Pequeno desvio

Descobre-se o que não se espera quando e onde menos se espera. Deparei com a música do cantor, instrumentalista e compositor norte-americano Kishi Bashi numa curta-metragem (these little moments matter: https://vimeo.com/369736156). E gostei. Lembra alguns artistas preferidos. Partilho três músicas, duas interpretadas com o Nu Deco Ensemble: I Am the Antichrist to You; Violin Tsunami; e Atticus in The Desert.
Melancolia e inconformismo

Existem cantores que são mais do que intérpretes. São artistas, compositores, poetas e, em particular, personalidades marcantes que dão voz e alma a uma maneira de estar no mundo. Alguns acrescentam, ainda, a cereja da rebeldia e da controvérsia: Bob Dylan, Jim Morrison, Jacques Brel, Georges Brassens, Victor Jara, Zeca Afonso… O “anarquista” Léo Ferré é um caso único. É estereofónico: num canal, solidão, melancolia, memória e desencanto; simultaneamente, no outro, inconformismo, garra, potência e renovação. Sintonizados. Um bálsamo. Uma dose certa para os momentos certos.
Engana-se quem pense que posts como este são meros monólogos digitais, pingos artificiais num ecrã para um público imaterial. Circunstanciais e dialógicos, substantivos e performativos, reação e interlocução, interpelam “outros significativos”. “apostrofados”, em condição de os decifrar e, porventura, sentir. São parte e partilha de vida. Um combustível do blogue.
O Tendências do Imaginário já contempla as canções Avec le Temps, Solitude e C’est Extra, de Léo Ferré. Acrescento La Mélancolie, La Mémoire et la Mer e Requiem.
Dono do tempo?


“Agora não é mais dono do seu tempo?” Pergunta uma amiga. Na realidade, ando ocupado. Talvez para fugir do vazio, vou-me deixando ocupar. Os meus colegas e amigos também andam ocupados, mas com coisas importantes: meetings, calls, papers, media, projects, reports, classrooms, contracts, bureaucracies, protocols, platforms, virtualities, travels, budgets, referees, metrics, contests, prices, rankings, positions & propositions. As minhas ocupações resumem-se a minudências invisíveis: revejo e traduzo textos alheios, presto-me a ser organizador sombra ou suplente de última hora, preparo aulas e encontros na aldeia, entrego-me a investigações vadias, intermitentes e gratuitas, edito e reescrevo livros que nunca têm fim, cuido da saúde que bem precisa e convivo cada vez mais com os amigos. Vale-me isso e a música, minha musa e companhia. E insisto em pingar pensamentos e sentimentos neste blogue. É certo que, reformado, a maioria destas atividades, decididas ou aceites, são livres. Mas uma vez iniciadas deixam de o ser. Devoram recursos e tempo. Regressando à pergunta inicial: neste momento, sou menos dono do meu tempo, mas provisoriamente. Trata-se de uma perda a que não me resigno, que não sei se prefiro à riqueza de ter todo o tempo do mundo.
Pink Floyd e a Guerra na Ucrânia
No último artigo do Tendências do Imaginário, aludi ao último concerto dos Pink Floyd durante o Live 8, em 2005. Cumpre-me precisar: o último concerto ao vivo com todos membros do grupo: Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright. O desentendimento de longa data entre Waters e Gilmour a morte de Wright em 2008 impediram qualquer reunião ulterior. Mas a marca Pink Floyd, de facto, não desapareceu. Os Pink Floyd editaram, por exemplo, em 2014, o álbum Endless River. David Gilmour, com 76 anos, e Nick Mason, com 78 anos, reativaram o grupo este ano para uma intervenção de protesto contra a guerra na Ucrânia e de apoio ao povo ucraniano. O resultado é a canção e o vídeo Hey Hey Rise Up.
A identidade e o selo postal


Quanto mais ínfimas e exclusivas, pequenos restos de um nós menor, se revelarem as memórias mais nos resguardam do tédio e do apagamento. Paradoxalmente, quanto mais nossas, maior gozo dá partilhá-las. Como selos postais carimbados pelo destino. A música propicia-se a este contrabando miúdo.
Seguem três canções interpretadas por Willy deVille (1950-2009): Heaven Stood Still; Let It Be Me; e Night Falls.
Canções frias

Gosto do Klaus Nomi, um cometa extraordinário que teve uma breve passagem pela música antes de ser vítima da sida em 1983. Quase todas as suas canções estão contempladas no Tendências do Imaginário. O que não me impede de continuar a procurar versões com melhor qualidade. Encontrei três respeitantes a outros tantos covers: The Cold Song, da ária What Power Art Thou?, da ópera King Arthur, de Henry Purcell (1691); Can’t Help Falling in Love, de Elvis Priesley; e Death, da ária Dido’s Lament, da ópera Dido and Aeneas, de Henry Purcell (1689). Com votos de frescos sentimentos!
Massa cósmica

Há muito que não me deparava com um anúncio apostado na estetização de alimentos. Em tempos, foi moda. Este Pasta is born, dedicado às massas Barilla, não desmerece. Coloco duas versões: a primeira segundo o critério do realizador (director’s cut), a segunda adotada para o anúncio propriamente dito. Serve para partilhar uma ideia de quão diferentes podem ser.
Paredes, Sede e Morte
Sede e morte, a sede do morto, uma sede de morrer. Uma música, um anúncio, um vídeo. Paredes, Amstel, Animais. Carlos Bica, Mariana Abrunheiro e Ruben Alves. Três Sede e Morte, três versões de Carlos Paredes. Três, o número mágico-religioso por excelência. Um mais três quatro, e o macho se torna fêmea. Estou a escrever sobre diabos, bruxas e vampiros.
Tangível

Corda a corda, a vida vibra. Seguem três músicas interpretadas pela harpista galesa Catrin Finch.
Voar sem dar cabeçadas no céu




Gosto do artista belga Jean-Michel Folon (ilustrador, pintor e escultor, 1934-2005). Também gosto do cantor francês Yves Duteil. Gosto de ouvir Duteil a cantar Folon. Sam ambos criativos, joviais, sensíveis e ternurentos. Apraz-me recuperar dois pequenos vídeos com gravuras de Folon: Comme Dans Les Dessins de Folon, de Yves Duteil; e Levitar, que montei em 2013, com a música Emmanuel, de Michel Colombier.
