Resistência e mercado como arranjo socio-técnico. Do espaço ao lugar e ao sentido de comunalização
Helena Pires & Zara Pinto-Coelho
Com a modernidade, a experiência de vivência nas grandes cidades desencadeou estratégias de resistência ao nivelamento dos sujeitos, ao desgaste produzido pelos mecanismos técnico-sociais, à igualização provocada pelas formações supra-individuais, à intensificação das impressões e dos estímulos exteriores, efémeros e voláteis, do imprevisto, das mutações, assim como a resistência à racionalidade implacável e ao “carácter intelectualista” que mobilizam e estruturam o quotidiano (Simmel, 1903/2009). Além do mais, a crescente divisão do trabalho, a par da especialização, são apontadas por diversos autores (Simmel 1903/2009; Lefebvre, 1968/2011, 2008; Sennett, 1977/2017) como fatores que inevitavelmente afetam a estrutura, assim como as formas de vida no espaço público urbano. Caracterizado pela concentração de indivíduos e de todo o tipo de artefactos, no espaço público florescem, potencialmente, as sementes da reserva, ou mesmo da aversão, da repulsa, do ódio, estranheza e indiferença ao outro (Han, 2016/2018; Kovadloff, 1998). Os encontros sociais são muitas vezes, no espaço urbano, raros e efémeros:
Existe uma preocupação generalizada com o «declínio do espaço público» na cidade neoliberal: a privatização comercial do espaço, o advento de novos recintos, como, simbolicamente, os centros comerciais, e assim por diante. Estes são claramente processos que podemos testemunhar com alarme, e por uma série de boas razões. (Massey, 2005/2008, p. 152)
Evitar o atrofiamento da personalidade, mediante tais condições geradoras de anti-sociabilidade, constitui uma meta para as diferentes formas de resistência no espaço urbano. Como preservar, no quadro da vida urbana, a subjetividade, a diferença, a individualidade anímica? Como desenvolver “um órgão protector contra o desenraizamento” (Simmel, 2009, p. 5)? Como evitar a redução do espaço público urbano à sua função de troca? À homogeneização e `tradução daquilo que a todos é comum por via do dinheiro? Como resistir às formas universais e esquematicamente definidas (Simmel, 1903/2009, p. 8)? Baudelaire (1863/1941) e Benjamin (2006) falavam da atitude blasé adotada por alguns indivíduos, enquanto modo de sobrevivência, baseada na aparente indiferença à impessoalidade generalizada. Mas outras formas de resistência encontram estratégias para se impor no espaço urbano.
Quando dizemos espaço urbano importa esclarecer que este não é um contentor, uma instância pré-determinada à espera de ser preenchida pelas ações e interações sociais. É ele mesmo uma produção social. Poderá mesmo dizer-se que tanto o modo de produção como as relações sociais organizam e realizam o espaço (Lefebvre, 2000). As relações sociais e espaciais co-constituem-se. Herdeiros, na cultura ocidental, do modelo da modernidade, associamos comummente o espaço urbano à homogeneidade, à fragmentação, à hierarquização, ao planeamento, ao controlo, à vigilância (Foucault, 1975/2002; Lipovetsky & Serroy, 2007). Partindo da haussmannização como paradigma da transformação urbana que às ruas sobrepõe as avenidas e aos recantos sombrios a transparência, poderá dizer-se que discutir, ainda hoje, os diferentes modelos de espaço urbano implica considerar os múltiplos modelos de comunicação. Os modelos que integram e privilegiam a natureza social da comunicação, enquanto condição fundamental, por um lado, potenciada por equipamentos e estruturas desenhados para o encontro, abertos à multiplicidade, e os modelos que visam o domínio unidirecional das ações, dos corpos e movimentos, em suma, modelos produtores de previsibilidade e de inteligibilidade, por outro. Perceber quais são as fissuras por entre as quais fervilham as diferenças, os conflitos, obriga-nos a equacionar a relação entre a estrutura e a conjuntura urbanas. Como diria Lefebvre (2000), a produção do espaço convoca as relações entre público e privado, o seu carácter estatista e íntimo, as relações de força e os ritmos sociais, os quais, por sua vez, implicam repetição e mudança. As dinâmicas de resistência decorrem, de algum modo, da perceção de que tais relações dialéticas tendem a anular-se, suplantadas pelas forças de dominação assimétricas e atrofiadoras que procuram eliminar as tensões e as diferenças latentes, simultaneamente na esfera social e no espaço que a mesma agencia.
Lefebvre estabelece uma analogia entre o espaço social e os lugares falados (tópicos) (2000). Por aproximação, será oportuno chamar à discussão Certeau (1994) quando, nas artes de fazer, enfatiza as práticas significantes que compõem a vida de todos os dias, tantas vezes à revelia do sistema (por analogia, a língua) ou, pelo menos, enquanto modos de transformação da cidade pensada na cidade reinventada pelos usos (língua atualizada em ato, realizada enquanto linguagem ou enunciação).
A capacidade de percorrer e de incorporar o espaço sonhado, realizando-o enquanto uma prática poética, poderá por seu turno ser entendida enquanto forma de resistência. Como bem dizia Bachelard (1957/2008), por meio da imaginação, podemos transformar a cela de uma prisão num universo infinito. Tal acontece não apenas com as representações do espaço, como com os lugares habitados e experienciados, transformados em casa, em ninho, em concha. Sobrepor ao lugar o sonho pode na verdade potenciar a sua transformação, a sua densidade, forma e função, atribuindo-lhe ao mesmo tempo um carácter cósmico e íntimo. Também Benjamin (2006) conjugava a imaginação com a ação criativa, ilustrando por meio das suas imagens-dialéticas o carácter estético-político da vida urbana ‘desregrada’, em última análise incarnada pela figura do flâneur, que no avesso da pressa capitalista, e nas palavras de Baudelaire, em O pintor da vida moderna, experiencia o que é “Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre”.
De entre outras instâncias, é nos mercados, objeto sobre o qual nos debruçamos de modo especial neste artigo[1], que os indivíduos resistem à experiência urbana de despersonalização generalizada, por um lado, e recuperam o sentido de vida comunalizada, por outro. Ali se produz a sociabilidade da vida de todos os dias, ao mesmo tempo que se inventam os lugares intermédios do público-privado ou do exterior-interior, nas franjas da estrutura pensada e desenhada. Na Praça de Braga, os comerciantes com banca fixa, por exemplo, afirmam-se participantes de uma prática cenográfica improvisada, recriadora de uma extensão do lar, na sua inter-comunicação com a vizinhança.


