O nariz de Cleópatra: o presente no passado
Não fosse a Dra. Aida Mata convidar-me para uma comunicação sobre a memória num encontro no Mosteiro de Tibães, este texto nunca teria sido escrito. Pouco se perdia!
Não vou falar do que me ensinaram, mas do que aprendi com a experiência. Na verdade, vou contar histórias.
Há trinta anos, costumava, durante as férias, entrevistar pessoas de idade. Tive, por exemplo, o prazer de entrevistar o tio M. Tinha, então, 99 anos e a mulher, 101. Contou um episódio da sua juventude: a organização da procissão do Enterro do Senhor. Uma canseira! Andou tanto a cavalo (estamos no início do século XX) que ganhou feridas no rabo. A procissão sai, com o caixão, de uma capela particular, circunda o cruzeiro e entra no largo com entroncamento para a igreja, onde aguarda uma multidão. Ouve-se um estrondo. O caixão abre e o pregador assoma aos gritos: “Que fizeste, levitas? Mataste o vosso irmão…”
No ano seguinte, domingo de Páscoa, passo pela casa do tio M. O ambiente é de consternação. O tio M. está prostrado com os olhos postos no teto. Sem reconsiderar, sento-me na cama, pego-lhe na mão e segredo-lhe ao ouvido: “Tio M., lembra-se da procissão do Enterro do Senhor?” O tio M. ergue-se, encosta-se à cabeceira e recita, em voz alta, o sermão da procissão do Enterro do Senhor. Qual não foi o espanto geral! Despedi-me sem demoras.
O poder da memória é incomensurável. Individual ou colectiva, a memória é uma potência mobilizadora no presente. É no presente que vive e surte efeito. E alastra-se ao futuro. « O futuro pertence àquele que tem a memória mais longa » (atribuído a Friedrich Nietzsche).
Tenho uma predilecção pelas entrevistas de grupo. Conversar com velhotes, num pátio com ramada, sentados à volta de uma mesa imaginária, gratifica o sociólogo. As entrevistas individuais tendem a ser mais axiais e mais pré-construídas. A vida desfia-se numa “ilusão biográfica” (Bourdieu Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, juin 1986). Importa que a palavra saia dos eixos da cristalização identitária. Isto é difícil de explicar, mas fácil de entender para quem recolhe relatos de vida. As entrevistas de grupo conjugam concentração e descentramento. Atardam-se em ambientes, processos, redes e interacções, numa espécie de deambulação de memórias e afectos. As entrevistas de grupo proporcionam, nos momentos felizes, uma “deslocação” no espaço e no tempo. Memória puxa memória, desejo acende desejo, gesto convida gesto, e eis o advento da alquimia: com o corpo no presente, mergulha-se no passado. Um retorno aberto, vivido e partilhado.
Miguel Torga descreve o fenómeno:
“Estávamos em Paris, o criado que nos servia falava francês, na ementa não figurava bacalhau, e o vinho era um Bordeaux qualquer. Mas nenhuma destas razões impediram que se realizasse o milagre que o nosso anfitrião certamente esperava. Depois das primeiras garfadas, a conversa tomou tal rumo e tal calor, que daí a nada tudo se passava como se o restaurante fosse uma tasca da Alta e vivêssemos nela uma hora coimbrã. Insensivelmente, todos se deixaram arrastar pela onda saudosista. O próprio Navarro, o mais relutante à tentação, acabou por não lhe resistir, a contar também, a evocar, a meter carvão na fornalha. Os episódios sucediam-se, cada qual o mais pitoresco ou irreverente, as guitarras gemiam, os rouxinóis cantavam, o luar radiografava o Choupal” (TORGA, Miguel, A Criação do Mundo, Coimbra, 1991, p. 296).
Viver o presente no passado é experienciar o passado como se fosse presente. Mas este “milagre” não acontece por geração espontânea. Requer, além da “cumplicidade dos astros”, arte, saber e jeito.
O entrevistador pergunta: “E das modas, gostavam das modas?”
