Sombras frias
A memória de estar entre os que vão morrer é uma ferida latente

Três canções de morte sem luto e de luto sem morte dos Aguaviva, grupo catalão dos anos setenta que ainda escuto com calado respeito.
Ah pon tu cuerpo a tierra tierra tierra
Y siembra siembra siembra siémbrate
en el cuenco del ojo tierra tierra, cuerpo a tierra.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(A tierra, tierra, pon tu cuerpo a tierra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Tierra tierra gitano tierra comba)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Paraíso gitano luna siembra siembra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(siembra gitano siembra sombra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(A tierra pon tu cuerpo a tierra muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Muerta gitano la esperanza muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Gitano la esperanza muerta muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(y la esperanza muerta muerta muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
En la limosna de las manos tierra
En la lengua el escupitajo
Escúpeles con asco el asco de tu tierra muerta
Pon tu cuerpo a tierra
Canciós del que está quieto
Aquí se está quieto
Pero el mundo sigue girando.
Aquí se mueven los pájaros, pero están quietos
Y el mundo sigue girando
Yo estoy quieto
Pero el mundo dentro de mí esta girando
Qué saben esos caballos, estas dulces campanillas
Estos perros y este largo sollozo de la paloma?
Qué el hombre que va en el aire galopando?
Se mueven, pero están quietos,
Y el mundo sigue girando
La Víspera
Escrito está en un papel
que me fusilan al alba.
Si yo supiera de letra
te escribiría una carta.
Pero nunca fui a la escuela
porque fui pastor de cabras.
Dice el cura que hoy aquí…
esta sociedad me mata.
¿Y quién es la sociedad
que me mata por la espalda?
¿Por qué me dieron paga
cuando crío, sin que fuera
una carga pa mi casa?
Si maté al amo aquel día
era porque me robaba.
Más me valiera haber muerto
a aquel que lo autorizaba.
Y porque se haga justicia
y la paz reine en España,
me ha dicho el jefe de aquí
que me fusilan al alba.
A um filho emigrante

“O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1878).
“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” (C.S. Lewis, Mere Christianity, 1952).
Passaram trinta e um anos, toda e metade de uma vida. A primavera e o outono. Revejo-me como num espelho maior e melhor, com invulgar determinação em crer, querer, arriscar e criar. Quem tem a bênção de um filho não precisa renascer, simplesmente congratular-se e agradecer.
Como lembrança, acrescento, sem surpresa, quatro músicas. É o bem mais disponível, pessoal e rápido para enviar para a Holanda. Podem não entusiasmar de imediato, mas estou convencido que pertencem àquelas que se prestam a que as interrompamos a meio para voltar a escutá-las com outros ouvidos. Possuem a virtude de nos sintonizar à distância. Formam dois pares: um, “primaveril”, que abre com um bailado de Pina Bausch, o outro, “outonal”. Duas músicas para adormecer a Sara, outras tantas para a acordar.
João e Sara
Divertimento

Interessar-se pela música do inferno é próprio de tolos desocupados. Pior ainda descobrir na terra músicos passíveis de tocar no inferno. A banda de demónios da figura 01 quer sair da porta do inferno. Prefere o interior com ar quente e cheiro a enxofre.
Há músicos com perfil para tocar no inferno: Rolling Stones (Sympathy for the devil), Deep Purple (Demon’s eye), Chris Rea (The road to hell), Uriah Heep (Demons and Wizards), Black Sabbath (Heaven and hell), AC/DC (Highway to hell), Pink Floyd (Run like hell)… Retive dois candidatos. O álbum Heaven and Hell (1975) do Vangelis inspira-se, em vários troços, no inferno. Parco em melodias e ritmos compassados, alguns sons são do outro mundo e muitas passagens incómodas. Mas o álbum de Vangelis é, do princípio ao fim, límpido e afinado. O que desagrada aos diabos, propensos a confusões, cacofonias e charivaris. Sobra, nestas condições, Marilyn Manson, exímio em animar os demónios e torturar as almas penadas.
João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.
“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.
(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).
Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.
A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.
Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.
Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.
Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.
Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.
Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.
Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).

