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Opera Prima

Claudio Monteverdi. L'Orfeo. Folheto. 1609.

Claudio Monteverdi. L’Orfeo. Folheto. 1609.

A alegoria, a fábula e o virtuosismo pautam a música barroca. La Poule (1728), de Jean-Philippe Rameau e Le Coucou (1735), de Louis-Claude Daquin são alegorias transbordantes de virtuosismo para divertimento palaciano (ouvir em Com um burro às costas: música com humor). Boa parte da música barroca foi composta para patronos (reis, nobres, clérigos e burgueses empregadores”). Assim acontece com L’ Orfeo (1607), de Claudio Monteverdi, obra que, segundo os entendidos, inaugurou o género “ópera”. Monteverdi chamou-lhe:

favola in musica, isto é, uma história fantasiosa (afinal, estamos a lidar com o mito de Orfeu) envolvida em música. Ela estreou a 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, numa performance privada para o duque Vincenzo Gonzaga, empregador de Monteverdi, acontecendo a estreia pública dias depois” (Bernardo Mariano, O Orfeo de Monteverdi, a ópera que fundou a ópera, hoje no CCB, Diário de Notícias, 16 de Setembro de 2017).

Para uma abordagem original do mundo da ópera, recomendo a obra de Philippe-Joseph Salazar: Idéologies de l’opéra, Paris, Presses Universitaires de France, 1980).

Segue um excerto da ópera L’Orfeo, sob a direcção de Jordi Savall.

Claudio Monteverdi. L’ Orfeo. La Capella Reial de Catalunya. Direcção: Jordi Savall. Gran Teatre del Liceu Barcelona. Excerto: abertura.

À Senhora da Boa Morte

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Fig 1. Demons and devotion. The Hours os Catherine of Cleves. 1440.

No artigo precedente, a canção Puestos están frente a frente dedicada a Don Sebastião acaba com uma citação de Petrarca (1304-1374): “Uma bela morte toda a vida honra”. Enquadrada nos livros e nas gravuras da Arte de Morrer do século XV (Ars Moriendi ), a citação de Petrarca adquire um cunho particular. O moribundo é submetido a várias tentações (ver https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). Do modo como reage assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Convinha apegar-se à Nossa Senhora da Boa Morte. Passo a citar Philippe Ariès:

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Fig 2. Alegoria da Música. 1350.

“Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Caderns Crema, 2000,  p. 49).

Uma “boa morte” pode salvar uma vida.

Aproveito esta nota para colocar um pequeno excerto do Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), composto por Monteverdi no início do sec. XVII. Acrescento um vídeo com um membro do Clemencic Consort a tocar saltério, instrumento musical típico da Idade Média (o instrumento que toca o rei na Alegoria da Música da Figura 2.

Clemencic Consort. Rencontrea de lutherie et musiques Médiévales, Largentiere, 3010.

Monteverdi. Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), Interpretado por Roberta Mameli. Excerto.