Por entre palavras, imagens e emoções, a tia B recorda uns sapatos que levou ao baile junto à capela dos Bouços. Eram tão bonitos! E os seus 86 anos envaidecem-se. Os outros dois velhotes pegam ao palio: “Eram mesmo bonitos! ”. Atingir este nível de pormenor e insignificância é bom sinal, é sinal que a entrevista não desmerece. Quando a conversa envereda por este rumo, conquistamos o acesso ao presente do passado. Mas a técnica não é fácil. Perguntar se gostavam das modas não é o mesmo que perguntar como eram as modas. São chaves distintas: a primeira convoca um actir e a segunda, um relator. Por seu turno, a palavra “modas”, em vez de “danças”, remete empaticamente para o passado, para aquele passado. A aproximação das línguas, mesmo que utópica, é um aconchego para a comunicação. A dança da memória tem muitos passos e improvisos.
Há cerca de dez anos, participei na criação do Espaço Memória e Fronteira (inaugurado em 2007), em Melgaço. O senhor L foi “lugar-tenente” de um dos maiores contrabandistas da região. Granjeava a reputação de não ter igual a atravessar o rio Minho numa batela (embarcação típica). Numa das nossas conversas, propôs-se fazer uma reconstituição da passagem de contrabando no rio Minho. Tinha cerca de 80 anos!
- Aproximou a batela da margem do rio (fotografia 1);
- Cortou ramos de árvores para os colocar na batela (fotografia 2);
- Retirou a água que estava no interior da batela;
- Colocou a carga na batela (fotografia 2);
- Acena em direcção à outra margem (fotografia 3);
- Atravessa o rio (fotografias 4 e 5).
Travessia de contrabando no rio Minho. Reconstituição.





Não é apenas nos casos de polícia que a reconstituição propicia informação relevante. Desconhecíamos o recurso aos ramos de árvore para protecção da carga. Tão pouco sabíamos dos acenos para a outra margem. “A experiência he madre das cousas” (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, 1506). Antes da passagem do contrabando, um “batedor” insinuava-se na outra margem para vigiar os passos da Guarda Civil. Cumpria-lhe assinalar se a passagem era segura.
A reconstituição foi um momento de aprendizagem. A batela descansa, agora, no Espaço Memória e Fronteira, junto a uma fotografia com a travessia do rio Minho. Os ramos na batela constituem uma curiosidade inesperada para os visitantes.

A nossa relação com o passado é problemática e polémica. “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670). Em poucas palavras, Pascal toca na ferida da contingência histórica. Na mesma linha, Ernst Bloch (Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução, 1921) alerta: se é verdade que a história está cheia de impossíveis realizados, não está menos cheia de possíveis não realizados. Contemplar o presente no passado é captar a história enquanto se faz. No início dos anos sessenta, Portugal envolveu-se na Guerra do Ultramar, mas, na altura, existiam alternativas. Bastava ceder às pressões internacionais. Como seria, hoje, Portugal sem a “herança” da Guerra Colonial?
Nós insistimos em descarnar o passado, extraindo-lhe a incerteza do momento presente. Para muitos, a história é uma extensa peregrinação rumo à contemporaneidade. Como se a história não fosse trágica. Assim se servem os banquetes e as migalhas do nosso entendimento.
Na Internet, não há sinopse que não sublinhe que o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1940) “saiu um ano antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1941)”. Que nos diz este apontamento sobre o filme? Não seria mais ajustado informar que o filme se estreou um ano após o início da Segunda Guerra Mundial? Isto é tique, isto é vício. Vício de ler a história de frente para trás. Incapacidade de ancorar no tempo, de sondar os horizontes do passado.
Compreender o passado é difícil. Compreender-nos a nós próprios, também. Há muitas formas de lidar com o passado: ignorar; dissecar; conservar; restaurar; revitalizar; desvirtuar… Está em voga a carnavalização da memória. Proliferam iniciativas que arremedam o passado para gáudio do presente. A todos os níveis, com todos os pretextos e para todos os públicos. Canibalizar, perdão, carnavalizar a memória é timbre do nosso tempo. Uma presentificação festiva.
Águas turvas
“O esquecimento é um oceano gigantesco no qual navega um único navio, que é a memória” (Nothombe, Amélie, 2004, Hygiène de l’assassin, LGF)
Amanhã, 2 de Setembro, vou falar ao Mosteiro de Tibães (Biblioteca, 15:30). Um dos temas possíveis seria o esquecimento. Mas optei pelas formas de despertar a memória. Ocorreram-me, mesmo assim, vários apagões da memória. Por exemplo, os Genesis, uma banda de culto dos anos setenta que parece ter naufragado no “oceano gigantesco” do esquecimento. Na minha Internet, cada um tem a sua, só os encontro quando os procuro. O álbum The lamb lies down on broadway estreou em 1974, ano em que a concorrência foi particularmente forte. Lembro uma canção óbvia: The Carpet Crawlers.