[Episódio 1: Nas traseiras das bancas que separam os vendedores dos clientes, acumulam-se objetos semi-escondidos, de uso doméstico, que produzem a personalização do lugar ou, dito de outro modo, a sua transformação em ‘casa’: chaleiras elétricas, micro-ondas, loiça, baldes e esfregonas de limpeza, aventais, objetos decorativos… Ali se aquecem refeições ligeiras, nos intervalos menos desassossegados da atividade ou se guardam os pertences privados; a relação de bastidores com a vizinhança é impulsionada ora pela competição, a ponto de se compararem entre si no engenho e aparato dos equipamentos introduzidos para adaptação ao espaço, o que chega a incluir móveis de cozinha embutidos na parte inferior das bancas (alguns trazidos de casa e ajustados, outros mandados fazer de encomenda), ora pela troca de favores, tais como o empréstimo de objetos e pequenas partilhas no quotidiano.]
Nos mercados, além do mais, a frequente relação de familiaridade entre produtores ou comerciantes e fregueses contraria a redução das trocas ao dinheiro enquanto denominador comum, e ali se observam “os últimos restos da produção própria e da troca imediata de mercadorias” (Simmel, 1903/2009, p. 6).





[Episódio 2: Ainda que o dinheiro não deixe de ser a moeda comum de troca generalizada no Mercado Municipal de Braga, uma certa incomparabilidade é mantida, assim como a distinção qualitativa, irredutível a um padrão que ameaça substituir a pluralidade das coisas pela sua uniformidade. A não afixação dos preços, a sua variação consoante a relação com a freguesia e capacidade desta última de negociação, ou mesmo consoante a hora do dia e da semana, a que se acrescentam alguns resquícios de práticas de troca direta entre produtos (por exemplo, a troca de restos de comida ou de pão duro para as galinhas por restos de legumes ou fruta sobrantes à venda nas bancas), ditam modos paralelos de interação. O mesmo se poderá dizer sobre a venda de bens, vegetais e animais, produzidos por algumas e alguns dos vendedores-agricultores que na Praça exibem aquilo que decorre, de forma direta, da sua força de trabalho. Apesar de esta realidade ser parcelar, uma vez que o mercado é simultaneamente um espaço de revenda, em alguns casos de produtos que não se distinguem dos hipermercados, é ainda possível ali encontrar redutos da troca económica não mediada.]
Distendendo o direito à cidade, concebida como lugar que se constitui na comunicação, nos encontros, nas trocas (Lefebvre, 1968/2011), tendo em consideração a discussão exposta neste artigo, sobre o direito ao mercado, importa assim enfatizar o modo como, no caso particular da Praça de Braga, se resiste à diluição da individualização na impessoalidade da vida urbana. Assim como ao modo como se preserva, quer o ‘habitar’ no espaço público, quer o direito à vida em comum (Sennett, 1977/2017). E ainda o direito à cidade enquanto obra participada (Lefebvre, 1968/2011). A apropriação do tempo, do espaço, do corpo e do desejo restituem, no mercado, o sentido próprio da realização pessoal (ainda que enredada na sua interação com o não-humano) e da obra coletiva ou comunalizada (Stavrides, 2016/2021). Uma tal abordagem enraíza-se, convirá não esquecer, no processo de resistência à alienação a que foram sendo votados, ao longo da história do capitalismo, os operários, numa perspetiva crítica marxista-leninista, em última análise reavendo-se o valor de uso, na relação com os meios de produção e com os produtos, e evitando-se o seu apagamento mediante a sobreposição do valor de troca, nivelador e universal.
As práticas de resistência à dominação do espaço não se cingem à apropriação ou à ocupação. Em primeiro lugar, como já apontado, convocando Lefebvre (2000), o espaço não é um continente vazio de conteúdo, uma realidade formal pré-existente à ação (Lefebvre, 2000). Em segundo, a recusa do espaço existente pode traduzir-se, não em ocupar esse mesmo espaço, mas em dar-lhe um outro uso, em conferir-lhe uma prática distinta. Deste exercício se aproximam as práticas semióticas de produção de novos sentidos, quer a partir da recriação do potential meaning (Halliday, 1978), ou seja, dos significados já introduzidos na sociedade (explicitamente reconhecidos ou não), potenciados pelas formas significantes, quer dos significados latentes (à espera de serem descobertos), aquilo que, segundo van Leeuwen (2005), distingue a noção de Halliday (1978) da noção de affordance, esta última inspirada em Gibson (1986):
“Na semiótica social, os recursos semióticos são signos, ações observáveis e objetos que foram produzidos no domínio da comunicação e que têm um potencial semiótico [affordance] que consiste em todos os usos passados e em todos os seus usos potenciais e o potencial semiótico atual consiste naqueles usos passados que são conhecidos e considerados relevantes pelos usuários com base nas suas necessidades e interesses específicos. Esses usos ocorrem num contexto social, e esse contexto pode ter regras ou boas práticas que regulam o modo como os recursos semióticos específicos podem ser usados, ou deixar os usuários relativamente livres no uso do recurso” (Van Leeuwen 2005, p. 4).
De um modo ou de outro, a criatividade das práticas significantes, que em Certeau (1994), nomeadamente, é ilustrada a partir das práticas pedestres do quotidiano, ganha, por vezes, de forma mais radical, os contornos do desvio, mais do que da simples apropriação ou ocupação do espaço.

[Episódio 3: Instalados no espaço interior do mercado, por iniciativa da gestão do espaço, na sequência das queixas dos vendedores que reclamavam sobre as elevadas temperaturas atingidas no pico do Verão (dado que a cobertura de vidro funciona como uma estufa, sobreaquecendo com o sol), as quais, designadamente, impediam a preservação dos produtos frescos com condições de consumo adequadas, os equipamentos de ‘ar condicionado’ visavam arrefecer o ambiente.
Contudo, rapidamente se percebeu que estes eram inoperantes e ineficientes, tendo em vista o referido propósito. Assim, os vendedores não demoraram muito tempo a conferir-lhe outros usos, desde a sua transformação em vitrines para os seus produtos e outros objetos decorativos ou funcionais (por exemplo, calendários), em bengaleiros sobre os quais penduravam roupa e guarda-chuvas, etc.). Defraudada a expectativa inicial, os ditos equipamentos passaram, assim, de objetos de chacota geral a agentes potenciadores de práticas criativas, ao mesmo tempo que a recursos semióticos produtores de novos sentidos de realização do lugar, na sua relação com as práticas da apropriação, do desvio e da resistência.]
