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Sucesso

Quino

“Encarrega-se os homens, desde a infância, do cuidado da sua honra, dos seus bens, amigos e ainda do bem e da honra dos seus amigos. Enchemo-nos com problemas, com a aprendizagem das línguas e com exercícios, e faz-se-lhes entender que não podem ser felizes sem que a sua saúde, honra, a fortuna e a dos amigos estejam em bom estado e que basta falhar uma só coisa para os tornar infelizes. Assim, atribuem-se-lhes cargos e questões que os inquietam desde o despontar do dia. Direis que esta é uma estranha maneira de os tornar felizes! Ora, o que se poderia fazer de melhor para os tornar infelizes” (Pascal, Pensamentos, Artigo XXI: Miséria do Homem).

Tenho um amigo que, desde os trinta anos, tem receio do sucesso. Produz, o melhor que sabe, livros, artigos, comunicações… Enterra-os como as tartarugas os ovos. Trinta anos depois, continua a evitar o sucesso. Nunca mo disse, mas creio que, para ele, o sucesso é coisa pouco saudável.

Nick Cave & The Bad Seeds. Faraway, So Close!. Filme Faraway, So Close. 1993.

Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Marca: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019.
Marca: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015.
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016.
Nick Cave & The Bad Seeds. Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

As asas das migrações

Winged migration“Quando tudo acelerar ao ponto que, comparado à velocidade de hoje, parecerá que estamos parados?” (John). Estaremos provavelmente parados parecendo andar para trás sugados para a frente. Mas existe uma alternativa: virar as costas. Agora, estamos parados parecendo andar para a frente puxados para trás. Mas deixemos a inteligência descansar e observemos preguiçosamente os gansos a passar.

A Sofia Afonso doutorou-se, esta semana, em Sociologia, com uma belíssima dissertação dedicada à segunda geração e ao regresso. À segunda geração da emigração, pertencemos nós, John. Seja lá o que isso for! Eu parti e regressei; tu regressaste e repartiste. Numa entrevista recente, perguntaram-me se foi difícil ir para França. Respondi que mais difícil foi regressar. Foi há cerca de quarenta anos e sinto que ainda não pousei os dois pés. Deve ser da coluna. As pinturas pedem uma certa distância. Portugal, também! Parafraseando Fernando Pessoa, Portugal é um país que é mais fácil estranhar do que entranhar. “Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha (…) / Não tem no ar nem no vento / Asas com que se sustenha” (Luís de Camões). Perdigão que perdeu a pena só voa até aterrar. Um, abraço, John!

O documentário Winged Migration (2001) ganhou um César e foi nomeado para um Óscar. Tem imagens quase impossíveis. A música foi composta por Bruno Coulais.

Documentário Winged Migration, com música de Bruno Coulais. 2001.

To be by your side. Banda Sonora do documentário Winged Migration composta por Bruno Coulais. Interpretação de Nick Cave. 2001.

Return of the cranes. Documentário Winged Migration, com música de Bruno Coulais. 2001.

 

Rosas selvagens

Sir John Everett Millais Ophelia 1851-2

Sir John Everett Millais. Ophelia. 1851-2.

Adoro aproximar o que nasce separado. É um vício. A Ofélia de Sir John Everett Millais (1851-2) lembra o vídeo Where The Wild Roses Grow (1996), de Nick Cave & Kylie Minogue. Não quer descobrir as diferenças entre a Ofélia do Millais e a Kylie Minogue do Nick Cave?

Nick Cave & The Bad Seeds / Kylie Minogue. Where The Wild Roses Grow. 1996.

Humor Negro e Humor Colorido

Peta. Runway ReversalO humor é a perdição da publicidade actual. Há para todas as doses, todos os feitios e todos os gostos. Os anúncios que seguem, da Volkswagen e da PETA, incidem sobre situações de elevada carga simbólica: o roubo, a moda e o cativeiro. Mas os procedimentos adoptados são distintos. Mask, com a assinatura de Noam Murro, alonga-se em torno de um equívoco: o “ladrão”, afinal, não pretende roubar a loja; o “gang”, afinal, não é um “gang”; as máscaras, afinal, não se destinam a disfarce em caso de assalto mas para desfrutar de um Volkswagen descapotável em pleno inverno. Runway Reversal, como o título sugere, aposta na inversão de papéis, à boa maneira de “O Planeta dos Macacos”. Animais desfilam vestidos ostensivamente com peças humanas; os seres humanos, por sua vez, rastejam nus e indefesos em jaulas acanhadas. O humor de Mask é colorido, regenerador e aprazível; o humor de Runway Reversal é negro, corrosivo e incómodo. Aproveito a embalagem para acrescentar uma música: Nick Cave & The Bad Seeds publicaram há dias um novo cd: Push the Sky Away. Segue o vídeo com a primeira faixa: We Know Who U Are. Algo como um pouco mais do mesmo.

Marca: Volkswagen. Título: Mask. Agência: The Mill. Direção: Noam Murro. EUA, Fevereiro 2013.

Anunciante: PETA. Título: Runway Reversal. Agência: Ogilvy & Mather Beijing. China, Fevereiro 2013.