Genesis. The Carpet Crawlers. The lamb lies down on broadway. 1974.
O túnel da memória
O património e a memória estão na moda. Se tivesse um filho, se fosse rapaz chamava-lhe Património, se fosse rapariga, chamava-lhe Memória. Em Portugal, retenho três exemplos: o Arquivo dos Diários, em Lisboa; a Casa da Memória, em Guimarães; e o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Embora os arquivos, os documentos e os testemunhos tendam a ser familiares ou pessoais, a memória visada é a memória colectiva (Maurice Halbwachs, Les cadres sociaux de la mémoire, 1925).
Esta exposição, localizada num túnel que foi um abrigo durante a Segunda Grande Guerra em Zagreb, é um caso emblemático. Com uma extensão de 350 metros no interior de um túnel (Gric) com mais de um quilómetro de comprimento, a exposição aborda 133 anos da história da Croácia, recorrendo a uma diversidade de fontes. O resultado é espectacular. Mais de 103 000 pessoas visitaram a exposição; 5 370 deixaram relatos pessoais. Foi a exposição mais visitada na Croácia durante o ano de 2017.
A entidade promotora da exposição foi a companhia de seguros Croatia Osiguranje. As empresas privadas projectam-se, cada vez mais, na esfera política (apoio a causas) e na esfera da cultura (criação de instituições e eventos culturais). À “indústria da cultura” produzida à maneira da indústria acrescenta-se a cultura produzida pela própria indústria. O que não é sem consequências ao nível do protagonismo do Estado.
Marca: Croatia Osiguranje. Título: The Tunnel. Agência: Bruketa&Zinic&Grey, Brigada, Millenium Promocija. Croácia, Novembro 2017.
A Nostalgia do Invisível

Este fim-de-semana visitei a família. Pouco trabalhei. Avaliei uma dezena de trabalhos. Pequei por negligência! Na nova ordem laboral, não há dia do Senhor, estamos sempre disponíveis para o chamamento. O trabalho actual é filho da desmaterialização e enteado da ubiquidade. A autoridade já não precisa do panóptico.
Dou aulas há 36 anos. Tempo suficiente para observar o ensino superior ceder perante o peso da investigação burocrática. Tenho desaprendido muito. A aprendizagem conquista-se. Os trabalhos práticos ajudam. Querem-se, no entanto, exigentes, abertos, envolventes e criativos. Um trabalho simples, normal, enquadrado e previsível é um placebo para a inteligência.
A disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte pedia um trabalho com contornos claros: a comparação entre duas “realidades” (obras, autores, movimentos…) pertencentes a géneros distintos (pintura, cinema, escultura, música, literatura, documentário, publicidade…). O modo e a escolha competiam aos alunos. O resultado pretendia-se mais intensivo do que extensivo. Um relatório sucinto, ao jeito de um artigo para um blogue.
O trabalho A Nostalgia do Invisível – Memória e Imaginário, de Vanessa Caroline de Almeida Ancântara, é surpreendente e arrojado: uma aproximação entre o documentário chileno Nostalgia de Luz, do cineasta Patricio Guzmán, e o livro Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Confesso que me acontece aprender mais com os trabalhos práticos dos alunos do que com os artigos indexados dos colegas. Honi soit qui mal y pense!
A nostalgia do invisível – Memória e imaginário
Por Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara
“Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente, os que não a têm, não vivem em nenhuma parte.”
Patricio Guzmán
A literatura e o cinema têm um longo histórico de correlação. São linguagens diferentes, duas formas de representar o real ou o imaginado, de contar experiências, construir representações. Algumas vezes se justapõem. Quando me deparo, no entanto, com obras muito diferentes, busco nelas encontrar um ponto comum; a capacidade de comunicar-se com um outro ao contar uma história – a habilidade de fazer existências diferentes se aproximarem na mesma experiência, que perpassa pela capacidade que têm apenas os grandes artistas de tanger o sublime ao desenrolar suas obras. E há duas destas que nos últimos tempos chamaram-me a atenção pela sensibilidade em que falam sobre a experiência humana. Um filme e um livro. Por possuírem a bonita capacidade de aproximar-se do que é mais humano nas histórias que pretendem contar, elas tocam-se também em outro ponto: a construção da memória através do imaginário.