Poderá ainda acrescentar-se, a título ilustrativo da recriação do sentido do lugar, a prática observada de transformação do chafariz, instalado no ‘centro’ do mercado, em ‘sala de espera’. Face à inexistência de lugares para estar ou sentar, uma vez que a arquitetura interior do mercado foi feita para a circulação em permanência, demo-nos conta de que alguns dos homens, geralmente de meia idade, que acompanham as respetivas mulheres às compras, acabam por improvisar no chafariz uma sala de espera, aguardando pela finalização da tarefa, protagonizada sobretudo no feminino, com sacos de compras de que, entretanto, vão tomando conta, enquanto se entretêm, frequentemente, navegando com o telemóvel. Por outro lado, destaca-se ainda o caso particular do marido de uma das vendedoras mais antigas do mercado, já idoso e com Alzheimer, que apropriando-se desse mesmo lugar ali instalou um banco vermelho de plástico, onde se senta pacientemente, horas a fio, fazendo daquele espaço aberto um canto pessoal, o seu verdadeiro ‘centro de dia’.]
A produção do sentido do lugar, no mercado, é um processo socio-material que não se realiza senão tendo em consideração as interações entre humanos e coisas, humanos e estruturas, numa palavra, entre humanos e não-humanos. Tal como no espaço urbano em geral, a concentração de humanos, tecnologias e infraestruturas compõe uma assemblage que vai muito para além de uma mera realidade espacial. Tal quer dizer que essa mesma combinação constitui uma força material e social poderosa (e ao mesmo tempo constrangedora): “It is the coming together of overlapping sociotechnical systems that gives cities their world-making power” (Amin & Thrift, 2017, p. 10). Do mesmo modo, no mercado, uma amálgama de máquinas, humanos, não-humanos, infra-estruturas, redes, matérias e natureza não permite a sua redução a uma entidade física ou a uma simples formação territorial. Na verdade, a complexidade da natureza socio-técnica do mercado faz com que este apenas se constitua enquanto processo de ‘coming together’ (Amin & Thrift, 2017), um processo que se faz e se desfaz a cada instância espácio-temporal concreta.
O mercado é um espaço público urbano realizado no quotidiano pelas relações, designadamente, estabelecidas por meio de e com as mercadorias. Fruto da “força produtiva”, estas transformam-se em coisas, em entidades não-humanas potencialmente agentivas, uma vez espacializadas. Isto é, a passagem do nível estrutural à carne da experiência sensível (Merleau-Ponty, 1945/2001) que produz o próprio espaço enquanto instância corporal e relacional concreta – sobrepondo-lhe, de certo modo, o carácter singular do lugar percebido e vivido – torna-se fundamental enquanto aquilo que (re)faz, a cada passo, o sentido. Nessa passagem operam agentes humanos e não-humanos, dos quais participam as mercadorias feitas coisas, todo o tipo de artefactos, a arquitetura…, co-constituindo-se, e coagindo-se, mutuamente. Nesta perspetiva, a morfologia material e a social são interdependentes. Como antecipa Lefebvre, em O direito à cidade (1968/2011, p. 54),
“As relações sociais são atingidas a partir do sensível; elas não se reduzem a esse mundo sensível e no entanto não flutuam no ar, não fogem na transcendência. Se a realidade social implica formas e relações, se ela não pode ser concebida de maneira homóloga ao objeto isolado, sensível ou técnico, ela não subsiste sem ligações, sem se apegar aos objetos, às coisas”.
O aprovisionamento de bens essenciais à sobrevivência no quotidiano ainda resiste enquanto prática de vida urbana coletiva, no seu modo presencial (apesar das mudanças de comportamento do consumidor com o desenvolvimento do e-commerce e os serviços de entrega ao domicílio, acentuados a partir da pandemia). Obrigando os indivíduos, e as famílias, a sair de casa, trata-se de uma prática que não dispensa a deslocação. No mercado, distintamente das grandes superfícies ou de outro tipo de comércio alimentar, é a própria experiência de circulação no espaço do seu interior que reclama do corpo um modo singular de combinação socio-técnica. Na linha da perspetiva pós-humana sobre a natureza híbrida que nos compõe, enquanto seres mentais, corporais, maquínicos e matéricos, importa ainda sublinhar que a ação humana não se confina aos limites físicos do corpo. Assim, importa ter em consideração os seus ‘meaningfull effects’ (Amin & Thrift, 2017, p. 23) sobre tudo aquilo que compõe a assemblage da vida quotidiana em comum.
Note-se que a noção de semiotic assemblages, segundo Pennycook (2018; 2024), define-se não estritamente pelo modo verbal, as if languages pre-exist their instantiation in particular places, mas on the ways in which particular assemblages of objects, linguistic resources and places come together. Não deixando de se impor a distinção entre a língua e a linguagem (ou língua e fala, segundo Certeau, 1994), importa considerar esta última não enquanto sistema abstracto, mas enquanto ação semiótica incorporada, implantada nas relações materiais e nas variadas combinações instanciadas (Pennycook, 2018, 2024).



[Episódio 4: A observação etnográfica do mercado, nos seus contextos de agenciamento quotidiano, permitiu darmo-nos conta de que mais do que a troca de mercadorias é a sociabilidade aquilo que verdadeiramente mobiliza a transformação do espaço em lugar. Nas interações sociais, os objetos têm um papel agentivo, que vai para além do seu estrito valor funcional e de mediação. Os produtos vendidos/comprados mobilizam a conversação, estimulam a troca de experiências e atualizam, quantas vezes, memórias. Poderá ressaltar-se o papel dos objetos sagrados que, inusitadamente, decoram bancas e lojas no mercado. Desde a figura do Santo António à da Pietá, são diversas as imagens que povoam o mercado, ora destacadas em prateleiras, ora misturando-se com as pilhas das mercadorias. Indiciando a transformação do mercado num lugar híbrido, ao mesmo tempo prosaico e de culto, tais figuras entretecem-se com a esfera do imaginário religioso coletivo, ali partilhado em contexto de vida prática, ao mesmo tempo que com a esfera mais íntima da crença, e mesmo da superstição, da qual cada vendedor se faz, mais ou menos discretamente, acompanhar no seu dia a dia. Deverá ainda acrescentar-se a função que estes mesmos objetos desempenham na realização da memória coletiva, assim como transgeracional, ao transitarem, em alguns casos, da banca dos pais para a banca dos filhos.]
