A lenda da massa carbonara

A duração conta. Muitas vezes, para saborear um alimento, uma ideia ou uma imagem convém dedicar-lhe tempo. Reserve o visionamento desta curta-metragem das massas Barilla para quando lhe puder conceder dez minutos de atenção. Já agora, se não conseguir, talvez seja a hora de reconsiderar o que é ser pobre neste mundo.
Origem da massa carbonara
Tal como a maior parte das receitas tradicionais, origem deste prato é incerta, existindo diversas lendas. Refere-se que possa ter sido criada na região italiana do Lazio, na Roma antiga, sendo uma possível evolução da pasta (massa) cacio (queijo de ovelha ou cabra) e ova (ovo).[8] Como o nome deriva da palavra italiana para carvão, alguns acreditam que tenha sido uma refeição suculenta para os carvoeiros na Itália (carbinai).[8] Outros dizem que antigamente era feita sobre grelhadores de carvão. Ainda outros sugerem que as manchas pretas de toucinho e pimenta se assemelham a pequenos pedaços de carvão, o que poderia explicar o nome. Também foi sugerido que poderia ter sido inventado pelos membros da Carbonária, uma sociedade secreta italiana.
O prato não era conhecido antes da Segunda Guerra Mundial, não estando presente no livro clássico da culinária italiana La Cucina Romana, da autoria de Ada Boni, datando de 1927. Pensa-se que terá tido origem em zonas montanhosas fora de Roma e não dentro da cidade, mais concretamente nos montes apeninos. A sua popularidade começou após a Segunda Guerra Mundial, quando muitos italianos comiam ovos e toucinho fornecidos por tropas norte-americanas. Também se tornou popular entre as tropas norte-americanas estacionadas na Itália. Quando regressaram a casa, tornaram a receita popular nos EUA.
Outras teorias apontam que o primeiro a dar-lhe um nome foi o escritor culinário napolitano Ippolito Cavalcanti, que publicou a receita pela primeira vez no ano de 1839, no seu livro Cucina teorico-pratica. Uma outra hipótese indica que o prato pode ter tido origem em Carbonia, uma povoação a oeste de Cagliari, fruto da criatividade de um cozinheiro talentoso, que acabaria por se mudar para Roma, à procura de trabalho. Diz-se que o prato teria tido tanto sucesso que o cozinheiro, talvez por timidez, lhe acabaria por dar o nome da sua terra, em vez do seu. (Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Carbonara, consultado em 12.09.2022)
Homo carnivorus

No artigo precedente, abordámos a situação do homo sapiens fumus. Num registo sério que não me assenta. Resultado: “a argumentação não é má, mas não convence”. Hoje é a vez do homo carnivorus, outra espécie em projeto de extinção. Os sábios do terceiro milénio entendem corrigir o atrevimento que, há cerca de 2,6 milhões de anos, tiveram os nossos antepassados: comer carne. Uma inovação complicada. Não havia talhos e os animais não se deixavam caçar. Por vezes, convinha fugir deles.
Desventuras do homo carnivorus, que a série de anúncios da Nissin, empresa japonesa fabricante de massas alimentícias, recorda.
Comprar o arco-íris

Say it with colour! Resulta mais bonito e mais tentador. Há anúncios que são autênticas explosões de cores. Por exemplo, o Balls e o Petals Volcano, da Sony Bravia (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). O anúncio Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2017/11/20/epico-de-massas/), é mais parecido com o anúncio do dia, o Color Flood, do iPhone XR da Apple. Nestes dois últimos anúncios, pessoas coloridas formam, como peças de um puzzle, massas dinâmicas. Ao Color Flood, acrescento um anúncio congénere da Sony Bravia: More Brilliance More Beauty. A publicidade consta entre as actividades mais coloridas do nosso tempo. Bom dia! Bom ano! A beleza vitaliza.
A cópia, a série e a ovelha negra
Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).
Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.
Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.
Keep yourself alive!

Joseph Beuys’ signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.
No anúncio The Chorus, da Heineken, pessoas distintas cantam, em diversos contextos, a mesma canção: Bohemian Rhapsody, dos Queen (A Night at the Opera; 1975). Partindo dos indivíduos desafinados desemboca-se num gigantesco coro empolgante. Em suma, a potência das massas. Duvida-se que a sintonia do colectivo seja espontânea. Duvida-se, também, da potência das massas. Duvida-se, até, do mito das massas. Quando era aluno de sociologia, por altura da Bohemian Rhapsody, estava na moda falar-se em sociedade de massas. Agora, está na moda falar-se em sociedades globais. Cada época tem os seus chavões. E chapéus para proteger a cabeça. Não impede que este anúncio esteja bem concebido e funcione.
Marca: Heineken. Título: Chorus. Agência: Publicis Milan. Direcção: Antoine Bardout-Jacquet. Itália, Maio 2016.
Admitindo que o Tendências do Imaginário é cada vez mais um albergue espanhol, acrescento uma das primeiras músicas dos Queen, Keep yourself alive, incluída no álbum de estreia da banda: Queen (1973).
Queen. Keep yourself alive. Queen. 1973. Ao vivo, 1975.

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York
Por falar em chapéus, nos anos 1970, tive o privilégio de trocar duas palavras com Joseph Beuys, um dos maiores artistas do século XX. Deram-nos, aos alunos de sociologia, a oportunidade de assistir à montagem das obras pelos próprios artistas no dia anterior à abertura da exposição, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Um dos trabalhos de Beuys incluía, precisamente, o (seu) chapéu.
A aparência partilhada
O anúncio Rule Yourself, da Under Armour, logra um belo efeito. Um número elevado de pessoas desenham padrões e coreografias. Nesta multiplicação humana, a emergência é ínfima. Se o todo é mais do que a soma das partes, neste caso pouco vai além da soma das partes. Em suma, estamos confrontados com massas humanas.
Existia um jogo infantil com rede e pins todos iguais mas de várias cores. O objectivo era construir figuras dispondo os pins coloridos ao longo da rede. Se os “preguinhos” são indispensáveis ao jogo, o artista é a criança. Com as figuras humanas, também existe “um grande arquitecto” que dispõe da(s) massa(s). Acodem-me as paradas da Coreia do Norte, os jogos olímpicos, o futebol, os desfiles militares e determinadas manifestações religiosas. Pela desfocagem, o participante é um quase nada, um ponto numa rede artificial. Promove-se uma replicação com trejeitos totalitários. No caso do anúncio, trata-se da multiplicação virtual do mesmo, uma clonagem, não tanto para a diluição do eu e mais para a sua cintilação, uma aparência partilhada numa ilusão galáctica.
Marca: Under Armour. Título: Rule Yourself. Agência: Droga 5. Direcção: Wally Pfister. USA, Agosto 2015.
Massa in Rock
A publicidade argentina é prodigiosa. Estreado esta noite, este anúncio empenha-se em mostrar que a massa vai bem com tudo, até com a música dos Deep Purple.
Marca: Matarazzo. Título: Rock the Pasta. Agência: Madre. Direção: Andres Salmoyraghi. Argentina, Agosto 2012.