Nostalgia da Luz é um documentário chileno do cineasta Patricio Guzmán. Em resumo, trata-se de um olhar sobre um episódio penoso na história do Chile, a Ditadura Militar que teve lugar entre as décadas de 1970 e 1990. Na paisagem dura do deserto de Atacama, duas histórias se entrelaçam – a dos sobreviventes do regime do General Pinochet, e a dos astrônomos que têm como base o observatório espacial ALMA. Assim, o diretor traça um paralelo entre os que buscam a memória na terra, e os que buscam o possível futuro no cosmos, e o faz a partir de um símbolo: a luz. Na terra, que ilumina a história, no céu, que busca explicações do passado e previsões para o futuro.
Nostalgia da Luz é um filme sobre a distância entre o céu e a terra, entre a luz do cosmos e os seres humanos e as misteriosas idas e voltas que se criam entre eles. No Chile, a três mil metros de altura, os astrônomos vindos de todo o mundo se reúnem no Deserto do Atacama para observar as estrelas. Aqui, a transparência do céu permite ver até os confins do universo. Abaixo, a secura do solo preserva os restos humanos intactos para sempre: múmias, exploradores, aventureiros, indígenas, mineradores e ossos dos prisioneiros políticos da ditadura. Enquanto os astrônomos buscam a vida extraterrestre, um grupo de mulheres remove as pedras: buscam a seus familiares.



Cidades invisíveis, do italiano Italo Calvino, é uma obra literária que parte de uma alegoria. Apresenta-se como um relato de viagens que o explorador Marco Polo faz a Kublai Kan, Imperador dos Tártaros, onde Polo descreve ao Grão Kan cidades impossíveis, a partir de conceitos do imaginário humano – a morte, o desejo, a memória, o céu, o nome, o obscuro, os sinais. Nele, a cidade deixa de ser um espaço geográfico e torna-se uma inesgotável representação de símbolos derivados da experiência humana.
As duas obras, de formas muito diferentes, falam sobre memória, e do que nos move a buscar, em outras terras ou outros tempos, a nossa própria – coletiva ou não.
… – Sire, já te falei de todas as cidades que conheço.
– Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça.
– Veneza – Disse o Kan.
Marco sorriu. – E de qual julgavas que eu te falava?
O Imperador nem pestanejou – Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: – Sempre que descrevo uma cidade, digo qualquer coisa de Veneza.
– Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te pergunto por Veneza.
– Para distinguir as qualidades das outras, tenho que partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza.
(Calvino p. 98)
Imaginário e memória são conceitos que se perpassam na experiência humana, ambos imbricados na subjetividade, partem de pressupostos mais simbólicos que concretos. Simbióticos, um não existe um sem o outro. Nosso imaginário não existiria sem memória, esta, seria vazia sem ele. E por ser resultado de um constante processo de reelaboração simbólica, a memória é viva. Em Guzmán, ela está no deserto que guarda lembranças da humanidade, em Calvino, nas cidades que são metáforas de aspectos da nossa existência. Calvino fala de imaginário através de símbolos, Guzmán, de história.
Obras simples, que dizem muito sobre o mais belo e o mais cruel da criação humana, Nostalgia da Luz e Cidades Invisíveis desenham-se como espelhos, refletindo a complexidade do nosso imaginário e da nossa curta existência através dos significados que atribuímos às nossas memórias.
Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara
(Trabalho para a disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, 2018)
Lição de moral
O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.
De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:
“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.
Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…
Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.
Pavor eterno
Ao escrever o artigo Não me esqueças, ocorreram-me dois anúncios portugueses que abordam, também, a doença de Alzheimer: First Date, da Alzheimer Portugal e Alzheimer, do Instituto de Apoio à Criança. Este último segue uma fórmula conhecida: embarca-se num rio, a doença de Alzheimer, e desagua-se noutro estuário, os maus tratos a crianças. Comparado com o anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, o anúncio do Instituto de Apoio à Criança apresenta-se mais cerebral: reforça a razão em detrimento do coração, perdendo alguma imersão e emoção. Mas o conceito é brilhante: a dor e o medo, decorrentes dos maus tratos sofridos na infância, são eternos. Nem uma doença como a de Alzheimer consegue apagá-los da memória!
