Tag Archive | milagre

O Anjo da Conexão e o Velho do Restelo

Acredita em anjos? Então este artigo é para si.

Edward Hopper. Office in a small city. 1953.

Não é por um comportamento se manifestar “ferido de interesse” que está fadado a prejudicar o bem comum (Bernard Mandeville, A Fábula das Abelhas: ou, Vícios privados, benefícios públicos, 1714). Inspirando-me em Pierre Ansart (Idéologies, Conflits et Pouvoir, 1977), também não é por uma ideia ser interessada que resulta necessariamente falsa. Como corolário, por muito estranho que pareça, não é a generosidade de um gesto ou de uma ideia que garantem a sua verdade ou bondade. Pode não ser um erro confiar em quem é movido por interesses, nem tão pouco duvidar de quem nos quer bem. Vem este arrazoado a propósito da publicidade, domínio que os missionários da beatitude tendem a associar à quintessência do mal, à perversão ideológica no purgatório da mercadoria. Acresce que não existe instância que detenha o monopólio do acesso à sabedoria. Nem sequer a ciência ou a religião. Aprende-se como e com quem se aprende, independentemente da forma e do conteúdo, da embalagem e do miolo. Daqui a afirmar que tenho vindo a adquirir mais conhecimento com a publicidade do que com a ciência quase vai um passo. Confesso, porém, que, nos últimos tempos, tenho consumido mais anúncios publicitários do que artigos científicos com impacto. Em termos de conhecimento, um anúncio publicitário costuma valer menos pelo que comporta e mais pelo que suscita, pelo que induz a sentir e a pensar. Trata-se, sobretudo, de uma interpelação que nos cumpre assimilar, no sentido piagetiano do termo. Um anúncio não se limita a alcançar-nos, desafia-nos, mobiliza o nosso “acervo de conhecimentos disponíveis” (Alfred Schütz, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, 1962). Munido com estas barbaridades, afigura-se-me que o anúncio indiano Joy of Homecoming, da Vivo, constitui uma excelente ilustração das potencialidades da publicidade.

Um idoso vive, just him and his loneliness, numa mansão, em aparente desafogo económico. Os seus três filhos residem longe, onde têm o seu trabalho e os seus compromissos. Falta-lhes meios e tempo, até para prolongar os breves momentos de videoconferência. Para mitigar a solidão, o pai optou por alugar um quarto. Apenas um, o reservado aos hóspedes. Nos outros, intactos, dorme a memória dos filhos, sua energia vital. A ação inicia com a chegada de um novo inquilino. A música, fundamental, canta o destino; e o jovem inquilino veste o papel de um anjo, que recorda As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. O jovem faz companhia ao “tio adotivo”, anima-o e tira-lhe fotografias, que envia aos filhos. Inesperadamente, o “sobrinho” parte antes do termo: sente saudades da mãe. Ouve-se a campainha. Será, de novo, a solidão? Não, a solidão não bate assim. São s três filhos que, dispersos pelo mundo, se juntam, como por milagre, para o Diwali, festividade indiana, homóloga do Natal, que celebra a reunião e a vitória do bem sobre o mal: “invoca o retorno da deusa Rama para a cidade de Ayodhya, após um longo período de ausência” e “festeja a vitória do Deus Krishna sobre as forças do mal”. O anúncio termina sem se saber se o “anjo da conexão” foi enviado por Deus ou pela Vivo. Talvez o milagre, um pouco mais prosaico, reverta para o “poder das imagens” em que a Vivo acredita.

José Malhoa. O emigrante. 1918.

