Inicia no dia 28 de julho, até 3 de agosto, a 11ª edição do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, uma iniciativa a vários títulos única e notável. Acerca do programa deste ano, João Martinho publicou no jornal Voz de Melgaço uma apresentação ao mesmo tempo atenta e concisa: “MDOC 2025: Novos olhares e reflexões sobre o território regressam de 28 de julho a 3 de agosto”.

O emigrante e a nota de Santo António
As “fotografias faladas” inserem-se no projeto “Quem somos os que aqui estamos?” do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Este projeto visa explorar o espaço geográfico e a sociedade local, dedicando-se em 2024 à freguesia de Alvaredo. Inclui atividades como o registo audiovisual de “fotografias faladas”, a recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares dos habitantes, uma exposição fotográfica na freguesia e a publicação de um trabalho sobre o projeto. A coordenação está a cargo de Álvaro Domingues e Daniel Maciel, com orientação científica de Albertino Gonçalves. (ChatGPT, consultado em 19-02-2025 às 12:40).
Existem objetos que cristalizam e expressam vidas. É o caso, nesta “fotografia falada”, de uma nota de 20 escudos com a figura de Santo António quardada preciosamente, senão religiosamente, por um emigrante desde o momento da partida para França em 1973 até à atualidade.
Fotografia Falada é um projeto de salvaguarda da memória e do património imaterial. Consiste no registo vídeo de um depoimento e tem como ponto de partida uma fotografia comentada pela pessoa nela retratada. Pede-se que comente a fotografia e fale da época e do contexto familiar e socioeconómico em que foi tirada (LUGAR DO REAL. Fotografia Falada).
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem seguinte.

Festa das Varas do Fumeiro e Procissão das Chouriças
Melgaço é terra de alvarinho, mas também de fumeiro. Os seus presuntos e enchidos destacam-se entre os mais reputados do País desde há muitos séculos. A Festa das Varas do Fumeiro, em Aranhas (Penamacor), e a Procissão das Chouriças, em Valado dos Frades (Nazaré), oferecem-se como tradições inspiradoras.
Carregar nas imagens seguintes para ver os respetivos vídeos.


Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo

“Noite escura, densa, calada. Premonições. Memórias deste e de outro mundo. No Ribeiro de Baixo o nosso dia-a-dia cruza-se com histórias e sinais que vão além do Minho pitoresco. Olha-se atentamente o monte galego do outro lado do rio. Essa fronteira, através da qual todos observam por binóculos, é atravessada entre a vida e a morte. O que procuramos? O lobo que caça? O caminhante solitário? Luzes de estântegas? Que atenção damos a um futuro hesitante? Esperamos, desaparecemos” (Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo. Lugar do Real. AO NORTE – Plano Frontal).
O lugar do Ribeiro de Baixo, com uma história e identidade próprias, situa-se nos confins de Castro Laboreiro. A uma dúzia de quilómetros da sede da freguesia, resultava, há pouco mais de cinquenta anos, deveras complicado lá chegar.
O documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo, de 2024, com uma duração de 19 minutos, foi realizado por Nuno Mendonça, Rodrigo Queirós e Vitor Covelo e produzido pela associação AO NORTE, durante a residência cinematográfica Plano Frontal, no âmbito no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço.
“A residência cinematográfica Plano Frontal ocorre no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço em simultâneo com a residência de fotografia. O objetivo deste projeto é contribuir para um arquivo audiovisual sobre o património imaterial de Melgaço, dotar o Espaço Memória e Fronteira de obras audiovisuais e fotográficas que retratem a história da região, promover o filme documentário e o aparecimento de novas equipas técnicas e artísticas.
Quatro equipas formadas por quatro jovens realizadores, quatro operadores de som e quatro operadores de câmara, realizarão, durante uma semana, quatro documentários sobre temas locais que lhes serão propostos. Cada equipa trabalha na montagem do seu filme após o fim da residência. Plano Frontal tem como destinatários os alunos em final de curso que frequentem Escolas do Ensino Superior de Cinema e de Audiovisuais, ou que tenham concluído recentemente a sua formação e é orientado pelo realizador Pedro Sena Nunes” (Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo. Lugar do Real. AO NORTE – Plano Frontal).
Sobre a vocação, organização, enquadramento, história, relação com o território e atividades do MDOC- Festival Internacional de Documentário de Melgaço, anexo o pdf do artigo “MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço”, publicado no Boletim Cultural nº 11, de 2024, editado pela Câmara Municipal de Melgaço. A autora, Clara Vasconcelos, tem acompanhado, desde a criação, esta iniciativa, promovida, em boa hora, pelo Município de Melgaço e pela Associação AO NORTE.
Para aceder ao vídeo com o documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo, carregar na imagem acima.
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Três fotografias de Castro Laboreiro.



