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O robot que ri

Sprint Evelyn

“A guerra interior da razão contra as paixões fez com que os que quiseram ter a paz se dividissem em duas seitas: uns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses; outros quiseram renunciar à razão e tornar-se brutos. Mas, não o conseguiram nem uns nem outros; e a razão, ficando sempre, acusa a baixeza e a injustiça das paixões e perturba o repouso dos que a elas se abandonam; e as paixões estão sempre vivas nos que querem renunciar a elas” (Pascal, Blaise, 1670, Pensamentos).

O homem é um ser racional? Talvez menos do que nos aprestamos a acreditar. Os grandes clássicos da sociologia duvidam. Atente-se nas “acções racionais com relação a valores”, nas “acções afectivas” e nas “acções tradicionais”, de Max Weber (1864-1920); ou nas “acções não lógicas”, de Vilfredo Pareto (1848-1923). Acrescente-se que, ao arrepio de G.W.F. Hegel (1770-1831), um fenómeno pode ter sentido sem ser racional.

O anúncio Evelyn, da Sprint, mais do que uma paródia, aproxima-se de um cúmulo da racionalidade. O próprio anúncio é racional, como a maioria dos anúncios. O objetivo é um efeito São Paulo: a conversão dos espectadores da Veryson para a Sprint. O meio é eficaz: uma paródia de uma “escolha racional”, ou seja, da emergência de uma decisão inteligente.

Os robots são os protagonistas do anúncio. Eles e nós, que nos identificamos com o cientista. A exemplo da Evelyn, são capazes de aprender. E de dar instruções. Creio que já existem máquinas capazes de aprender e de instruir. Configuram, de algum modo, um efeito de realidade.

Para além de aprender e instruir, os robots têm sentido de humor. Entramos no cerne do anúncio. Os robots riem! Riem do cientista, com o qual nos identificamos. Riem de nós, os tansos que ainda não mudaram para a Sprint. Embora não pareça, o anúncio apela ao sonho, um sonho embalado pela razão.

A identificação é um processo complexo, nada linear. Podemos identificar-nos com o cientista e, ao mesmo tempo, com os robots. Uma identificação dupla. Somos propensos à identificação com animais, cartoons, bebés e robots. Os robots riem-se de nós; e nós com eles.

Marca: Sprint. Título: Evelyn. Agência: Droga 5. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Imaginação

Nescafé

O anúncio da Nescafé, Those few people, é original. Uma tentação bem gizada. Faz sentido o exercício proposto. Eloquente, mas impossível. Parte das pessoas que nos comoveram não pode sentar-se num anfiteatro. Mas o exercício não perde o voo. É didáctico, mas continua impossível! Confrontado com uma realidade que te embaraça, imagina, sonha uma realidade que te liberte. Vê com o olho interior. Imagina! Para Albert Einstein, a imaginação é mais importante que conhecimento. Imagina!

“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, 2002, Pensamentos, eBooksBrasil.org, Artigo XX: XIII).

A música do anúncio é um cover do Stand by me, do John Lennon, por coincidência o autor da canção Imagine.

Marca: Nescafé. Título: Those few people. Agência: Publicis (London). Direcção: Henry Mason. Europa, Outubro 2017.

John Lennon, Imagine. Imagine, 1971

Se

Sol

Se é, porventura, a palavra mais preciosa do pensamento humano.

“Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse não sei quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro. Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado (Blaise Pascal, Pensamentos).

E se, em vez do nariz de Cleópatra, fosse o sol a apagar-se? Este anúncio, estreado hoje, propõe um cenário.

Anunciante: Festival El Sol. Título: 8:20. Agência: Publicis España. Direcção: Jérôme Walter. Espanha, Março 2017.

Elogio da confusão

DHLO General de Gaulle gostava de contar a seguinte anedota:
“Um dia, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão nos Estados-Unidos. Todos, cada um no seu posto, impecáveis e concentrados. Começa a contagem: 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão não partiu!
Noutra ocasião, fui convidado a assistir ao lançamento de um foguetão na Rússia. Todos fora de lugar, a comer, a beber, a conversar… 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… E o foguetão partiu!”
Um filósofo, creio que Giambattista Vico, contrapôs a outro filósofo, creio que René Descartes, que uma “cabeça cheia de ideias claras e distintas” era uma cabeça morta.
Diz-se que da confusão nasce a luz. Mas Blaise Pascal não resiste a complicar: “demasiada luz ofusca”.
Os tempos que correm são favoráveis àqueles que andam com a cabeça cheia de ideias claras e distintas. Os faróis. Para mal dos nossos pecados, nem sombra fazem!
Vêm estes apontamentos a propósito do anúncio Mexican Curious, da DHL. A confusão reina na sinalética das ruas da cidade de México. E, no entanto, aposto que funciona.

Marca: DHL. Título: Mexican Curious. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia / Luis Villalobos. México, 2005.