O anúncio indiano Joy of Homecoming, apesar da distância geográfica e cultural, assenta-nos como um espelho. Sucede o mesmo em Portugal, País que se tornou tão pequenino num mundo tão vasto. O princípio dos vasos comunicantes funciona na sociedade ao contrário: os fluxos passam do mais pequeno para o maior até ao desequilíbrio final. As migrações já não são o que eram: para além das famílias mais pobres, recrutam entre as mais abastadas e as mais diplomadas. Distinguem-se, contudo, das antigas deslocações dos nobres e dos burgueses. Não as move o luxo, mas a necessidade. A figura do pai remediado separado dos filhos expande-se e multiplica-se com um vírus. Nestes tempos em que o distante se aproxima e o movimento se acelera, a alienação, a separação, pode ser brutal. Não por falta de amor ou de desejo, mas por falta de… disponibilidade! As nossas sociedades estão entre as que mais comunicam e menos comungam. São as mais ricas da História, mas também as mais pobres da humanidade. Sociedades obcecadas pelo crescimento, criam mais necessidades do que possibilidades. É essa a riqueza, é essa a penúria. Como escreve o antropólogo Marshall Sahlins: “idade de pedra é a idade da abundância”; “a sociedade moderna é a sociedade da insatisfação” (Stone Age Economics, 1974). Os pigmeus perfilhavam uma sabedoria que nos é estranha: recusavam as ofertas dos colonos que introduziam.  novas necessidades, logo mais esforço. Mendigamos existência. Antes da pandemia, uma criança pergunta à professora de história: “e nós, o que vamos contar aos netos?”. Preocupação sem fundamento, mas sentida. Mendigamos afetos. Pais sem filhos, mães sem pais, avós sem netos e amigos sem abraços, desencontramo-nos.

Ars moriendi, 1470 ca.

Somos a primeira civilização que promove o morrer em solidão (Norbert Elias, La solitude des mourants, 1982). É verdade que em algumas sociedades os moribundos se afastavam dos vivos, respeitavam, no entanto, a norma, configurava um afastamento ritual que fazia sentido na respetiva condição e cultura. Agora, os moribundos não se isolam normativamente, mas na prática e pela prática, por fatalidade, como uma espécie de excrescência. À volta do leito, máquinas e peritos. Nem sombra de familiares, amigos, anjos ou demónios (ver O Galo e a morte: https://tendimag.com/2017/10/13/o-galo-e-a-morte-revisto/). Andamos descompensados, problema que apenas se agravou e evidenciou com os sucessivos confinamentos pandémicos. Entretanto, já andávamos à deriva. E não há vacina, nem anjo, nem imagem que nos acuda! Talvez nós, aliviando a carga que tanto ambicionamos e tanto nos esmaga. Talvez se deixássemos de nos armar em sísifos que só saber subir e subir, empurrar projetos encosta acima, até lhe faltar o ar. A vontade de superação é o nosso emblema. É também o nosso problema.

Sísifo empurrando uma pedra vigiado por Perséfone. Ânfora grega. Cerca de 560 a.c.

Não fui eu quem escreveu este texto. Foi o meu avatar reacionário e romântico, o Velho do Restelo. Um exercício, uma maneira como outra qualquer de fechar o ano.

Marca: Vivo. Título: Celebrate the #JoyOfHomecoming this Diwali. Agência: Dentsu Impact. Direção: Viveck Dasschaudhary. Índia, outubro de 2021.
Robbie Williams. Angels. Álbum: Life thru a Lens. 1997.
Manuel Freire – “Fala do Velho do Restelo ao astrónauta” poema de José Saramago. Álbum: Pedra Filosofal. 1973.

Caído do céu

Thierry Mugler. Alien. Alexandrina Turcan.

Novo perfume, nova heterotopia. Um templo rodeado por sete torres em forma de frasco. No interior, uma sacerdotisa, banhada pela luz de um eclipse, ganha vida. Das alturas, desce uma embalagem, em levitação incandescente, do perfume Alien, de Thierry Mugler. Fantástico? Alienígena? Divino? Guerra das Estrelas ou Espírito Santo?

Marca: Thierry Mugler. Título: Alien. Direcção: Floria Sigismondi. 2014.

O milagre da multiplicação dos manuscritos

xeroxSó um anúncio como este Brother Dominic, da Xerox, consegue interromper um trabalho que me traz absorto. Aprende-se que um bom desempenho pode ser uma maldição. Pedem mais, pedem o impossível. Pobre irmão Dominic! O que vale é que Deus criou, entretanto, a fotocopiadora, de preferência Xerox. Entre o irmão Dominic e a Xerox, não há lugar para Gutenberg, o ourives. O manuscrito, o mosteiro, a sobrecarga e a globalização, tudo boas escolhas. As intertextualidade, também.O anúncio retoma um clássico da Xerox dos anos setenta. Em boa hora. Seguem o anúncio actual e o primitivo.