O anúncio do Instituto de Apoio à Criança corre um risco. Cruza imagens de dois sofrimentos: a doença de Alzheimer e os maus tratos às crianças. Não é, porém, líquido que duas imagens, ou duas emoções, se somem. Podem potenciar-se, adicionar-se, reduzir-se ou anular-se. Em criança, um livro dedicado às técnicas de judo ensinava que, durante a queda, importava bater com o braço no chão, gerando, assim, duas fontes de dor que se atrofiam mutuamente, numa espécie de engarrafamento neuronal. Por último, quando se juntam duas imagens, arrisca-se um eclipse: uma imagem pode sobrepor-se à outra.
Anunciante: Instituto de Apoio à Criança. Título: Alzheimer. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direcção: Carlos Manga Jr. Portugal, 2006.
Não me esqueças!
Não há duas sem três! Mais um anúncio do tailandês Thanonchai Sornsriwichai, dedicado aos doentes com Alzheimer. A doença de Alzheimer consta entre as mais preocupantes da actualidade. Associada à idade, a sua incidência acentua-se com o prolongamento da esperança de vida e o envelhecimento das sociedades. Comporta custos pessoais e sociais elevados.
O anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, é longo (3 minutos), mas não é lento. Sucedem-se os detalhes e os pormenores. Repetem-se as rotinas compassadas por sinais de esquecimento; permanece, contudo, a humanidade. O olhar oscila entre a paciente e o cuidador, no passado e no presente. Sofrem ambos com a doença. O vídeo acaba como começa: o cuidador, marido, calça a doente, esposa. A música, mais do que acompanhar, faz parte do anúncio. Com ou sem um passo de dança, a “dança da vida”.
Quando for grande, quero fazer vídeos como este: sem maneirismos nem pieguices, e com um elenco minimalista.
Marca: Thai Life Insurance. Título: Forget Me Not. Produção: Phenomena Company Limited. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai . Tailândia, 2012.
A máscara da vida: As fotografias post mortem

Post mortem 01.
“É impossível conhecer o homem sem lhe estudar a morte, porque, talvez mais do que na vida, é na morte que o homem se revela (…) É nas suas atitudes e crenças perante a morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental” (Morin, Edgar, L’Homme et la Mort, Paris, Seuil, 1951). Com ou sem filtros, a morte é o nosso espelho; e as sociedades caracterizam-se pelo modo como tratam os seus mortos.
A relação com a morte altera-se com a passagem do tempo. Na Idade Média, a morte era omnipresente. Agonizava-se e trespassava-se em companhia, nomeadamente, dos familiares e dos vizinhos. Assistiam à agonia e à morte tanto os adultos como as crianças.

Post mortem 3.
Hoje, afastamos o cadáver, bem como o moribundo. Morre-se cada vez mais em hospitais, atendido por profissionais de saúde, numa agonia solitária. Existem cerimónias fúnebres em que o corpo do defunto sai quase directamente do hospital para o cemitério, com escala na igreja. Em breve, não se morre, desaparece-se! Entre dissimulações, eufemismos e recalcamentos, “tudo se passa na cidade como se ninguém morresse” (Ariès, Philippe, 2000, O homem perante a morte, Lisboa, Publicações Europa-América). O luto é abreviado e a expressão pública do sofrimento contida. A consequência não se faz esperar: deixamos de estar preparados para a morte. A nossa morte e a morte alheia. Os enfermeiros queixam-se desta impreparação, de ter que acudir a todos, moribundos e familiares.
O modo como se encara a morte condiciona a qualidade dos últimos momentos de vida (Rodrigues, Welberg Menezes, Do outro lado da Morte, entre o Medo e a Esperança: Narrativas Biográficas de pessoas em fim de vida. Mestrado em Sociologia, Universidade do Minho, 2016). O exílio da morte comporta custos individuais e colectivos por avaliar. O exorcismo da morte alimenta fantasmas que, embora não se manifestem aos sentidos, estão activos. Povoam as catacumbas do nosso desconforto ontológico.
