Vai uma aula? Versão alargada do vídeo Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo

À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
E valentes remadores! …
À barca, à barca segura,
Barca bem guarnecida,
À barca, à barca da vida!
(Gil Vicente)
Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo é o meu vídeo mais extenso e, porventura, predileto. Também é aquele a que mais me entreguei. Cristaliza anos de estudo e investigação. Não está perfeito, mas dou por encerrado o capítulo. Cada novo retoque implica horas de renderização. Esta versão aumentada inclui, no início, a curta-metragem Destino, idealizada por Salvador Dalí e Walt Disney, e, no fim, a apresentação Maniera: A Arte do Artista, entretanto produzida. Trata-se da minha rosa mais recente. Com pétalas, folhas e espinhos. Não é uma mercadoria mas possui o seu valor, e está ao alcance de todos e de ninguém em particular.
Incorporei este vídeo com a qualidade que o WordPress permitiu. Parece-me mais conseguida a visualização disponível no seguinte link da Clipchamp: https://clipchamp.com/watch/DmbfFtHuPz8. A versão reduzida, apenas com a conversa e respetivas apresentações, está acessível em HD no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=1LM9SLzHzIA&t=18s.
Antepassados do surrealismo: o maneirismo (vídeo da conversa)
Após quatro meses de esforços e contratempos, o vídeo com a conversa Os antepassados do surrealismo: os maneiristas está disponível na Internet. Exigiu tanta dedicação que se tornou numa das minhas rosas. Não ouso convidar a assistir às quase duas horas. Quando muito, um breve relance, de preferência a uma das seis apresentações incorporadas. Sei que todos andam ocupados a cuidar de outros jardins.
O vídeo ganha em ser visualizado em alta resolução (1980p).
A universidade sofreu uma viragem no crepúsculo do segundo milénio. Os novos modos e as novas metas dos circuitos académicos não condizem nem com a minha formação nem com a minha vocação. Entre outros aspetos, incomoda-me ter que pedir, senão pagar, a estranhos para publicar. Nesses termos, perdi o interesse em publicar. Continuei a escrever mas relatórios de investigação/ação ou por convite, sem esquecer os apontamentos no blogue Tendências do Imaginário, um monstro híbrido de cultura e lazer, criado em 2011.
Não deixei, contudo, de investigar. Pelo contrário. Gosto de comunicar e ensinar, mas prefiro descobrir e aprender. A vida é um bom mestre. Ensinou-me, entretanto, que sou mortal. Tomei consciência de que boa parte dos conhecimentos que fui amealhando, dispersos em discos digitais, arriscam desparecer comigo. Pequeno ou grande, trata-se de um desperdício.
Capacitei-me da responsabilidade de cuidar da partilha. Optei, quase exclusivamente, por duas vias (alternativas aos blogues Tendências do Imaginário e Margens): a publicação de livros e a comunicação oral. Os livros são obras de Santa Engrácia. As comunicações costumo não as repetir, nem sequer as apresentações de livros. Em suma, grande vontade mas parcos os meios: para cada assunto, uma única comunicação, num dado local e data, perante um público reduzido. A passagem de testemunho reduz-se, portanto, a um momento pouco participado.
Posso não aderir a todas as mudanças, mas não me estimo retrógrado. Procuro aproveitar as novas tecnologias, designadamente, de informação e comunicação, que proporcionam um arremedo de solução para o afunilamento da partilha: filmar as conversas e disponibilizá-las na Internet. Assim sucedeu com as conversas O Olhar de Deus na Cruz: o Cristo Estrábico (29-11-2022) e Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte (18-02-2023), embora com insuficiente qualidade. Com um pouco mais de profissionalismo, resultou mais cuidado o registo desta última conversa.
Músicas surrealizadas 04
Pearl Jam: Life Wasted

A trovoada e a moleza prestam-se a um vídeo musical com fundo de pesadelo a lembrar uma “noite sem fim” abalada por um cortejo frenético de monstruosidades pouco recomendáveis a almas sensíveis. Algo duro, very hard, assim como Life Wasted, dos Pearl Jam, condimentado por meia dúzia de quadros do Max Ernst.
Imagem: Max Ernst. Noite sem fim. 1940





Músicas surrealizadas 03
Björk: Tabula Rasa, Mutual Core e Body Memory


Björk recorre com frequência a vídeos surreais que se destacam pela diversidade e pelo apuro técnico e estético. Entre os mais marcantes consta All is Full of Love, realizado por Chris Cunningham em 1999. Seguem três vídeos relativamente recentes, os dois primeiros com imagens digitais e o terceiro a partir de um espetáculo ao vivo. Todos apostam no efeito de disformidade.
Estou a chamar as minhas cabras