Em suma, as práticas sociais no mercado de Braga entrelaçam, simultaneamente, e de um modo particular, práticas socio-semióticas, no seu sentido mais comum, uma vez que sendo relacionais acarretam, necessariamente, sentido (meaning), e práticas materiais, implicadas na relação com as coisas e no modo como estas são moldadas (e moldam) nessas mesmas relações (Law, 2019). Note-se, por isso, que a semiótica socio-material não pode desconsiderar as condições específicas de produção do sentido, os contextos, as instâncias espácio-temporais concretas e irrepetíveis. Além do mais, é importante referir que quando falamos em práticas nelas se incluem as ações agenciadas por entidades não-humanas, como oportunamente observa Law (2019, p. 6): “Material semiotics works on the assumption that ‘non-human actors’ can indeed act”.
O sentido realiza-se em contextos irrepetíveis e instanciados, combinando entidades múltiplas. Considerar o espaço enquanto acontecimento, na verdade, implica considerá-lo na sua transformação em lugar de experiência (Tuan, 1977). No quadro da abordagem deste artigo, esta experiência, por sua vez, designa as constelações que entrelaçam o humano e o não-humano, formando o sentido de togetherness. Atente-se que Massey (2005/2008) define o espaço enquanto ‘multiplicidade dinâmica’, o que quer dizer multiplicidade composta de elementos imbuídos de temporalidade ou mesmo espaço enquanto processo de produção aberta e acontecimento. As práticas de inter-relação entre os diferentes elementos realizam a mudança em permanência, nem que seja pela atualização, sempre nova, da aparente repetição do mesmo. O processo socio-semiótico de produção do sentido não dispensa as interações entre entidades humanas e não-humanas e é, necessariamente, de natureza evenemencial. Como defende Latour, ‘The connections among things alone make time’ (1991/1993, p. 77).
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[1] https://www.passeio.pt/galeria/compraca-comunicacao-na-praca-mercado-municipal-de-braga-o-que-pode-um-mercado/
Projeto de investigação e intervenção desenvolvido no quadro da Passeio – Plataforma de Arte e Cultura Urbana (CECS, UMinho), entre 2021-2023.
Referências:
Amin, A. & Thrift, N. (2017). Seeing like a city. Cambridge: Polity Press.
Bachelard, G. (1957/2008). A poética do espaço. São Paulo. Martins Fontes.
Baudelaire, C. (1863/1941). O pintor da vida moderna. Lisboa. Editorial “Inquérito” L.da (trad. Adolfo Casais Monteiro)
Benjamin, W. (2006). A modernidade. Lisboa. Assírio & Alvim (Trad. João Barrento)
Certeau, M. (1994). A invenção do cotidiano I: as artes do fazer. Petrópolis/RJ: Vozes.
Foucault, M. (1975/2002). Vigiar e punir. História da violência nas prisões. Petrópolis: Editora Vozes (Trad. de Raquel Ramalhete)
Gibson, J. J. (1986). The ecological approach to visual perception. London: LEA.
Halliday, M.A.K. (1978). Language as Social Semiotic. The Social Interpretation of Language and Meaning. London: Edward Arnold.
Han, B.C. (2016/2018). A expulsão do outro. Lisboa: Relógio D’Água (Trad. Miguel Serras Pereira)
Kovadloff, S. (1998). Sentido y riesgo de la vida cotidiana. Buenos Aires. Emecé Editores.
Latour, B. (1991/1993). We have never been modern. Harvard: Harvard University Press (Trad. De Catherine Porter)
Law, J. (2019). Material semiotics
(www.heterogeneities.net/publications/Law2019MaterialSemiotics.pdf)
Lefebvre, H. (2000). La production de l’espace. Paris: Éditions Anthropos.
Lefebvre, H. (1968/2011). O direito à cidade. São Paulo. Centauro.
Lefebvre, H. (2008). A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG (trad. De Sérgio Martins)
Lipovetsky, G. & e Serroy, J. (2007). L’ecran global. Paris: Éditions seuil.
Massey, D. (2005/2008). For space. LA: Sage.
Merleau-Ponty, M. (1945/2001). Phénomenolgie de la perception. Paris. Gallimard.
Pennycook, A. (2018). Posthumanist applied humanistics. London/NY: Routledge
Pennycook, A. (2024). Linguistic, Semiotic and Sociomaterial Assemblages. Published online by Cambridge University Press.
Simmel, G. (1903/2009). As grandes cidades e a vida do espírito. UBI (Trad. de Artur Morão)
Sennett, R. (1977/2017). The fall of the public man. NY/London: W. W. Norton & Company.
Stavrides, S. (2016/2021). Espaço comum. A cidade como obra colectiva. Lisboa: Orfeu Negro (Trad. Jorge Colaço)
Tuan, Y.-F. (1977). Space and place: the perspective of experience. Minnesota: University of Minnesota Press.
Van Leeuwen, T. (2005). Introducing Social Semiotics. London: Routledge.
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Versão em pdf:
Pesadelo

“Instituição com números, sem pensamento, com o quotidiano académico a pulsar ao ritmo da máquina, numa desenfreada mobilização tecnológica para o mercado, para a estatística e para o ranking, a Universidade faz, além disso, a entronização dos procedimentos corretivos e ortopédicos, certificando no ensino e na investigação meras rotinas e conformidades, eficiências e utilidades” (Moisés de Lemos Martins, ” Da Universidade de Sokal, Crato e Passos Coelho, à Universidade da ciência como aventura do pensamento”, Correio do Minho (março 2018): https://correiodominho.pt/cronicas/da-universidade-de-sokal-crato-e-passos-coelho-universidade-da-cincia-como-aventura-do-pensamento/9506; consultado em 16/11/2022).
Acordei, sobressaltado e trémulo, de um pesadelo apocalíptico. Tomada por uma vertigem autofágica, a Universidade estava em vias de perder três dos pilares que a caracterizaram durante séculos: a sabedoria, o humanismo e o ensino. A sabedoria para o conhecimento a metro; o humanismo para as novas regras do mercado dos bens científicos; o ensino para a concorrência de outras fontes de aprendizagem tais como as empresas e as plataformas do tipo YouTube. Ainda bem que não sou faraó do Egipto. Tratou-se apenas de um mero sonho ruim, que, no entanto, teve a má sina de me deixar perturbado.
