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A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

A televisão

Mordillo

La télévision n’est pas le reflet de ceux qui la font, mais de ceux qui la regardent.
(Françoise Giroud).

A televisão é uma tempestade de críticas e apelos. Desde a testemunha ocasional até ao político consagrado. Pede-se, com egoísmo assumido, sem eufemismo. Pedir é uma tradição, reparadora da pessoa e dos laços sociais. O segredo é criticar mais do que melhorar. Corrigir o mundo à sua imagem. A televisão é uma ilusão enganadora? A televisão não captura nem engana, mostra!

Isabelle Mayereau. Coup de Gomme. Parcours. 2016.

Fatiar a vida

Mordillo,

Fatiar a vida ano após ano até oxidar o tempo. Sobram, afortunadamente, momentos. Ínfimos, infinitos, pessoais. Feliz aniversário!

Aidan Gibbons: The Piano. Música de Yann Tiersen.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.

Música para vizinhos

Mordillo.

Já me aventuro no pátio! Com pequenos passos dobra-se o cabo da boa esperança. Colho os raios de sol, o zumbido das abelhas e o perfume das plantas: alecrim, lavanda, limonete e umas flores amarelas a que sou alérgico. Sobreviver a um cigarro ao ar livre é um prazer. Como o Minho e a Galiza, o vício e o prazer namoram-se. A ida ao pátio é um ritual. Garrafa de água neste bolso, tabaco, naquele e telemóvel, naqueloutro. Os bolsos são a medida do homem. Faltam uns decibéis de música ambiente. Convém que a lista agrade aos vizinhos. Segue um exemplo de lista com músicas apropriadas para apreciar à distância.

Ed Alleyne-Johnson. Oxford Suite, Pt. 1. Purple Electric Violin Concerto. 1992.
Cecilia. Love of a Silent Moon. Voice of the Feminine Spirit. 1994.
Karunesh. The Wanderer. The Way of the Heart. 2002.

Amor em tempo de confinamento

Mordillo

Canta o amor e namora a felicidade! A música é performativa.

Marca AT&T. Título: A Little Love. Agência: BBDO LA. Direção: Peter Thwaites. USA, janeiro 2021.
James Brown. I Got You (I Feel Good). 1965.

A carreira no reino da parvoíce

Mordillo (1932-2019)

Os actores sociais, quanto menos hipóteses de carreira têm, mais carreiristas ficam. Este paradoxo é um desafio para a sociologia. Colide com o princípio da “causalidade do provável”, da sociologia praxeológica de Pierre Bourdieu. Colide, também, com o modelo da relação entre apostas e expectativas, proposto pelo individualismo metodológico de Raymond Boudon. Para colmatar estas aberrações, Pierre Bourdieu importou da química a noção de histerese: a prossecução de uma reacção comportamental para além das condições que a justificaram. Quanto a mim, hesito entre histerese e histeria.

Mordillo. As Girafas. 1973.

Mudemos de assunto que este é polémico.

Mordillo faleceu há uma semana, no dia 29 de Junho de 2019. Fonte de inspiração com humor colorido. Se tivesse que decorar o quarto de um neto, optava pelos seus desenhos. Mordillo, tal como Quino, não é um sociólogo, mas um sábio da humanidade. Prefiro a ironia gentil do Mordillo ao elogio programado da tribo.

Memória puxa memória, há muito tempo, cantarolei em coro, nas ruas tranquilas de uma praia do Norte, a canção Le Roi (des Cons), de Georges Brassens (1972). Brassens tem razão: nunca destronaremos o rei dos parvos.

Georges Brassens. Le Roi (des Cons). Fernande. 1972.

O sismo do amor

Mordillo. Les couples. 1997

O amor ainda existe. Violento! Um amor cósmico. Magoado, o coração rasga o chão. Palpita e a terra treme. Edith Piaff e Buster Keaton, paixão e elegância. Um belo anúncio da Lacoste.

Marca: Lacoste. Título: Crocodile Inside. Agência: BETC (Paris). Direcção: Megaforce. França, Maio 2019.

Máquinas desejantes

Convém ouvir baixinho, que a cruz ainda não recolheu.

Mordillo. Virgílio

Mordillo. “Cada um é arrastado pelo seu próprio desejo” (Virgílio).

José Gonzalez. Heartbeats. Veneer. 2003.

Animais animados

mordillo-avestruz

Mordillo.

Gosto da obra do realizador brasileiro Sérgio Amon. Uma obra imensa. Nos seus anúncios costumam aparecer animações com animais: tartaruga, avestruz, formiga… Animais adoráveis em situações surpreendentes. O humor faz bem, aquece!

Marca: Brahma Beer. Título : Avestruz. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 2003.

Marca: Philco do Brasil. Título: Formigas I. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 1995.

O verde vai à cidade

Mordillo

Mordillo

Tendências do Imaginário publicou uma dezena de anúncios dirigidos por Noam Murro. Não resisto a acrescentar este Emerald Cities. A fantasia é ouro no cinzento. Lembra, por acréscimo, os desenhos do Mordillo.

Marca: Kaiser Permanente. Título: Emerald Cities. Agência: Campbell-Ewald,Los Angeles. Direcção: Noam Murro. USA, 2009.