Tag Archive | Pearl Jam

Corações ao alto

A história é uma galeria de quadros onde há poucos originais e muitas cópias (Alexis de Tocqueville, L’Ancien Régime et la Révolution, cap. VI, 1ª ed. 1856).

Hegel observa algures que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). 

A propósito dos Estados Unidos, onde é que já vi algo semelhante como tragédia? Importa, no entanto, não esquecer aqueles que nos enriqueceram

Pelos vistos, tenho o coração em estado razoável! Reconheceu-o ontem a cardiologista após semanas de exames. Para saborear, deu-me para ouvir os Pearl Jam. Títulos como “Alive” (1991), “I Am Mine” (2002), “Just Breath” (2009) e “Future Days” soavam de feição.

Há duas semanas, 8 de maio, no concerto da Bridgestone Arena, em Nashville, os Pearl Jam convidaram o Peter Frampton para os acompanhar na canção “Black”. Pois o que se costuma dizer das divindades e dos anjos, parece aplicar-se a determinadas estrelas do rock: “sem idade”. Peter Frampton, embora com 75 anos, mobilidade reduzida e bengala, evidencia a habitual destreza na guitarra.

Proporcionou-se recuar a 1976, ano em que adquiri o Frampton Comes Alive. Naquele tempo, comprar um álbum duplo doía na carteira. Convinha, efetivamente, gostar!

Seguem três vídeos com músicas contempladas no álbum Frampton Comes Alive. Todas ao vivo: “Do You Feel Like We Do”, em 1975, “Show Me The Way”, em 1977, e, finalmente, “Baby I Love Your Way”, em 2019. Acresce o vídeo referido com a interpretação de “Black” com os Pearl Jam, tinha Peter Frampton 75 anos de idade.

A comparação do Peter Frampton em 1975 e 2025 comove. Afortunadamente, o bom coração parece estar bem.

Peter Frampton – Do You Feel Like We Do. Frampton’s Camel, 1973. Performance at Burt Sugarman’s Midnight Special, circa 1975
Peter Frampton – Show Me The Way. Frampton, 1975. Live at Oakland Coliseum Stadium, 7/2/1977
Peter Frampton – Baby I Love Your Way. Frampton, 1975. Live at  ine Knob Music Theatre, Clarkston, Michigan, 25/7/2019
Pearl Jam – Black (with Peter Frampton). Ten, 1991. Live at Bridgestone Arena, Nashville, 8/5/2025

Músicas surrealizadas 04

Pearl Jam: Life Wasted

A trovoada e a moleza prestam-se a um vídeo musical com fundo de pesadelo a lembrar uma “noite sem fim” abalada por um cortejo frenético de monstruosidades pouco recomendáveis a almas sensíveis. Algo duro, very hard, assim como Life Wasted, dos Pearl Jam, condimentado por meia dúzia de quadros do Max Ernst.

Imagem: Max Ernst. Noite sem fim. 1940

Pearl Jam – Life Wasted. Pearl Jam, 2006

O ninho

É bom saber que se tem um ninho. Segue a versão Pearl Jam (2011) da canção Mother dos Pink Floyd, bem como a canção Mamy Blue, dos The Pop Tops

Pearl Jam. Versão da canção Mother dos Pink Floyd. 2011 11 06 – Rio de Janeiro, Brazil.
The Pop Tops. Mamy Blue. Mamy Blue. 1971.

A Mãe e a Guerra

Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.

Conjunto Oliveira MugeO Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).

A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.

Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.

José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.

Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).

John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.

Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).

Podia ser pior

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools.

“Eu é um outro” (Arthur Rimbaud. Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871).

Usamos máscaras; somos máscaras. Fragmentados, somos um puzzle desencaixado e instável. Tudo se decompõe, tudo se move, menos as doenças de estimação. Hoje, fiz uma ecografia. Temia um problema, afinal tenho dois: fígado gordo e calhau na vesícula! Apetece-me celebrar! Por exemplo, com vídeos musicais focados na miscelânea de cacos que nunca deixamos de ser. Os dois primeiros são suaves, o terceiro é cáustico.

Antes de passar aos vídeos, uma anedota que o meu avô gostava de contar.

Dois amigos conversam.

  • Ontem um comboio atropelou uma procissão que atravessava a passagem de nível.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se o comboio viesse atravessado…
  • Ontem, Fulano matou um homem que estava com a mulher no quarto.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se fosse na noite anterior, o morto era eu.

Katie Melua. I Cried For You. Piece by Piece. 2009.

Damien Rice. 9 Crimes. 9. 2006.

Pearl Jam. Life Wasted. Pearl Jam. 2006.

Chuva de imagens

É cada vez mais frequente as imagens não se alinharem harmoniosamente em função de uma história. Há vídeos em que as imagens se acotovelam e se atropelam sem prosseguir um destino. Parecem mosaicos que se desfragmentam à medida que o tempo passa. Não têm princípio, nem trama, nem desenlace. Quando muito, retorno. Descuidam a razão e o raciocínio. Agarram-se ao corpo, às sensações, aos sentimentos, às emoções e ao imaginário. Aceleradas e babélicas, as imagens atordoam e excitam os sentidos. Abraçadas à música, multiplicam os efeitos. Geram ambientes e disposições. Absorvem. Perturbadoras, remetem para a potência, para o sonho e para o mito. Dispensam a lógica e a palavra. No domínio dos vídeos musicais, os The Beatles foram pioneiros nesta estranha forma de comunicar. Seguem-se dois exemplos: o primeiro a partir da música “Decades”, dos Joy Division, e o segundo, “Life Wasted”, dos Pearl Jam.