Vindima

“As mulheres cortavam, as crianças despejavam as cestas cheias, os homens erguiam sobre as trouxas os vindimeiros, e o som cavo do bombo ia abafando pelas valeiras fora o repenicado do harmónio e o tlintlim dos ferrinhos. O sol erguera-se já congestionado, e mordia a pele como um sinapismo. Suava tudo. E quem não tinha as molas dos rins bem oleadas, ou se via pela primeira vez ajoujado com quatro arrobas às costas, vivia a eternidade num segundo” Miguel Torga, Vindima, 1945).
Faz precisamente quarenta anos, em junho de 1982, que defendi na Sorbonne as provas de mestrado (DEA) em Antropologia Social e Cultural, com uma dissertação intitulada Voyages à l’intérieur de l’économie rurale (Panorama des clivages d’avant 1970), parcialmente reproduzida no artigo “O Campesinato entre o diabo e o bom Deus: Panorama de algumas clivagens configuradoras da economia agrária”, na revista Cadernos do Noroeste, Vol. 8 (1), 1995, 113-144. Defendi, também, o projeto para doutoramento La viticulture en Alto Minho: Agriculture et développement régional. Quem diria! Foram membros do júri, para além do meu orientador, Robert Cresswell, Louis-Vincent Thomas e Michel Maffesoli. Identificava-me, na altura, como sociólogo rural. E nos concelhos de Melgaço e Monção as marcas de alvarinho contavam-se pelos dedos das mãos. Se a memória não me engana: Palácio da Brejoeira, Cepa Velha, Deu-La-Deu, Soalheiro, Dona Paterna e pouco mais. Sempre gostei de farejar o futuro no presente, aventurando-me por florestas relativamente virgens.
Três meses depois, em Setembro de 1982, ingressei como docente na Universidade do Minho. Regressei ao País e a minha vida, os meus horizontes e as minhas prioridades mudaram substantivamente. A “especialidade” deslocou-se da sociologia rural para a sociologia dos estilos de vida e o tema de investigação desviou-se da inserção do camponês no mercado para a condição do emigrante na sociedade de origem (ver “O Presente Ausente: O Emigrante na Sociedade de Origem”, Cadernos do Noroeste, vol. I – nº1, 1987, pp. 7-30; e “O Presente Ausente II: A Sociedade de Origem face ao Emigrante”, Cadernos do Noroeste, vol.II/2-3, 1989, pp. 125-153). Em suma, concebi dois projectos para doutoramento: um primeiro, na Sorbonne, que acabou reciclado e um segundo, na Universidade do Minho, conduzido a bom termo (ver Imagens e Clivagens: os residentes face aos emigrantes, Porto, Afrontamento, 1996).
A cópia do primeiro projecto de doutoramento encontra-se num estado deplorável. Decidi digitalizá-la antes que ficasse ilegível. Passo a guardá-la no Tendências do Imaginário, meu armazém actual. Trata-se de um resquício arqueológico de um percurso pautado por desvios, pausas, rupturas e recomeços, que se oferece como exemplo de um projecto trabalhoso, devidamente defendido e posteriormente abortado. Em suma, uma colheita velha de uma cepa nova.
Seguem, em pdf o projecto de doutoramento La viticulture en Alto Minho: Agriculture et développement régional (1982), assim como o artigo “O Campesinato entre o diabo e o bom Deus: Panorama de algumas clivagens configuradoras da economia agrária” (1987). Acresce a reportagem “O minhoto Gosta é de Festa” e é assim que nasce o vinho alvarinho, da TVI24, publicada no dia 2 de Outubro de 2021. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Portugal: Competitividade e custos de contexto das empresas, do trabalho e do país.

«Um grande sacrifício é fácil, difíceis são os pequenos sacrifícios contínuos…» (Johann Wolfgang Goethe, adaptado de «As afinidades electivas»)
Em Portugal, o que interessa não é interessante. Prefere-se a poeira à clareza (AG).
O meu rapaz mais jovem, o Fernando, acaba de publicar um novo artigo numa revista com referee e com fator de impacto: “A Recursive Algorithm for the Forward Kinematic Analysis of Robotic Systems Using Euler Angle”, (Robotics 2022, 11(1), 15; https://doi.org/10.3390/robotics11010015 (registering DOI). O mesmo acontece com o meu rapaz menos jovem, o João que publicou o artigo “Common sense or censorship: How algorithmic moderators and message type influence perceptions of online content deletion” (New Media & Society, July 28, 2021: https://doi.org/10.1177/14614448211032310), igualmente numa revista com referee e fator de impacto. O Fernando é doutorando em Engenharia Mecânica e o João, doutor em Ciências da Comunicação, ambos pela Universidade do Minho, com bolsa da FCT. O João emigrou; é professor na Universidade Erasmus de Roterdão, na Holanda. O Fernando para lá caminha: atraído pelo Oriente, está a aprender japonês, o que, para mim, não é bom augúrio. Não se resignam à sorte que Portugal lhes destina nem receiam competir com os indígenas dos países de destino. O panorama nacional está longe de ser cativante. É o fado lusitano.
Repete-se que as empresas e os trabalhadores portugueses carecem de produtividade e competitividade. Não sei! Não disponho de informação suficiente, sobre umas e outros, para consolidar uma ponderação válida. Quero acreditar que se esforçam, que fazem por isso, que se empenham. É do seu interesse. Possuem virtudes e vícios, desconheço se maiores, melhores ou piores do que nos países estrangeiros. O que se me afigura é que se confrontam com custos de contexto incomparáveis e incomportáveis. Só por ser produzido em Portugal, um bem pode suportar custos comparativamente mais elevados. O que configura, na prática, uma espécie de “concorrência desleal” face aos adversários congéneres de outros países, por exemplo, da União Europeia. Um rosário de desgraças! Perdoem a imagem, mas lembra uma corrida em que uns calçam tamancos e outros, sapatilhas de desporto.
