendimag.com/wp-admin/post.php?post=6716&action=edit) e A redenção dos pés (http://tendimag.com/wp-admin/post.php?post=3018&action=edit). Há quem sustente que a grande mudança se prende com as próteses: os vindouros serão biomecanóides ou ciborgues. Vão nascer com implantes, silicones e outras proezas da salvação médica. Não sou biólogo, nem filósofo, mas também tenho uma pequena teoria. Todos aprendemos, com os nossos sábios responsáveis, que combater a dívida consiste em transferi-la de uns para outros. Não me perguntem de quem para quem, porque sabem a resposta. No limite, ao jeito de um processo markoviano, a dívida, esse pecado infernal, vai tocar a todos: até quem nos endividou vai ficar endividado. O legado da nossa geração será, portanto, o seguinte: todos nascerão endividados, uma nova espécie de pecado original. Depois do Homo habilis, do Homo erectus e do Homo sapiens, eis que nasce, na Lusitânia, o Homo pelintrus.
Marca: Christie Potato Thins. Título: Handsfree. Agência: UNION. Direção: Zach Math. Canadá, Julho 2013.
A redenção dos Pés
Física e simbolicamente dominados, os pés são ímpares no que respeita a abnegação e sacrifício. Parece ser sua vocação, e nossa também, suportar os outros e o mundo, andar com a altivez às costas. “Pés de todo o mundo, uni-vos!” Dai um pontapé aos vossos fardos! Rexonem-se!
Marca: Rexona Efficient. Título: Acknowledgement. Agência: Ponce, Buenos Aires. Direção: 300 ml. Argentina, Maio 2012.