No livro A Solidão dos Moribundos (1972), Norbert Elias sugere que a transformação da nossa relação com a morte condiz com as tendências seculares do processo civilizacional do Ocidente: contenção da violência e da agressividade, resguardo da sexualidade, aumento da esfera da intimidade, estilização da alimentação, apuramento da higiene… Estas tendências prosseguem, nos nossos dias com processos tão banais como o combate à transpiração, aos odores corporais, aos pelos e às rugas. Removemos cheiros, excessos e rugas; escondemos os moribundos e os mortos; damos caça ao animal que subsiste em nós, mas, para nosso infortúnio, ainda não logramos eliminar a morte. Esta é a nossa tragédia.
Para além da impreparação para a morte, também estamos a ficar mal preparados para o nascimento, para a reprodução. Estamos, em suma, mal preparados para o essencial. Em contrapartida, sentimo-nos à vontade no lazer, no turismo, no desporto, no consumo, na moda, no egoísmo, na comunicação, na arte e na cultura.
As fotografias post mortem testemunham esta mudança, em menos de um século, da atitude perante a morte. Hoje, suscitam estranheza e comoção. Na viragem do século XIX para o século XX, eram correntes. Em muitos casos, o falecido está depositado na urna (fotografias 1 e 2). As fotografias valem, sobretudo, como memória. São, também, partilhadas com o objetivo de comunicar e certificar o óbito. Noutros casos, as fotografias são alvo de cuidadosa encenação: o morto aparece de pé; com objetos de estimação; com animais domésticos; com familiares… Os mortos vestem a máscara da vida.
Impunha-se retratá-los com se estivessem vivos. Os dispositivos mecânicos ajudavam a fixá-los na posição desejada (fotografias 08, 09, 11 e 12). Recorre-se a cosméticos para “dar vida” ao rosto e, quando se proporciona, pintam-se as pupilas nas pálpebras (fotografias 04, 08 e 10). Curiosamente, a técnica fotográfica contribui para uma maior nitidez dos corpos dos mortos. Durante o período de exposição à objectiva, os vivos, ao contrário dos mortos, movimentam-se, resultando mais baços e com os contornos menos definidos (ver fotografias 07, 08, 13 e 14).
Nas fotografias post mortem, predominam as crianças. Por um lado, era frequente não haver nenhuma fotografia da criança falecida. Era a única e derradeira ocasião. Por outro lado, morriam muitas crianças. Na segunda metade do século XIX, a mortalidade infantil é elevada: em França, ronda os 200 por mil (em termos percentuais, cerca de sessenta vezes mais do que o valor atual: 3,3 por mil, em 2014). O risco de morte entre um e cinco anos de idade aproxima-se dos 100 por mil. A esperança de vida ronda os 40 anos nos homens e os 45 anos nas mulheres (Meslé, France & Vallin, Jacques, Reconstitution de tables annuelles de mortalité pour la France au XIXe siècle, Population, Année 1989, Volume 44 Numéro 6 pp. 1121-1158).

Post Mortem 10.
A fronteira entre a vida e a morte é complexa. Se as fotografias post mortem surgem como crepusculares, trata-se de um crepúsculo ambíguo: a sombra tem luz. A despedida reanima o falecido. Torna-se, por vezes, um desafio discernir, nas fotografias, os vivos dos mortos. Alguns cadáveres esperaram oito dias pela fotografia: o limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos é frágil e versátil.
As fotografias post mortem incluem vivos e mortos. Algumas contemplam retratos de pessoas ausentes, provavelmente familiares desaparecidos. São retratos com retratos (Figura 13).
“Tirar fotografias aos vivos segurando o retrato dos mortos era também uma prática comum no final do séc. XIX (…) Nestes retratos de retratos, assinalava-se a presença virtual de um familiar, que estava fisicamente ausente, remetendo-nos para a força rememorativa e a eficácia fantasmática da fotografia: a existência fotográfica permitia reunir numa só prova fotográfica os mortos e os vivos” (Correia, M. L. (2016). No negativo: morte e fotografia. In M. L. Martins; M. L. Correia; P. Bernardo Vaz & Elton Antunes (eds.), Figurações da morte nos média e na cultura: entre o estranho e o familiar (pp. 207-226). Braga: CECS).

Post mortem 13.
