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O milagre da multiplicação dos manuscritos

xeroxSó um anúncio como este Brother Dominic, da Xerox, consegue interromper um trabalho que me traz absorto. Aprende-se que um bom desempenho pode ser uma maldição. Pedem mais, pedem o impossível. Pobre irmão Dominic! O que vale é que Deus criou, entretanto, a fotocopiadora, de preferência Xerox. Entre o irmão Dominic e a Xerox, não há lugar para Gutenberg, o ourives. O manuscrito, o mosteiro, a sobrecarga e a globalização, tudo boas escolhas. As intertextualidade, também.O anúncio retoma um clássico da Xerox dos anos setenta. Em boa hora. Seguem o anúncio actual e o primitivo.

Marca: Xerox. Título: Brother Dominic. Agência: Y&R (New York). Direcção: James Rouse. Estados Unidos, Janeiro 2017.

Marca: Xerox. Título: Monk. Agência: Harper & Steers. Estados Unidos, 1977.

Sombras

Alexey Bednij

Alexey Bednij

Por causa dos milagres que os apóstolos faziam, as pessoas colocavam os doentes nas ruas, em camas e esteiras. Faziam isso para que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Multidões vinham das cidades vizinhas de Jerusalém trazendo os seus doentes e os que eram dominados por espíritos maus, e todos eram curados. (Acto dos Apóstolos, capítulo 5, versículos 15 e 16).

Perguntei ao meu rapaz, que anda nas engenharias, se era possível tocar a sombra dos outros. “Não, a sombra não é um concreto. Mais, quando pensas que estás a tocar a sombra de outra pessoa é a tua própria sombra que estás a tocar”. O meu rapaz é assim: um quase engenheiro que pensa. Mas a minha vocação são as “ciências moles”. Não diz a Bíblia que o apóstolo cura os enfermos com a sua sombra? Se o milagre se faz pela sombra, não pode o toque da sombra ser erótico? Doutor Freud, o toque na sombra alheia é susceptível de provocar prazer?

Ando a escrever um artigo pontuável. Um artigo “duro” e tenso, que me vai envenenar os próximos dias. Resta-me espalhar disparates no Tendências do Imaginário. Seguem um anúncio em que a sombra se revolta, L’ombre, da Chanel (1993), e duas canções de Mike Oldfield, Shadow on the Wall e Moonlight Shadow, ambas do álbum Crises (1983).

Marca: Chanel. Título: L’ombre. Produção: Pac. Direcção: Jean-Paul Goude. França, 1993.

Mike Oldfield. Shadow on the Wall. Crises. 1983.

Mike Oldfield. Moonlight Shadow. Crises. 1983.

Sociologia sem palavras 20. Religião e Infância

Marcelino EspanholLadislao Vajda (1906-1965), realizador húngaro, dirigiu filmes em Portugal (por exemplo, “O Diabo são elas”, 1945, e “Três espelhos”, 1947) e em Espanha, onde filmou “Marcelino Pan y Vino” (1955), um dos seus maiores sucessos, ao nível do público e da crítica. Marcelino, abandonado ainda bebé pela mãe, é criado num mosteiro. Neste excerto, Marcelino escapa à vigilância dos frades para se dirigir a uma arrecadação no sótão onde se encontra uma imagem de Cristo crucificado.

Ladislao Vajda. Marcelino Pan y Vino. 1955. Excerto.

Os Olhos de Santa Luzia

Hoje é dia bem aventurado. Não me perguntem a razão. Dedico-o a Santa Luzia, “a Santa Luzia dos meus amores” (Conjunto Maria Albertina).

Francesco del Cossa , Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

01 Francesco del Cossa, Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

Santa Luzia (ou Lúcia) é uma virgem mártir cristã do séc. III. Por ordem do Imperador Diocleciano, um soldado arrancou-lhe os olhos e entregou-lhos numa bandeja. Nesse momento, surgem-lhe novos olhos, ainda mais bonitos. A santa foi decapitada.

Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

02 Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

Nos séculos XV e XVI, era costume pintar Santa Luzia a segurar uma bandeja com dois olhos pousados (ver, por exemplo, figuras 3 a 7).

Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

03 Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

04 Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

05 Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

06 Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

Francesco del Cossa  (c. 1430 – c. 1477) dispensa a bandeja; a Santa segura com a mão esquerda os dois olhos, como se estes fossem uma flor. Um efeito de mestre. Não estivessem os nossos olhos habituados ao surrealismo, e o espanto seria outro. Os olhos vêem consoante viram.

Com a devida contrição, a propósito de Santa Luzia, permito-me convocar o Conjunto Maria Albertina. Não é por nada, mas estou convencido que, a seu tempo, venderam, em Portugal, mais discos do que os Pink Floyd.

Conjunto Maria Albertina. Santa Luzia.

 

 

O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.