Small Smile Blue
Not selfie as Mona Lisa. Photography by Conceição Gonçalves.
Um esboço de sorriso azul! Estou quase recuperado. Quase. Seis meses após o internamento nos cuidados intensivos, debato-me com hérnias, contraturas e dores por todo o corpo. As pernas e o equilíbrio ainda não se dão ao luxo de uma dança, nem sequer um blues arrastado. Nos próximos dias, entre ecografia, análises e consultas, repartidas por cinco especialidades, acumulo sete atos médicos. Continuo a fazer fisioterapia três dias por semana. Quase não saio de casa. Não é um queixume. Sinto-me bem, muito bem! Após vários anos sempre a piorar, melhorar todos os dias representa um alívio abençoado, um incomensurável prazer. Uma regeneração! Sinto-me confiante. Trata-se apenas de um alerta, um testemunho, às pessoas medicadas com lítio: prestem a maior atenção aos respetivos efeitos, mesmo quando os resultados das análises se mantêm no intervalo dos valores terapêuticos, como foi sempre o meu caso. Contanto invulgar, a intoxicação por lítio não é um acidente meigo. O lítio não consta dos metais queimados pelos nascidos das brumas (Brandon Sanderson. O Império Final. 2006).
Anomalia
Este anúncio admirável da Orange ilustra como os “apanhados” inventivos, simulados ou não, podem desafiar as próprias ciências sociais. Como lidam as pessoas com uma dissonância cognitiva inesperada? Os olhos acreditam no que vêem? Quanta exposição é necessária para se reconhecer um facto anómalo? Para admitir a presença do “impossível”? Como é gerido o conflito entre a razão e a percepção? Quem é anormal? A pintura embuste ou o público estupefacto? Como se desloca esta sensação de anormalidade? Quanto tempo demora a procura de confirmação alheia? O olhar dos outros, a experiência comum, funciona como uma âncora para a travessia cognitiva? Uma dissonância partilhada deixa de ser uma dissonância? A comunicação e o consenso conduzem à verdade? O que justifica o alívio festivo provocado pela “reposição dos factos”? Uma catarse? Uma recomposição? O resgate do “mundo natural”, do conforto da evidência? Pode a reconversão do olhar tornar-se profética? Suspender a ordem? Reconfigurar os dispositivos de acção? E, já agora, até que ponto estes sorrisos e estas piscadelas de Mona Lisa atrevida são estratégicos para a Orange? Por quê a Mona Lisa e não outro quadro qualquer? Este anúncio é da Orange, para a Orange, da Publicis Conseil ou da Publicis Conseil para a Orange? Aceitam-se respostas múltiplas.
Marca: Orange. Título: Mona Lisa. Agência: Publicis Conseil. Direção: Bo Platt. França, Julho 2013.

