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Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Sem palavras

Um anúncio português culto, desconcertante e macabro. Para aceder ao vídeo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/4-hands-scriptwriting-festival-kitchen/.

Anúncio Português

Anunciante: Portugues Film Academy. Título: Kitchen. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Agosto 2017.

No princípio, era a palavra

Always. Intimate WordsNo princípio, era a palavra. Agora, insinua-se a imagem. Mas a imagem sem a palavra assemelha-se a um balão S. João. Este anúncio centra-se, precisamente, na palavra, que, banner a banner, se apropria do ecrã. O anúncio parece artesanal, o que não desmerece. Importam mais as palavras e as pessoas do que a pós-produção e os efeitos especiais. O anúncio expõe uma iniciativa específica que obteve alguns resultados no combate ao cancro do colo do útero. Com palavras!… Ao contrário da maioria dos anúncios de consciencialização, este não é profético. Não anuncia terras prometidas, nem separa o trigo do joio. É evangélico, faz obra e apregoa a boa mensagem. Mais Cristo, menos Moisés.

Anunciante: Always. Título: Intimate Words. Agência: Leo Burnett. México, Abril 2015.

Palavras do tamanho do mundo

Onu. The World needs more

Este anúncio das Nações Unidas centra-se na palavra. É certo que “no mundo há muitas palavras e poucos ecos” (Goethe), e, contrariando Sólon, “a palavra [não] é o espelho da acção”; a palavra pode, inclusivamente, ser o seu disfarce. O anúncio convoca 19 palavras para expressar aquilo que “o mundo mais necessita”. Palavra puxa palavra, e outras ocorrem. Por exemplo, a verdade. Realidade complicada, pela qual muitos seres humanos deram a vida. Uma palavra que caberia em mais três segundos de anúncio. Sem ela, as demais palavras arriscam-se a ser levadas pelo vento. Um vento, porventura, tóxico.

Anunciante: ONU, World Humanitarian Day 2013. Título: The World Needs More. Agência: Leo Burnett, New York. EUA, Agosto 2013.

Palavras com imagens

A palavra sempre foi importante na publicidade. Em alguns anúncios é, porém, muito importante. A França é um país que cultiva sobremaneira a palavra. Vê-se nestes dois excelentes anúncios produzidos pela mesma agência de publicidade, a Publicis Conseil (Paris), para marcas francesas (Galeries Lafayette e Orange), com realizadores franceses (Philippe André e Bruno Aveillan). A palavra como eixo da imagem.

Marca: Orange. Título: Les Mots. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Philippe André. França, 2009.

Marca: Galeries Lafayette. Título: Recette d’une femme mode. Agência : Publicis Conseil, Paris. Direcção : Bruno Aveillan. França, 1998.

Caça Palavras

Os videojogos fazem parte da nossa vida e, naturalmente, da publicidade. A par do humor, do corpo, do sexo, dos ídolos e do desporto, os videojogos abrem o seu caminho. Este anúncio da Faber-Castell combina com sucesso o First Person Shooter Game, o Paintball, o alfabeto e o marcador. Quantos livros não manchei com cores pop art para nunca mais os reabrir! Cemitérios de letras pintadas.

Marca: Faber-Castell. Título: Don’t Miss a Word. Agência: Ogilvy , Singapore. Singapura, 2012.