Made in Italy

duomo (7)

Milão

A Alzheimer Portugal (Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer) lançou, recentemente, o anúncio Primeiro Encontro, encomendado à BBDO Milan e falado em inglês. Um anúncio italiano, para uma ONG portuguesa, em inglês, lembra um arco-íris multicultural. Convém considerar que os anúncios de sensibilização inscrevem-se, muitas vezes, de um modo próprio no mercado da publicidade. Milão? Tem uma boa imagem ao nível do calçado, da moda, do design e do futebol. A Piazza del Duomo abriga, para além da catedral, uma das “esferas públicas” nocturnas mais concorridas do planeta. Um produto italiano, em inglês, para uma organização portuguesa, a que público se destina? Estima-se que esta campanha para angariar donativos tem uma abrangência internacional.

Não desgosto do anúncio. Atendendo à sensibilidade do tema, apesar de comovente, não se desdobra em sentimentos e emoções. Apela à reflexão e à consciência. O olhar solicitado é proustiano. Prefere os pormenores aos detalhes. O todo refaz-se, não se desfaz. O todo é urdido por pontas soltas e retalhos. Desculpem este linguajar maneirista, “ao jeito italiano” (e.g. Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, 1ª ed. 1978). Por outras palavras, o todo e as partes estão interligados: “je tiens impossible de connaître les parties sans connaître le tout non plus que de connaître le tout sans connaître particulièrement les parties” (Pascal, Blaise, Pensées, obra póstuma, 1670). O que Pascal entendeu por bem não dizer é que o todo e as partes se podem percorrer de várias maneiras: do todo para a parte, da parte para o todo, do todo para o todo, da parte para a parte e, também, por travessia. Quer-me parecer que, no anúncio, os pés descalços não são preditos pelo todo, convidam, antes, a imaginá-lo e a descobri-lo.

Anunciante: Alzheimer Portugal. Título: First Date. Agência: BBDO Milan. Direcção: Alessio Fava. Itália, Abril 2016.

A música do anúncio é um cover da canção Have You Ever Seen The Rain (1970), dos Creedence Clearwater Revival. Segue uma interpretação ao vivo.

Prazer

“O homem nasceu para o prazer: sente-o, dispensa mais provas. Segue assim a razão ao entregar-se ao prazer. Mas sente amiúde a paixão no seu coração sem saber como começou.

Um prazer verdadeiro ou falso pode igualmente satisfazer o espírito. Que importa que esse prazer seja falso, desde que estejamos persuadidos que é verdadeiro?
À força de falar de amor, ficamos apaixonados. Nada mais fácil. É a paixão mais natural no homem.
O amor não tem idade; está sempre a nascer”
(Blaise Pascal, Discours sur les Passions Amoureuses, 1ª ed. 1652-1653).

Pascal escreve sobre o prazer e o amor. A tapeçaria do Museu de Cluny exibe um breviário de prazeres: o banho, a nudez, a música, as jóias, as iguarias…  A iluminura do Codex Manesse versa sobre o prazer que Pascal mais enaltece: o amor. Jacques Brel canta um paradoxo: “Quando só nos restar o amor, teremos o mundo inteiro nas mãos”.
Gosto de Pascal, da arte medieval e de Jacques Brel. E tu?

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Tapeçaria. Finais do séc. XV. Museu Nacional da Idade Média. Cluny, Paris.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

Codex Manesse, Herr Conrad von Altstetten, c1340, Zurich.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Jacques BrelJacques Brel. Quand on a que l’amour. Jacques Brel 2 (estreia em 1957).

A Menina Bexigosa

São raras as canções que abordam a discriminação estética. A Menina Bexigosa (1973), de Manuel Freire, consta entre as excepções. Nunca, como hoje, a fealdade foi tamanho fardo e a beleza tanto capital. Numa sociedade rendida à aparência, a beleza é a primeira e a mais eloquente carta de recomendação. No Discurso Sobre as Paixões do Amor (1652-1653), Blaise Pascal constata que “há um século para as loiras, outro para as morenas (…)  A própria moda e os países regulam aquilo que se chama beleza”.  A moda passa, mas permanece. A beleza justifica uma violência simbólica exacerbada. Os ismos e os pós ismos, tão cheios de razão, têm ignorado esta desigualdade. Não há nada a fazer? Talvez ver com outros olhos, o que não se resume aos óculos.
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem (Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520-1525).

Quentin Massys. Matched Lovers, c. 1520.525
Manuel Freire. A Menina Bexigosa. 1973.