Comecemos pela energia, despesa apreciável e incontornável das empresas e das famílias:
“O custo da energia em Portugal continua a ser dos mais elevados da Europa, afetando as famílias e as empresas. Porquê? (…) Na gasolina 95 simples, a carga fiscal é de 63%, fazendo com que o país pague o sexto preço por litro mais elevado da União Europeia (EU). O preço praticado em Portugal é 0.55 euros mais caro que o preço mais baixo praticado na EU e fica a 0.17 euros do preço mais elevado. / No gasóleo, o preço por litro praticado em Portugal é o sétimo mais elevado da EU, sendo 0.38 euros superior ao preço mais baixo e fica a 0.21 euros do preço mais elevado. / Estes preços dos combustíveis são pouco competitivos à escala europeia. Panorama idêntico existe nos custos de eletricidade e do gás natural. / O Eurostat divulgou recentemente o seu boletim de preços e Portugal volta a ficar mal na fotografia. / A carga fiscal, apesar de não ser tão elevada como nos combustíveis, continua a ser acima do desejável: 40% na fatura da eletricidade e 32% na fatura do gás (faturas cobradas às famílias). / No segundo semestre de 2020, o país apresentou o quarto maior preço de eletricidade da EU, tendo por base a paridade do poder de compra das famílias (por MWH), apenas atrás da República Checa, Espanha e Alemanha (…) No que respeita ao gás natural, o país apresenta o segundo maior preço de gás da EU, tendo por base a paridade do poder de compra das famílias (por gigajoules) / Num período em que se discutiram e ainda discutem as prioridades económicas do país e se elaborou um plano de recuperação e resiliência com vista aos fundos estruturais da famosa e tardia “bazuca”, porque não se olhou ou começa a olhar para a questão dos preços da energia, que são elevados em Portugal e que afetam a competitividade das empresas e da economia em geral?” (Carlos Bastardo, Preços da energia em Portugal são elevados no contexto europeu, Jornal de Negócios: https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/carlos-bastardo/detalhe/precos-da-energia-em-portugal-sao-elevados-no-contexto-europeu).
Algumas propriedades do mercado de trabalho português prejudicam a produtividade e a competitividade nacionais. Por falta de informação adequada, algumas das afirmações seguintes reduzem-se a meras impressões e conjeturas.
A descoincidência, o desacerto, entre a oferta e a procura de trabalho manifesta-se com um dos mais graves obstáculos ao desenvolvimento da economia nacional, da competitividade das empresas e da produtividade do trabalho. As empresas conhecem dificuldades em encontrar trabalhadores ajustados às suas necessidades e especificidades, mesmo quando o desemprego é apreciável; por seu turno, os trabalhadores têm dificuldade em encontrar empregos adequados às suas capacidades e aspirações, mesmo quando a economia se aproxima do pleno emprego. Vários fatores contribuem para este desequilíbrio. Por exemplo, as migrações descontroladas, designadamente a emigração. Mas também a desfocagem da educação, da formação e da requalificação profissional, desfasadas das necessidades efetivas, presentes e futuras, dos sectores público e, sobretudo, privado. Acresce o desencontro da distribuição geográfica. Apesar das “correções espontâneas” e do acréscimo da mobilidade, persiste alguma tendência para as empresas se concentrarem em territórios onde as bolsas de trabalho escasseiam e desertarem das áreas onde a disponibilidade de trabalhadores é maior. As disparidades regionais e as dinâmicas demográficas, principalmente entre o litoral e o interior, concorrem para esta descoincidência. Esta realidade é manifesta. Fui convidado para estudar uma zona industrial a braços com uma crise anunciada: várias empresas com centenas de colaboradores ameaçavam deslocalizar-se devido à dificuldade em recrutar trabalhadores localmente. O desenvolvimento do turismo e do comércio transfronteiriço multiplicou os estabelecimentos hoteleiros e os comércios no norte interior. A maioria dos trabalhadores provêm da área metropolitana do Porto, com o compromisso de lhes garantir alojamento. Existem empresas predadoras de salários baixos que erram de terra em terra, de trabalho esgotado em trabalho prometido.
Quer-me parecer que a imigração, em particular a brasileira, tem mitigado parte desta descoincidência do mercado de trabalho nacional. Mas o atual surto de emigração, com características únicas, agrava-a. Quando a educação e a formação logram acertar, a emigração distorce. A dificuldade no recrutamento de médicos e enfermeiros para o Serviço Nacional de Saúde constitui um exemplo. As famílias com que me relaciono, uma amostra não representativa, têm quase todas pelo menos um filho a trabalhar no estrangeiro. A geração mais qualificada de sempre, descendente da geração mais qualificada do passado, está a despedir-se do país. Portugal está a desperdiçar capital humano, ambição e energia. Grave, muito grave!
O envelhecimento demográfico acentua-se como uma variável de contexto que compromete a economia portuguesa. Em 2019, Portugal era, entre 37 países europeus, o terceiro com maior percentagem de população com 65 e mais anos de idade: 21.8%, a par da Finlândia e atrás da da Itália (22.8%) e da Grécia (22.0%). Entre 2009 e 2019, Portugal foi o sexto país em que este grupo etário mais aumentou (3,8 pontos percentuais contra 2.9 no conjunto da União Europeia – fonte: Eurostat). Este envelhecimento pesa, entre outras dimensões, na sustentabilidade da segurança social e na disponibilidade de força de trabalho. Nestas circunstâncias, importa expandir a disponibilidade laboral, reduzindo, eventualmente, a ocupação com tarefas, tais como a dedicação doméstica à primeira infância, através, por exemplo, da aposta na cobertura de creches. No caso da zona industrial acima referida, a abertura de uma creche propiciou uma maior “drenagem” de trabalhadores, sobretudo, do sexo feminino. Uma iniciativa positiva tanto para as empresas como para os trabalhadores.
Para combater estes e outros custos de contexto, os decisores parecem não vislumbrar outra solução a não ser o recurso à contenção dos salários, à precariedade e à compressão, ao encolhimento, das carreiras. Para o meu entendimento, suspeito, esta é a maior praga da economia portuguesa, o maior custo de contexto. Retomando o artigo “Lamento político 1: Os salários nos sectores público e privado em Portugal e na EU” (https://tendimag.com/2022/01/11/lamento-politico-1/), no ano 2000, entre os dez países europeus considerados, Portugal é aquele que tem o salário médio mais baixo, tanto no setor público como no setor privado. O salário médio da Irlanda é três vezes superior ao português. Portugal destaca-se com o maior diferencial de salário médio entre os setores público e privado: mais 36.6%. Os baixos salários e o diferencial entre setores privado e público, pouco recomendáveis, corroem a competitividade e a produtividade das empresas, dos trabalhadores e do país. Recentemente, as estatísticas revelaram que uma proporção significativa de pessoas com emprego vive abaixo do limiar de pobreza. Não há motivo para tanta surpresa. Em Portugal, existem multidões de trabalhadores que não ganham sequer para a sua reprodução antroponómica, para falar à maneira de Daniel Bertaux (Destins personnels et structure de classe: Pour une critique de l’anthroponomie politique, Paris, Presses Universitaires de France, 1977), ou para a reprodução da sua força de trabalho, como diria Karl Marx. Esta enormidade não pode ser benéfica para a competitividade das empresas e a qualidade de vida dos cidadãos. Compostas por trabalhadores. a produtividade e a competitividade das empresas dependem da qualidade, mobilização e motivação do seu capital humano. Além de baixos, os salários comprimem-se em demasia: pouca amplitude, pouca variação e pouca dispersão. No ano 2000, o desvio-padrão da distribuição dos salários/hora no setor privado era o mais baixo do conjunto dos países da então União Europeia (1,6 contra, por exemplo, 4,1 em França). Não só se ganha menos como são menores as perspetivas de progressão. Nas últimas décadas, esta tendência para a compressão tem-se acentuado, sobretudo, no sector público. A categoria dos professores oferece-se como exemplo: os salários reais baixaram e a sua distribuição comprimiu-se; a carreira encolheu e a espera aumentou. Sobe-se menos, com mais dificuldade e mais devagar. Para cúmulo, o prestígio e a autoestima degradaram-se, fenómeno para que alguns governos contribuíram, sem que ninguém tenha lucrado. Uma das consequências está à vista: a profissão perdeu atratividade. Resulta, mais uma vez, uma descoincidência entre a procura e a oferta de emprego. Atendendo ao envelhecimento da classe e respetiva reforma, os governos vão-se debater, nos próximos anos, com sérias dificuldades em recrutar os professores exigidos pelo sistema de ensino. Aos médicos e aos enfermeiros, juntam-se os professores.