Notícia sobre a apresentação do Boletim Cultural no jornal Voz de Melgaço
O jornal Voz de Melgaço dedicou uma extensa notícia à recente publicação do Boletim Cultural (nº 11), editado pela autarquia, com fotografias e excertos da apresentação. Para aceder ao respetivo artigo, carregar na imagem seguinte.

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Com a infância sentada ao lado
Ontem fui a Melgaço, terra a que dedico boa parte da atividade. Noutras, tamanha é a aura, tantos os faróis e os holofotes, que uma pessoa acaba por se sentir demasiado acanhada, como uma vela de aniversário que, esguia e efémera, dá mais trabalho a acender do que luz uma vez acesa.
Regressei com a infância sentada ao lado e com vontade de ouvir música de outros tempos.
Existem profetas e mártires contemporâneos. Por exemplo, John Lennon. Mais ao jeito do Novo Testamento, distingue-se pelo apelo à paz e ao amor.
Não matamos ninguém!

Ontem, apresentei o nº 11 do Boletim Cultural de Melgaço, revista editada pela Câmara Municipal desde 2002. “Publicação que reflete a história e cultura do concelho (…) inclui artigos e estudos dedicados à história local, tradições, património e à identidade cultural de Melgaço, reafirmando o compromisso do município com a preservação e valorização das suas raízes”. Não me canso de falar na minha terra. Um destes dias, mandam-me pastar para o planalto.

Estas fotografias testemunham o evento. Na primeira, estou tal e qual. Na segunda, deveras favorecido. Lembra o título de uma obra quadragenária: O Presente Ausente. O emigrante na sociedade de origem.

Partilho o último artigo da revista “Não Matamos Ninguém. Os Espinhos da Emigração”, transcrição de uma entrevista filmada a Gilberto António Cardoso, em 2007, por altura da criação do Espaço Memória e Fronteira
Mas, primeiro, uma escapada rumo ao prazer. Gosto da canção “The Silence”, dos Manchester Orchestra. E esta interpretação é formidável. Meu Deus, como é bom gostar! Tanto que deve ser pecado…
Segue, em pdf, o artigo de Albertino Gonçalves: Não Matamos Ninguém. Os Espinhos da Emigração – Entrevista a Gilberto António Cardoso. Boletim Cultural nº 11 / 2024. Câmara Municipal de Melgaço, pp. 251-272. Nota: coloco uma versão correspondente a uma prova; a edição definitiva, mais comprimida, tem menos uma página (pp. 251-271).
Banda filarmónica em hotel do Peso

Ao Valter Alves
Hoje, domingo, deu-me para arrumar um disco duro. Abri uma pasta cujo nome não me permitia adivinhar o conteúdo. Surpreenderam-me várias imagens das Termas do Peso, provenientes do Arquivo Municipal de Paredes de Coura, cujo conhecimento me foi proporcionado, há bastante tempo, por uma amiga, a Fátima Cabodeira. Retenho, em particular, duas fotografias antigas com uma banda filarmónica, durante a monarquia, a julgar pelas bandeiras, num dos hotéis, creio que o Novo Hotel Quinta do Pezo (Figueiroa), da autoria do fotógrafo Adolfo Gonzalez, de Entrimo. Talvez o Válter Alves queira acrescentar mais informação.


A Semente e o Caroço

Sexta 18, desloquei-me a Melgaço para os Serões dos Medos. Parti de Braga com o receio de um decréscimo da afluência e da participação do público. O tema, possessões e bruxarias, parecia apontar nesse sentido.
Os acompanhamentos noturnos, em 2022, e os prenúncios de morte, em 2023, remetiam para fenómenos e protagonistas do Além, sobretudo do mundo dos mortos. Os vivos eram meras testemunhas, quando muito vítimas, nos casos raros de acompanhamentos mais “agressivos”. As possessões e as bruxarias podem comportar uma marca surreal, mas pertencem a este mundo, o dos vivos. São agenciadas e experienciadas “aquém” por “nós”. Acontece com os exorcismos, os esconjuros, as bruxarias e os feitiços. Mobilizamo-nos para combater o mal presente, os espíritos e os sortilégios. Acredita-se, recorre-se e (per)segue-se. Benzemos, salgamos e queimamos. Experiências pessoais dramáticas e íntimas, que exigem reserva e segredo. A própria palavra faz parte do fenómeno. Não admira que se observe uma propensão para o silêncio, para ocultar estes fenómenos e experiências.
Serões dos Medos 2024. Exposição de cartazes e imagens de filmes