A Menina Bexigosa

A menina bexigosa viu-se ao espelho
soltou-se do vestido e viu-se nua
está agora vestida de vermelho,
inerte, no passeio da rua

Antes fora alegria e alvoroço
mas num baile ninguém a foi buscar
morreu o sonho no seu corpo moço
passou a noite a chorar

Tanto chorou que lhe chamaram louca
cada qual lhe levava o seu conselho
mas ninguém ninguém ninguém lhe beijou a boca
e a menina bexigosa viu-se ao espelho

Depois, fecharam a janela
vieram os vizinhos: ´Pobre mãe…´
vieram os amigos: ´Pobre dela…´
era tão boa e simples tão honesta,
… portava-se tão bem´
E dão-lhe beijos na testa
beijos correctos pois ninguém, ninguém
soube em vida matar a sua sede

´A menina bexigosa portava-se tão bem´
O espelho continua na parede.

Sidónio Muralha

Francisco de Goya. Leveza e Turbulência

“A estupidez é um peso no espírito que carregamos connosco nas acções e nos discursos” (Blaise Pascal).

Leveza e turbulência, eis uma associação que sempre acompanhou a humanidade. Neste capítulo, a reivindicação de originalidade aproxima-se da sublimação da ignorância. Somos biliões de seres humanos e temos centenas de milhares de anos. Tanta gente criativa! Aspirar a uma ideia original é como procurar uma agulha num palheiro e enfiar-lhe, em seguida, um camelo pelo fundo. Como diria Pascal, demasiada inteligência estupidifica.

Goya. Bruxas no Ar. 1797-8

Goya. Bruxas no ar. 1797-8.

A leveza e a turbulência estão patentes nos frescos de Pompeia e da Domus Aurea, nas esculturas e nas iluminuras medievais, nos tormentos dos juízos finais, nas artes da bruxaria, nas pinturas de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Francisco Goya, Marc Chagall ou Max Ernst.

07. Goya. Folly of the Bulls, circa 1815.

Goya. Folly of the Bulls, circa 1815.

A originalidade plagiada exalta pequenos e grandes “mestres pensadores”. Convém, no entanto, não invocar o nome da originalidade em vão! Nem sequer a tirada de Isaac Newton convence: “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Gigantes, só nos contos de fadas, nos filmes e nos videojogos. Só não somos anões porque nos fizeram aos saltos. Importa pagar tributo aos credores. Começo por Francisco de Goya.

10. Goya. Atropos o Las Parcas. 1820-1823

Goya. Atropos o Las Parcas. 1820-1823.

É difícil encontrar autor que tão bem conjugue leveza e turbulência. Principalmente nos Caprichos e durante a “fase negra”. Leveza e turbulência no tema e no traço, testemunhos de uma vida e de uma obra conturbadas, senão trágicas. Figuras e pessoas erguem-se nos ares desassossegadas e ameaçadoras: bruxas, monstros, parcas, bestas e seres humanos, ou seja, “os fantasmas de Goya”, título de um filme de Milos Forman, de 2007, menos sobre o pintor e mais sobre a relação entre uma jovem vítima e o seu agressor, um inquisidor, um caso de síndrome de Estocolmo.

Francisco de Goya. Leveza e Turbulência. Uma selecção.

 

A ligação à Internet

“A última diligência da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Há quem acredite que a Internet começa no ecrã. O gesto inicial do utilizador seria a ligação, seguida pela imersão. A minha ideia é outra, o utilizador faz parte da Internet. Nem ponto de partida, nem ponto de chegada, mas ponto de passagem. Não vamos à Internet, reencontramo-nos na Internet: no correio electrónico, nas redes sociais, no blogue… Mesmo quando não estamos na Internet, estamos na Internet.

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Apesar do entusiasmo pelo fenómeno da imersão, não se vislumbra sombra de luto pela emersão. A emersão enche-nos os olhos e os ouvidos, mais o corpo do que a mente. Entre a imersão e a emersão, as fronteiras são frágeis e porosas. Há filmes, vídeos musicais e anúncios publicitários que, nesse capítulo, lembram as gravuras do E. C. Escher.

Nestes anúncios da Terra Zoo, a imersão e a emersão intrincam-se. Num gesto, conjugam-se, num ápice, imersão e emersão. É raro um anúncio ser, simultaneamente, tão expedito e tão sedutor. Um piscar de olhos perfeito para promover uma empresa comercial online.

“A razão nunca se sobrepõe totalmente à imaginação, o contrário é corrente” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Marca: Terra Zoo. Título: Dog Food. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Coleira. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Osso. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Humor frutado

3_-_cancer_now_available_print_strawberry_aotwL’homme n’est ni ange ni bête, et le malheur veut que qui veut faire l’ange fait la bête” (Blaise Pascal, Pensées).

“O homem nem é anjo nem é besta, e o infortúnio dita que quem quer fazer de anjo faz de besta”.

Humor macabro destilado nos alambiques da consciencialização rumo a uma prevenção provavelmente eficaz entre os humanos. Qual será a opinião dos vermes?

Anunciante: Canadian Cancer Society. Título: Operating room. Agência: Rethink. Direcção: Michael Schmidt. Canadá, Janeiro 2015.