A educação e a saúde são serviços em que, comparativamente, Portugal não desmerece. O respetivo desempenho afirma-se aceitável, justificando, inclusivamente, num ou noutro aspeto, algum motivo de orgulho, por exemplo o sucesso no estrangeiro dos diplomados pelo ensino nacional. Esta avaliação vale para o presente, justifica-se, porém, alguma apreensão quanto ao futuro próximo, mormente no caso da saúde. A educação não para de se debater com um problema crónico: se é ponto assente que o país carece de reformas, a educação padece de reformismo permanente. A cada ano, quando não a cada mês, alteram-se as regras, os procedimentos, os objetivos e os projetos. A educação parece o laboratório do reformismo infantil do Estado. Poeira, que nunca assenta, com prejuízo da consolidação e da estabilidade desejadas para o sistema. Um excesso quase delirante de benchmarking, experimentalismos pedagógicos, sobreaquecimento administrativo, heteronomia e protagonismos políticos. Esta proliferação de minúsculos enxertos e inovações resulta desgastante. A educação parece a nossa folle du logis. Creio chegada a altura de proporcionar algum apaziguamento ao sistema de ensino, de dar repouso a este Sísifo pátrio. Na saúde, em particular no Sistema Nacional de Saúde, a escassez de recursos humanos, a saturação e a morosidade, objetivadas nas filas de espera, mais do que comprometer o presente, erguem-se como um presságio deveras inquietante para o nosso futuro comum.
A saúde e educação suscitam uma mesma reserva. Ao contrário do que estipula a Constituição, não têm sido, cada vez menos acessíveis e mais onerosas, “tendencialmente gratuitas”. O universalismo e a igualdade resumem-se a uma promessa sempre adiada. Quando iniciei a atividade profissional na Universidade, as propinas eram praticamente inexistentes. Hoje, estão bem longe de ser simbólicas. Uma família que dependa de um salário mínimo, mal se consegue restaurar, quanto mais financiar a frequência de um filho, provavelmente deslocado, num curso que cobra milhares de euros por ano. Também não é menos verdade que o direito à escolha do ato médico permanece uma quimera para a maioria dos portugueses.
À semelhança da saúde e da educação, o sistema de transportes, apesar da insuficiente e desequilibrada cobertura, não parece representar um obstáculo decisivo em termos de custos de contexto. A aposta exagerada na rede rodoviária compensa a fragilidade da rede ferroviária. Não obstante, o modelo português comporta alguns custos no futuro. Inscreve-se a contracorrente das opções da União Europeia (ver Livro Branco: Roteiro do espaço único europeu dos transportes, Comissão Europeia, 2011) e dificulta os compromissos de sustentabilidade ecológica entretanto assumidos. Em suma, não é amigo do ambiente. Por enquanto, este handicap não comporta custos de contexto para as empresas.
Se os sistemas de saúde, educação e transportes não se destacam pelos custos de contexto, o mesmo não se pode afiançar do sistema de justiça. Moroso e imprevisível, representa um desafio e uma ameaça para a vida, o funcionamento e a sobrevivência das famílias e, sobretudo, das empresas. O sistema de justiça ocasiona um dos mais graves custos de contexto do país. O recurso à justiça não é raro e pode ser crítico, especialmente em termos de custos de oportunidade. Muitas empresas contemplam serviços jurídicos. Morosa, hermética e imprevisível, a justiça é a tartaruga, o labirinto e a esfinge de Portugal. Não obstante, parece intocável. Sem questionar a dedicação e o empenho, estimo que, no que respeita à esfera pública, ganhava em ceder menos à mediatização e cuidar mais da autonomia que a Constituição lhe confere.
A burocracia é comumente invocada como um dos principais problemas da sociedade portuguesa. Embora o admita, reconheço que se distingue como um dos poucos domínios em que, nas últimas décadas, foram dados passos positivos. A informatização ajudou, bem como iniciativas tais como as lojas do cidadão e o cartão único. Alguns procedimentos simplificaram-se e a relação com o público parece ter melhorado. Mas há ainda caminho a percorrer. O acesso e a resolução dos problemas nem sempre brilham pela agilidade. Pode-se melhorar em termos de clareza das regras e dos procedimentos, acessibilidade, transparência, diminuição de informalidades, clientelas, mordomias, desvios e corrupção. Neste momento, não me parece que a burocracia seja o pior custo de contexto.

Chegou o momento de abordar a questão dos impostos e da carga fiscal. Ao contrário do que muitas vezes se sugere, a carga fiscal em Portugal, quando comparada com os países da União Europeia, não é muito elevada. De acordo com o Eurostat, a carga fiscal, constituída pela soma dos impostos e das contribuições sociais líquidas em percentagem do PIB, situou-se, em 2019, nos 36.8%, ocupando uma posição intermédia na série dos 27 países da União Europeia (ver gráfico 1), abaixo do valor do conjunto (UE27: 41.1%). A carga fiscal aumentou consideravelmente entre 1995 e 2015, passando de 31.4% para 36.8%, o quarto maior aumento nos países da UE27, apenas inferior à Grécia, à Bulgária e ao Chipre (ver Tabela 1). Honestamente, estes números não apontam para uma carga fiscal responsável, intrínseca e comparativamente, por um despropositado custo de contexto. O que merece, isso sim, uma avaliação criteriosa é o modo como a receita fiscal é repartida, distribuída e investida.