Marca: Xerox. Título: Brother Dominic. Agência: Y&R (New York). Direcção: James Rouse. Estados Unidos, Janeiro 2017.

Marca: Xerox. Título: Monk. Agência: Harper & Steers. Estados Unidos, 1977.

Sombras

Alexey Bednij

Alexey Bednij

Por causa dos milagres que os apóstolos faziam, as pessoas colocavam os doentes nas ruas, em camas e esteiras. Faziam isso para que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Multidões vinham das cidades vizinhas de Jerusalém trazendo os seus doentes e os que eram dominados por espíritos maus, e todos eram curados. (Acto dos Apóstolos, capítulo 5, versículos 15 e 16).

Perguntei ao meu rapaz, que anda nas engenharias, se era possível tocar a sombra dos outros. “Não, a sombra não é um concreto. Mais, quando pensas que estás a tocar a sombra de outra pessoa é a tua própria sombra que estás a tocar”. O meu rapaz é assim: um quase engenheiro que pensa. Mas a minha vocação são as “ciências moles”. Não diz a Bíblia que o apóstolo cura os enfermos com a sua sombra? Se o milagre se faz pela sombra, não pode o toque da sombra ser erótico? Doutor Freud, o toque na sombra alheia é susceptível de provocar prazer?

Ando a escrever um artigo pontuável. Um artigo “duro” e tenso, que me vai envenenar os próximos dias. Resta-me espalhar disparates no Tendências do Imaginário. Seguem um anúncio em que a sombra se revolta, L’ombre, da Chanel (1993), e duas canções de Mike Oldfield, Shadow on the Wall e Moonlight Shadow, ambas do álbum Crises (1983).

Marca: Chanel. Título: L’ombre. Produção: Pac. Direcção: Jean-Paul Goude. França, 1993.

Mike Oldfield. Shadow on the Wall. Crises. 1983.

Mike Oldfield. Moonlight Shadow. Crises. 1983.

Sociologia sem palavras 20. Religião e Infância

Marcelino EspanholLadislao Vajda (1906-1965), realizador húngaro, dirigiu filmes em Portugal (por exemplo, “O Diabo são elas”, 1945, e “Três espelhos”, 1947) e em Espanha, onde filmou “Marcelino Pan y Vino” (1955), um dos seus maiores sucessos, ao nível do público e da crítica. Marcelino, abandonado ainda bebé pela mãe, é criado num mosteiro. Neste excerto, Marcelino escapa à vigilância dos frades para se dirigir a uma arrecadação no sótão onde se encontra uma imagem de Cristo crucificado.

Ladislao Vajda. Marcelino Pan y Vino. 1955. Excerto.

Os Olhos de Santa Luzia

Hoje é dia bem aventurado. Não me perguntem a razão. Dedico-o a Santa Luzia, “a Santa Luzia dos meus amores” (Conjunto Maria Albertina).

Francesco del Cossa , Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

01 Francesco del Cossa, Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

Santa Luzia (ou Lúcia) é uma virgem mártir cristã do séc. III. Por ordem do Imperador Diocleciano, um soldado arrancou-lhe os olhos e entregou-lhos numa bandeja. Nesse momento, surgem-lhe novos olhos, ainda mais bonitos. A santa foi decapitada.

Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

02 Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

Nos séculos XV e XVI, era costume pintar Santa Luzia a segurar uma bandeja com dois olhos pousados (ver, por exemplo, figuras 3 a 7).

Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

03 Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

04 Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

05 Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

06 Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

Francesco del Cossa  (c. 1430 – c. 1477) dispensa a bandeja; a Santa segura com a mão esquerda os dois olhos, como se estes fossem uma flor. Um efeito de mestre. Não estivessem os nossos olhos habituados ao surrealismo, e o espanto seria outro. Os olhos vêem consoante viram.

Com a devida contrição, a propósito de Santa Luzia, permito-me convocar o Conjunto Maria Albertina. Não é por nada, mas estou convencido que, a seu tempo, venderam, em Portugal, mais discos do que os Pink Floyd.

Conjunto Maria Albertina. Santa Luzia.

 

 

O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.