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A ruína da alma

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“A ciência sem consciência é apenas ruína da alma” (François Rabelais, Carta de Gargântua a Pantagruel, Pantagruel, 1532).

A avaliação e o financiamento da ciência adoptam a linguagem das dimensões, dos indicadores e dos índices. Assombra-me a dúvida de que da proposta metodológica de Paul F. Lazarsfeld (Boudon, Raymon & Lazarsfeld, Paul, 1965. Le vocabulaire des sciences sociales. Des concepts aux indices, Paris, Mouton) tenhamos sido contemplados com a majestosa parte anal. Molda, retalha, conta e apura, frisando o mais absurdo dos formalismos! Segue uma reacção em cadeia “científica”, segundo a Google.

Marca: Google. Título: A Google Science Fair Experiment Extended. Agência: Syyn Labs. Direcção: Jonathan Zames. USA, 2011.

O Perfume Filosofal

A pedra filosofal liquefaz-se e desfaz-se no ar. Descobriu-se uma fragrância que “transforma um rapaz em homem, as raparigas em namoradas,  e as mães em criaturas aflitas”. O nome do prodígio é Old Spice, o perfume do delírio. As criaturas do anúncio são tão estranhas que lembram os infernos do Alto Renascimento. A continuar deste jeito, a Old Spice tornar-se-á numa espécie de Hieronymus Bosch da publicidade.

Marca: Old Spice. Título: Mom Song: 60. USA, Janeiro 2014.

Invocar os infernos e Hieronymus Bosch é um exagero. Certo é que muitos anúncios de perfumes exalam tentação e pecado. Por outro lado, se há  infernos dantescos, também há, segundo outros testemunhos, infernos aprazíveis. Se Deus recompensa os justos, por que haveria Lúcifer de castigar os pecadores? Atente-se nesta episódio do livro Pantagruel, de François Rabelais (1532).

Na refrega contra os gigantes, Epistémão, amigo de Pantagruel, foi decapitado. Panurgo consegue, porém, “chamá-lo à vida”:

“De repente, Epistémão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva (…) Desatou então a falar e contou que tinha visto os diabos, falara sem cerimónias com Lúcifer, fora muito bem tratado no inferno e nos Campos Elísios, a todos garantindo que os diabos fazem boa companhia. Quanto às almas danadas, explicou que muito aborrecido se sentia por Panurgo ter sido tão rápido a chamá-lo à vida.
– Porque olhá-las (disse ele) é um singular entretenimento.
– Então porquê? – quis Pantagruel saber.
– Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma. Sim, porque vi Alexandre o Grande remendar calças velhas para ganhar a sua pobre vida.
Xerxes apregoar mostarda
Rómulo era vendedor de sal
Numa fazia pregos…”

(François Rabelais, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, 2006, p. 168-170).

 Segue-se uma centena de nomes de figuras históricas (François Rabelais é um caso extremo da vertigem das listas de que se ocupa Umberto Eco). Em suma, o inferno trata bem os condenados, “embora lhes altere o seu estado de estranha forma”. Opera uma inversão social: Quem era poderoso na terra, é humilde no inferno. Assim o ilustra a gravura de Gustave Doré.

Gustave Doré. Ilustração do Pantagruel, de François Rabelais

Gustave Doré: “Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma”. Oeuvres de François Rabelais, Paris, J. Bry Ainé Libraire Éditeur, 1854, p. 137.

Choque tecnológico

Em 2008, vigorava em Portugal o “plano tecnológico”. Na China, decorriam os XXIX Jogos Olímpicos de Pequim. E a GE – General Electric produzia, pela ocasião, dois anúncios de humor votados ao desporto e à tecnologia. O primeiro, Discus, parece uma sequência de um filme do Astérix. No segundo, Dragon, o engenho no aproveitamento da chama do dragão para aquecimento dos banhos só tem paralelo na origem, segundo François Rabelais, de algumas das mais famosas termas de França: Pantagruel adoeceu; um “fluxo de bolsa” provocou-lhe urina quente. Esta, infiltrada no solo, deu origem às termas de água quente de Cauterets, de Dax e de outras estâncias termais gaulesas (Le Tiers Livre des faits et dits Héroïques du noble Pantagruel, chapitre 33).

Anunciante: GE. Título: Discus. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008

Anunciante: GE. Título: Dragon. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008

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Tal como aconteceu com os Caprichos de Francisco Goya, Salvador Dali retocou 25 dos 120 desenhos de François Desprez. Se estes já eram bizarros e oníricos, Salvador Dali surrealizou-os à moda do séc. XX. E se já eram ousados do ponto de vista sexual, mais ousados ficaram. Os Songes Drolatiques de Desprez e os Caprichos de Goya são extraordinários. Pois Dali passou por ali. E deixou a sua marca inconfundível.

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François Rabelais (1494-1553) é um dos grandes nomes da literatura universal. Pantagruel e Gargantua, seguidos pelo Tiers Livre e pelo Quart Livre, são obras-primas originais, escritas num estilo livre, criativo e ousado. Mikhail Bakhtin fala, a seu propósito, em realismo grotesco, eivado por um humor desenfreado, fantástico e exorbitante, francamente inspirado na cultura cómica popular da época. Apesar de sucessivas proibições, os romances de Rabelais foram um caso sério de popularidade.

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Em 1979, devorei A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o Contexto de François Rabelais, de Mikhail Bakhtin, e decifrei toda a obra de François Rabelais na versão original. Há coincidências prodigiosas. François Rabelais é, para mim, um dos melhores escritores de todos os tempos e Bakhtin, um dos maiores pensadores do século XX. A influência de Rabelais venceu os séculos. Concebeu situações e seres fantásticos. Artistas, como Salvador Dali, não resistiram à tentação de os desenhar.

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O álbum Les Songes drolatiques de Pantagruel, ou sont contenues plusieurs figures de l’invention de maistre François Rabelais, da autoria de François Desprez, é uma das primeiras obras gráficas dedicadas às personagens rocambolescas do livro Pantagruel. Foi editado em 1565, doze anos após a morte de Rabelais. Les songes drolatiques é composto apenas por 120 gravuras legendadas. Segue uma galeria com algumas dessas “criaturas”. Fala-se muito, na atualidade, em ciborgues, homens-máquina e biomecanóides. Mas já em 1565, há mais de quatro séculos, a questão da ligação entre o corpo e a técnica era sistemática e explicitamente abordada. O nosso tempo, dito pós-moderno, compraz-se em barrigadas sociocêntricas. Somos diferentes, claro! Mas muito menos do que se nos afigura.

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Recorri a estas imagens numa comunicação intitulada “O tecnohumano na era dos descobrimentos: a pretexto do livro Tecnologia e Configurações do Humano na Era Digital”, no âmbito do encontro Ecosofia na Era Digital, 1º Simpósio Internacional, Universidade do Minho, 28 de Junho de 2011.