O receio da falta de público depressa se dissipou. O número de pré-inscrições depressa superou as expectativas mais optimistas. Voltou a ser necessário alterar os planos. Tínhamos previsto um espaço a condizer com a afluência do ano anterior. Decorado a preceito, incluía uma “instalação” e uma exposição de cartazes e imagens de filmes emblemáticos provenientes do Museu do Cinema. Tivemos, porém, que prescindir dessa solução. Impunha-se o recurso ao auditório.
Mal acabou a intervenção introdutória do Luís Cunha, o público não se fez rogado; a eventualidade de uma retração suplementar desvaneceu-se. O ambiente de confiança e partilha, com empatia e respeito, depressa se aproximou do nível dos encontros precedentes. Interessadas e envolvidas, as pessoas sentiram-se suficientemente à vontade para intervir e se abrir. E, embora o tema fosse mais delicado, não faltaram testemunhos na primeira pessoa. Sucederam-se momentos mental e emocionalmente únicos e densos cuja dinâmica rondou, por vezes, a terapia social.
A conversa terminou perto da meia noite. Duas horas e meia bem passadas que não esgotaram a matéria, nem o interesse ou a disponibilidade para continuar o diálogo. Os derradeiros momentos não representaram um fecho ou uma conclusão, mas antes abertura e, de algum modo, antecipação. Surpreenderam-se casos suscetíveis de inspirar e animar a próxima edição, esboçando novos mapas, caminhos e companhias. Ficou a porta aberta!
Serões dos Medos 2024. Auditório




Saio sempre destas moderações com a impressão desconfortável de que, por vezes, teria ganho em falar menos. Calado, os outros teriam desfrutado de mais tempo e oportunidade para intervir. Iludo-me, contudo, com algumas dúvidas acerca desta mecânica da comunicação. As ideias e a respetiva circulação não obedecem ao princípio dos vasos comunicantes nem relevam da geração espontânea. Carecem de motivação e orientação. Importa, por exemplo, complementar uma dada intervenção, para a reconhecer e valorizar; sugerir tópicos, para sondar e estimular novos contributos; matizar, para evitar desequilíbrios, por exemplo, nem só ciência, nem só crença. Pode ainda resultar útil introduzir quebras de pausa e descontração, para restauro e relançamento. Certo é que não ocorreram vazios a preencher ou disfarçar. A palavra nem sempre é excesso e ainda menos desperdício. Como diria John Langshaw Austin, as palavras ajudam a fazer, a acontecer.
De qualquer modo, o incómodo desta autocrítica acaba por ser um bom sinal. Sinal da qualidade e da potencialidade do protagonismo da assistência. O que é deveras importante. O sucesso dos Serões dos Medos deve-se principalmente à adesão e ao desempenho do público. Acresce um bom augúrio: a presença de jovens é cada vez mais expressiva.
É um desafio aliciante e um prazer imenso trabalhar com a equipa responsável pelos Serões dos Medos. Precisamente a mesma do Cortejo Histórico, de há dois meses, e do Boletim Cultural, que, já impresso, aguarda o lançamento.
Após quarenta anos de academismos, sabe bem trabalhar assim, a criar, plantar e regar sementes em vez de engolir caroços. A colaboração com o Município de Melgaço tem praticamente a mesma antiguidade. O que é obra, atendendo ao meu instinto de borboleta e à diversidade de jardins de tentação.
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Acontece não me inclinar para nenhum tipo de música em particular. Clássica, pop, rock, blues ou jazz, vocal ou instrumental, rimada ou melodiosa, tanto faz! Tiro à sorte das prateleiras dos CDs. Seja qual for o eleito, pelo menos gostei dele quando o adquiri. Calhou uma coletânea de baladas do duo sueco Roxette. À vocalista, Marie Fredriksson, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 2002. Faleceu em 2019 com 61 anos de idade. Seguem quatro hits: A Thing About You; It Must Have Been Love; Listen To Your Heart; e Queen Of Rain. Escrevi o presente texto a escutar estas canções. Não condiz a letra com a caneta. Ditosa incongruência!
Os Serões dos Medos. Noite dos Medos Melgaço 2024

Avec son air très naturel, le surnaturel nous entoure / Com o seu ar muito natural, o sobrenatural rodeia-nos (Jules Supervielle. Le Jeune Homme du Dimanche. 1952)

Os serões dos medos dos últimos anos foram fantásticos, inesquecíveis. Graças à afluência e participação do público que os animou e enriqueceu com os seus conhecimentos e testemunhos pessoais. Depois de “Coisas do outro mundo”, em 2022, e “Prenúncios de Morte”, em 2023, o tema deste ano, “Possessões & bruxarias”, também promete. A conversa terá início às 21 horas do dia 18 de outubro na Casa da Cultura. Acresce o valor e o prazer da companhia do colega e amigo Luís Cunha.
Em Coisas do Outro Mundo. 2022
Segue, em pdf, o programa da Noite dos Medos 2024, acompanhado por duas interpretações da canção Ronda das Mafarricas: a original do José Afonso e a versão dos Moura, da Corunha.