Convocar numa fotografia, para além do morto, os vivos e outros mortos memoráveis significa desenhar uma comunidade de vivos e de mortos, noção que Carmelo Lison-Tolosana aplica às povoações (Antropología Cultural de Galicia (Madrid, Akal, 1971) e que, em tempos, associámos às casas (Gonçalves, Albertino & Nunes, João Arriscado (1986), “Casa, comunidade e espaço institucional”, Minho: terras e gente, Cadernos do Noroeste, Universidade do Minho, pp. 100-112). Com as fotografias de antepassados nas salas e nos corredores, as casas configuravam simbolicamente, não vai muito tempo, comunidades de vivos e de mortos.
As fotografias post mortem constituem um exemplo de vida social do morto, de existência para além da morte. Apresentam-se também como um indício do que pode significar a noção de comunidade de vivos e de mortos. Ficção científica à parte, não podemos matar os mortos, quando muito esquecê-los.
Lembrar faz bem à memória
Na adolescência, quando estava a ler um livro e encontrava coisas que já sabia, ficava contente. Era sinal que já sabia. Hoje, quando leio um livro e encontro coisas que já sei, fico descontente. É sinal que não estou a aprender (Albertino Gonçalves).
A vaga terrorista actual parece sem precedentes. Mas tem precedentes. O artigo O ataque terrorista mais mortífero em Paris desde 1944, da RTP, de 07 de Janeiro de 2015, tem o condão de refrescar a memória no que respeita à França: Desde a Segunda Guerra Mundial, Paris nunca deixou de ser alvo de atentados mortíferos por parte de grupos terroristas nacionais e internacionais. Residi em Paris nos anos setenta. Uma cidade sob ameaça terrorista. Os alertas e as evacuações eram constantes.

Otto Dix. Ferido de Guerra. 1922.
Nos anos setenta, vários países debateram-se com a actividade de grupos terroristas internos: o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, país palco do massacre de Munique de 1972; a ETA na Espanha (mais de mil pessoas mortas); as Brigate Rosse na Itália (recorde-se o assassinato de Aldo Moro) e o IRA no Reino Unido (acima de 3 500 mortes). Em Portugal, houve vítimas, não sei se houve autores. É verdade que, hoje, temos estados terroristas, mas nos anos setenta existiam estados que apoiavam declaradamente o terrorismo, por exemplo, a Líbia. Recorrendo a um pleonasmo, o terrorismo é aterrador e alcançou uma dimensão inédita. Mas não nasceu ontem. Com a História, nunca estamos sós. Nestes tempos orgulhosamente únicos, um pouco de História é um consolo.
Alguns autores marxistas, tais como Lukacs, Goldmann, Gabel ou Kosik, criticam a atrofia da consciência histórica. A falta de horizontes históricos conduz, segundo eles, a uma espacialização do pensamento, a uma reificação. Em termos mais simples, a um empobrecimento do espírito e da realidade.
Modern Monsters, da Amnesty International, é um excelente anúncio português, premiado no estrangeiro. Normalmente, o texto vem a propósito do vídeo. Neste artigo, o vídeo e as imagens colam-se, tenebrosas, ao texto. Nada condiz com nada. É uma extravagância.
Anunciante: Amnesty International. Título: Modern Monsters. Agência: W Portugal. Portugal, 2007.
Vibrações
Henry Purcell. Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione.

Henry Purcell (1659-1695).
Que lembra esta música? Um trailer do Assassin’s Creed? O filme A Laranja Mecânica? A canção Iron, do Woodkid? A “Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione”, de Henry Purcell, é um expoente da música barroca. Permanece viva. A pergunta está mal formulada. Purcell não lembra Woodkid ou A Laranja Mecânica. Woodkid é que pode lembrar Purcell. Não são semelhantes, mas nada impede duas diferenças de se lembrar uma à outra. Devia ter invertido as posições: perguntar o que é que o Iron do Woodkid lembra? Talvez ocorra a alguém Henry Purcell e a Musica Per il Funerale Della Regina Maria.
Assim gira o mundo! Acanhado. De tão “comprimido”, o tempo parece anorexo. Encolhe-se no presente sem grande sobra para o passado. Qual é o lugar da memória? A memória comemora-se. No e para o presente, com ou sem funeral. Mais ou menos como um fato domingueiro pendurado num armário.
Woodkid. Iron. 2013.