Volvidos quarenta anos, reencontrei uma amiga graças ao Tendências do Imaginário e ao Facebook. Publicou livros de poesia. Retenho o poema “Estou a chamar as minhas cabras”, humano e cósmico, um apelo e uma voz das raízes num imaginário que lembra Castro Laboreiro.
estou a chamar as minhas cabras
o dia fecha-se
um canto de pássaro já levanta as sombras
a cancela rangepesa-me o silêncio
por isso chamo as minhas cabrasos aloendros trazem -me aquele aroma
veio a coruja
e os lamentos a açoitar o ventovou chamar as minhas cabras
conto os grãos aligeiro os medos
levo-te na minha cesta
envolto no pão com passas
para oferecer àquele penedosão as águias que já lá vêm
e as colinas tombam
é tudo um segredochamarei as minhas cabras
quando a noite cantar
e trouxer consigo a lenda
dos lobos brandos e montanheirosfoge-me a voz
alongo o ouvido em quebrantoiria chamar as minhas cabras
na ventania errantee a música alisando as fragas
as luas rodopiando
os silvos cortam o ar
chamandosão as minhas cabras
dançando
os montes sulcando à procura de mimfui chamada pelas minhas cabras
a noite abre-se
a memória do mundo ecoou no tempo
e o silêncio viveé uma flor
que chama pelas minhas cabras
elas me levaramno monte me deitarei
eu e as minhas cabras(Almerinda Van Der Giezen)
Galeria de imagens: Caprinos (carregar nas figuras para as destacar).









A cabra danada
Na minha mais terna infância, antes de casar as letras, o meu avô contava-me histórias, intervaladas por poemas. O principal protagonista era a cabra danada. Só o nome! Associa-se a cabra à sexualidade, à luxúria e à propensão para a troca de parceiro, daí, talvez, o termo cabrão (ver Pitt-Rivers, Julian A., 1954, The People of the Sierra, New York, Criterion Books). Por outro lado, a cabra é também associada à bruxaria (ver quadro de Francisco de Goya na figura 5). Por acréscimo, o adjectivo “danada” não deixa margem para dúvidas. Estamos confrontados com uma figura demoníaca.
Consoante a inspiração do meu avô, a cabra danada ora era encantadora ora era assustadora. Uma vez deitado, virava-me para a janela, à espera de ver passar a cabra danada. A curiosidade era maior do que o medo.
Nunca vi a cabra danada! Pelos vistos, aguardava que eu adormecesse para passar rente à janela. De manhã, ainda se lhe sentia o rasto. Não sei se tinha asas. Creio que não! O meu avô nunca fez menção a asas. As cabras do Marc Chagall, por exemplo, voam sem asas (Figura 3). Na minha imaginação, a cabra danada era parecida com as cabras de Marc Chagall (Figura 2), de Max Ernst (Figura 1) ou de Andy Warhol (Figura 4). Na minha terna infância, nunca vi uma cabra danada, mas que as há, há! E cabrões, também.
Surf motorizado
Misturar alhos com bugalhos em caldeirão grotesco e revolver com uma colher formista, eis a minha tentação, inspirada, por sinal, em Heinrich Wolfflin, Erwin Panofsky, Georg Simmel e Mikhail Bakhtin.

Max Ernst. Pleiades. 1920.
O binómio leveza/turbulência não se confina à arte (junto, mesmo assim, algumas obras de Max Ernst). Hoje, proponho um atalho pelo desporto. As modalidades desportivas de equilíbrio e deslize constam entre aquelas que mais cresceram nas últimas décadas: surf, asa delta, parapente, bodyboard, esqui, skate, patinagem. Destacam-se como as mais características do nosso tempo. Atente-se, por exemplo, no surf e na asa delta. São actividades de movimento, equilíbrio, destreza, leveza e deslize; o surf, na turbulência das ondas, a asa delta, na turbulência do ar. Pertencem, segundo Roger Caillois, à categoria Ilinx (busca da vertigem).
Nada como os anúncios a automóveis para ilustrar estes atributos. Fui ao arquivo desencantar duas relíquias: um anúncio do Opel Astra, que creio ser de 2006, e um anúncio da Citroen, de 2007. Carregar em HD.
Marca: Citroen C3. Título: Dolphins. Agência: Euro RSCG London. Direcção criativa: Justin Hooper. Reino Unido, 2007.
Leveza e turbulência: obras de Max Ernst.