Mergulhei na atividade política em 1974. Fui responsável por um partido político no meu concelho de origem. Com outro concelho, foi o único do distrito em que o partido ganhou as eleições para a Assembleia Constituinte do dia 25 de Abril de 1975. Coincidindo com a minha partida para França, afastei-me da atividade política logo após o período conhecido como “verão quente”. Desde então, nem militante, nem sequer simpatizante explícito. Mas não existem vacinas nem imunidades absolutas. Atrevo-me a um ou outro despretensioso balanço.
O sector político (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, poder autárquico, partidos políticos) também influencia os custos de contexto. Dispenso comentar. Limito-me a um breve apontamento.
Entre as propostas da presente campanha eleitoral destacam-se aquelas que respeitam à política fiscal: redução do IRC versus aumento dos salários. Caracterizam-se por serem propostas que se podem implementar por decreto: totalmente, a redução do IRC; parcialmente, o aumento de salários, mais direto e linear no sector público do que no sector privado. Estas propostas justificam dois ou três reparos. Antes de mais, não acredito que “se consiga mudar a sociedade por decreto” (Michel Crozier, On ne change pas la société par décret, 1979). Por outro lado, estas medidas não produzem fatalmente os efeitos desejados. Podem provocar efeitos perversos. O aumento de salários pode alimentar o crescimento do consumo, da inflação, das importações e saldar-se numa quebra efetiva do salário real. Tão pouco se sabe se o bónus da descida do IRC vai estimular as virtudes ou os vícios, muitos e entranhados, do tecido empresarial português. Não sei, portanto, qual vai ser, à partida, o efeito dessas medidas. Invejo quem saiba. São, no entanto, fáceis de formular. Basta quatro palavras: “vou baixar o IRC” ou “vou aumentar os salários”. Outro género de propostas exige mais fraseado. Não basta dizer vou melhorar o ranking da educação, a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, agilizar a justiça ou diminuir o impacto da poluição. Tem que se completar a proposta, adiantando como. Certo é que a diminuição do IRC ou o aumento dos salários implicam, automaticamente, uma transferência ou um corte da riqueza de todos em proveito de uma parte, seja esta empresária ou assalariada. Significa, também, que esse dinheiro transferido ou preterido deixa de estar disponível para investir, digamos, na saúde, na educação, na solidariedade social ou na fatura energética.
Quase não vejo televisão. Não tenho nada contra, mas dedico-me e concentro-me em outras atividades. Só assisti a uma ou outra passagem dos debates pré-eleitorais. Nem sequer a um único segundo do debate “decisivo” entre António Costa e Rui Rio. Entretido, passou-me a hora. Não me entusiasma a voz dos políticos; ainda menos a dos comentadores. Mesmo assim, acabo por reter algumas impressões.
Pelos vistos, as velhas dicotomias da economia política e da política económica, tais como investimento/consumo, rendimento/inflação, público/privado continuam no vento. Quando frequentei na Sorbonne, no início dos anos oitenta, um curso de mestrado em Política Económica, as aulas convenceram-me que essas oposições se tinham esbatido e que keynesianos e friedmanianos tinham aprendido alguma coisa com a experiência e uns com os outros. Tudo indica que não.
Enfim, o pouco que observei foi o suficiente para entranhar uma impressão deveras estranha. Parece que os poderosos e abastados deste país têm inveja dos pobres e dos excluídos! Precise-se, de passagem, que os traficantes não costumam ser pobres; antes, endinheirados.
Em jeito de conclusão, três dúvidas formuladas sob a forma de perguntas:
– Serão as empresas portuguesas, por si mesmas, não competitivas? Noutros termos: colocadas em condições semelhantes às congéneres dos países parceiros da União Europeia, permaneceriam não competitivas?
– Serão os assalariados portugueses menos produtivos? Noutros termos: colocados em condições semelhantes, como os nossos emigrantes, aos congéneres dos países parceiros da União Europeia, permaneceriam pouco produtivos?
– Será Portugal um país, no seu conjunto, não competitivo?
Excetuando um breve período na década de 1960, há séculos que Portugal não é um país competitivo.
A beleza como obrigação
A Dove proclama o que todos sabem: existe uma escravatura do corpo a par de uma compulsão estética. Nunca a beleza reinou tanto como na era da emancipação. O corpo é meu; faço dele o que entendo; deve agradar. Tanta dedicação ao corpo só nas odaliscas, nas cortesãs e nos castrati. A plasticidade do corpo é um desafio e uma responsabilidade. Requer cuidado, desde as unhas dos pés até às unhas das mãos, passando pelas intimidades. A totalidade do corpo pode ser alvo do cuidado estético. Esta tendência alastra-se a toda a população, incluindo os homens. Cuidar do corpo é uma tarefa sisífica e minuciosa: nenhum pelo, nenhuma borbulha, nenhuma verruga, nenhuma branca, nenhuma mancha, nenhuma ruga, nenhuma secura… Muita arte preventiva e reparadora. Muita aparência. Muita cosmética. A Dove parece remar contra a corrente, mas a favor do mercado. Enquanto a receita render, simulará quebrar o espelho do século. Mas a visão de um anúncio da Dove pode conviver com a marcação para fazer as unhas, o ginásio, a massagem adelgaçante, esticar o cabelo, a limpeza de pele, a terapia aromática e a depilação dos sovacos, queira a Dove ou não. A Dove não está fora do jogo; joga com as regras. O espelho da beleza, a reflexividade estética, é de tal ordem que não existem rainhas feias impossíveis de embelezar. A publicidade da Dove não é estranha. Estranho é não ser seguida por outras marcas.
Os gatos são como a felicidade

Os gatos são como a felicidade. Sabe-se quando se afastam, não se sabe quando voltam (AG)
O anúncio Katzen, da Netto, apresenta gatos a fazer compras. É uma paródia dos gatos virais na Internet: o OMG Cat (23 942 793 visualizações); Surprised Kitty (78 935 700 visualizações); No No Cat (12 843 138 visualizações); o Keyboard Cat (55 947 719 visualizações); ou o gato Maru (23 854 637 visualizações).
A banda sonora do anúncio é uma adaptação da música Magic Fly dos Space, uma banda francesa dos anos setenta, por sinal, muito desconhecida. Acrescento duas músicas menos alegres dos Space: Blue Tears e Secret Dreams, ambas do álbum Magic Fly (1977).
