A dança das palavras com as imagens
As palavras e as imagens podem enlaçar-se numa espécie de valsa acelerada. No anúncio #YesOfCorsa, do Opel Corsa Electric, as perguntas marcam o compasso e as respostas ilustradas proporcionam o movimento.
Desfazer-se em palavras

A falar é que a gente entende. Assiste-se a uma viragem na publicidade, menos apostada em imagens do nunca antes visto e mais em conversas triviais do quotidiano. Privilegia-se a interação vulgar e a tagarelice, nomeadamente a chamada “conversa da treta”. O que se passa? Redescobre-se a importância da convivialidade? Ou, confrontados com tamanha erupção de imprevistos indesejados, ficámos subitamente alérgicos a surpresas, preferindo a ba(da)lada do banal eventualmente insignificante?
Horror de Verão

Onde não há imaginação não há horror (Arthur Conan Doyle)
Sorry for scaring you! Eis a escusa, uma cativante maldade, enunciada por alguns anúncios recentes. Encenam paródias de filmes, por sinal com muita conversa. Há poucos anos, a presença da palavra resultava escassa. Apostava-se mais na imagem. A palavra, escrita ou oral, tende a conquistar protagonismo. Fala-se bastante. Qual a razão? Reação pós-Covide? Efeito da facilitação técnica da comunicação interpessoal? Humanização, naturalização ou aproximação aos públicos? Não sei! Porventura outro motivo qualquer. Estes três anúncios proporcionam três tipos de terror: ”Maldição” (papel higiénico que transforma as sanitas em monstros); “Medusa” (telemóvel cuja visão é fatal); “Sobrenatural” (aparição de um avatar da Regan do filme O Exorcista).
Identidade, alteridade e virtualidade

A publicidade pode ser instrutiva. Acontece com os anúncios “New Dawn”, da Hyundai, e “Un-Australia”, da Meat & Livestock Australia, que ilustram duas noções elementares das ciências sociais, que passo a resumir.

O valor de uma palavra provém do carácter distintivo dos seus usos virtuais. Simplificando, uma palavra vale quando permite dizer algo que as outras palavras não conseguem (a partir de F. Saussure, Cours de Linguistique Générale, 1916).
A identidade não remete para uma essência mas decorre da relação com os outros, com a alteridade. Simplificando, somos o que somos menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (a partir de C. Lévi-Strauss, L’ Identité, 1977).
Não me ajudes!

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).
O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:
Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.
Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.
A medida de tudo e a relevância de nada
Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.
Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?
Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.
Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.
Sem palavras
Um anúncio português culto, desconcertante e macabro. Para aceder ao vídeo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/4-hands-scriptwriting-festival-kitchen/.
Anunciante: Portugues Film Academy. Título: Kitchen. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Agosto 2017.
No princípio, era a palavra
No princípio, era a palavra. Agora, insinua-se a imagem. Mas a imagem sem a palavra assemelha-se a um balão S. João. Este anúncio centra-se, precisamente, na palavra, que, banner a banner, se apropria do ecrã. O anúncio parece artesanal, o que não desmerece. Importam mais as palavras e as pessoas do que a pós-produção e os efeitos especiais. O anúncio expõe uma iniciativa específica que obteve alguns resultados no combate ao cancro do colo do útero. Com palavras!… Ao contrário da maioria dos anúncios de consciencialização, este não é profético. Não anuncia terras prometidas, nem separa o trigo do joio. É evangélico, faz obra e apregoa a boa mensagem. Mais Cristo, menos Moisés.
Anunciante: Always. Título: Intimate Words. Agência: Leo Burnett. México, Abril 2015.
Palavras do tamanho do mundo
Este anúncio das Nações Unidas centra-se na palavra. É certo que “no mundo há muitas palavras e poucos ecos” (Goethe), e, contrariando Sólon, “a palavra [não] é o espelho da acção”; a palavra pode, inclusivamente, ser o seu disfarce. O anúncio convoca 19 palavras para expressar aquilo que “o mundo mais necessita”. Palavra puxa palavra, e outras ocorrem. Por exemplo, a verdade. Realidade complicada, pela qual muitos seres humanos deram a vida. Uma palavra que caberia em mais três segundos de anúncio. Sem ela, as demais palavras arriscam-se a ser levadas pelo vento. Um vento, porventura, tóxico.
Anunciante: ONU, World Humanitarian Day 2013. Título: The World Needs More. Agência: Leo Burnett, New York. EUA, Agosto 2013.
Palavras com imagens
A palavra sempre foi importante na publicidade. Em alguns anúncios é, porém, muito importante. A França é um país que cultiva sobremaneira a palavra. Vê-se nestes dois excelentes anúncios produzidos pela mesma agência de publicidade, a Publicis Conseil (Paris), para marcas francesas (Galeries Lafayette e Orange), com realizadores franceses (Philippe André e Bruno Aveillan). A palavra como eixo da imagem.
Marca: Orange. Título: Les Mots. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Philippe André. França, 2009.
Marca: Galeries Lafayette. Título: Recette d’une femme mode. Agência : Publicis Conseil, Paris. Direcção : Bruno Aveillan. França, 1998.



