Menina e Moça e Anamorfose Ferroviária

“Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual fosse então a causa d’aquela minha levada,—era eu pequena,—não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para não poder viver em outra parte. Muito contente fui eu n’aquela terra; mas, coitada de mim, em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo tempo se buscava!” (Bernardim Ribeiro, Menina e Moça, 1554).
Recoloco dois artigos de 28 de julho. O primeiro, A epifania do soutien, de 2015, inclui o anúncio “O primeiro Valisere a gente nunca esquece”, de 1987. Multipremiado, Leão de Ouro no Festival de Cannes, consta do livro Os 100 Melhores Comerciais de Todos os Tempos, da jornalista americana Bernice Kanner.

Em abril de 1987, a marca VALISERE entraria para a história da publicidade brasileira através da campanha “O primeiro Valisere a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto e que mostrava o fascínio de uma adolescente, interpretada por Patrícia Lucchesi (então com 11 anos), ao usar seu primeiro sutiã e a sua timidez em ser notada como mulher. O comercial não apenas levantou a imagem da marca de lingerie, além de ganhar vários prêmios no Brasil e no exterior, como também se tornou um ícone da publicidade brasileira, cravando no imaginário popular a frase “O primeiro sutiã a gente não esquece”. O comercial (que pode ser assistido clicando aqui), criado para rejuvenescer a imagem da marca e atrair consumidoras adolescentes, figura, há três décadas, na lista dos filmes mais premiados e citados no meio publicitário e pelo grande público. Essa importância é ainda mais explícita ao fazer uma simples pesquisa no Google para perceber a força desse bordão. São nada menos que 17.500 mil citações distribuídas por sites sobre propaganda, reportagens, blogs, crônicas, chats de bate-papo e até mesmo artigos acadêmicos. Com o êxito da campanha, a marca aumentou gradativamente seus investimentos para comunicação e hoje destina milhões de reais para ações de marketing. (Mundo das Marcas: https://mundodasmarcas.blogspot.com/2006/06/valisre-para-mulheres-inesquecveis.html).
O segundo artigo, Vanitas: anamorfose na sanita do comboio, de 2012, contem o anúncio romeno “Train”, de 2011, com uma anamorfose insólita e grotesca que, esboçada na sanita de um comboio em marcha, prenuncia a morte perante os olhos assombrados do maquinista. A não perder!
Coco do mar. Anúncios para adultos

“Cascata erótica” (06.01.2015) foi o artigo mais consultado na semana passada (108 visualizações). Não o recordava. O anúncio “X” é uma enxurrada de “vagas de luxúria na pele do desejo”. O texto também é apelativo. Entretive-me a procurar outros anúncios da Coco de Mer. Encontrei vários remoinhos eróticos, todos iguais, todos diferentes. Y mui raros!
Imagem: Coco-de-mar
Recoloco o anúncio “X”, precedido do comentário que então escrevi. Acrescento quatro, com destaque para o espanhol “Tickles”.
Consta que o homem médio pensa em sexo cada seis minutos. Bom sinal, sinal que pensa. Esta obsessão percorre o anúncio X da Coco de Mer. Ao nível dos conteúdos, o peito é a parte do corpo que se destaca, seguindo-se as nádegas, as pernas e a boca, acompanhados por cascatas vertiginosas de símbolos sexuais. Tantos, que parecem esgotar os livros de Carl Jung e Gilbert Durand. Vislumbra-se um toque pavloviano neste anúncio: uma cavalgada de maçãs que fazem salivar o animal antes de o deixar trincar. A lingerie e os sex toys não são corpo mas fazem corpo. Pixel a pixel, desenham o limiar da interioridade. Vagas de luxúria na pele do desejo (Cascata erótica).



A felicidade dos seios

Os seios querem-se confortáveis e felizes. “Os homens que mostram demasiado a sua inteligência são como as mulheres que mostram demasiado os seus seios » (António Lobo Antunes, Lire, Novembro 1999). É verdade, os seios querem-se inteligentes e recatados. Não são como a face; entrevêem-se, apenas, em momentos de fortuna. Os seios não ganham em ser apalpados com os olhos, mas em ser desenhados pela imaginação. Um soutien, mais do que um suporte, é uma embalagem. Um bom soutien é uma felicidade para os seios. Assim o entendem as marcas de lingerie.
Introducing Womankind é um excelente anúncio da Berlei, uma marca particularmente reputada ao nível do underwear feminino desportivo.
Marca: Berlei. Título: Introducing womankind. Agência: The Monkeys. Direcção: Kim Gehrig. Austrália, Agosto 2017.
Fetichismo
Moledo presta-se à asneira. Sobra tempo. A asneira requer mais dedicação do que a conveniência.
Um grupo de alunos está a fazer um trabalho sobre a roupa interior na publicidade. Duvido que abordem o tema do fetichismo. O fetichismo sexual é abordado, desde Freud, pela psicanálise. O marxismo romântico também desenvolve, desde Georg Lukacs, um conceito próximo: a reificação. Em que consiste o fetichismo ou a reificação? Em sobrevalorizar a mediação face à entidade mediada, por exemplo, o soutien, ou o detalhe, por exemplo, o pé ou o cabelo, face ao todo que é o corpo. A lingerie é propícia a estes “desvios”.
Marca: Nearly Naked. Título: Hold Up. Agência: Parmer Jarvis DDB. Canadá 2000.
Marca: Agent provocateur. Título: La Vitrine. Agência: Bst/BDDP. Direcção: Eugene MC KING. Reino Unido, 1996.
A epifania do soutien
Vestir pela primeira vez um soutien é uma epifania, a passagem de menina a moça. É este o mote do anúncio “O primeiro Valisère a gente nunca esquece”. O anúncio, antigo, remonta a 1987. A banda sonora revela-se crucial: com o soutien, a música é outra. Uma valsa que a menina, agora moça, dança com o reflexo no espelho! Descobri este anúncio nos trabalhos práticos de Júlia e Vicente, ambos brasileiros, para a disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte. O anúncio é uma maravilha! De uma sensibilidade e de uma sensualidade nobres. Obrigado.
Marca: Valisere. Título: O primeiro Valisère a gente nunca esquece. Agência: W/Brasil. Direcção: Washignto Oliveto. Brasil, 1987.
Cascata erótica
Consta que o homem médio pensa em sexo cada seis minutos. Bom sinal, sinal que pensa. Esta obsessão percorre o anúncio X da Coco de Mer. Ao nível dos conteúdos, o peito é a parte do corpo que se destaca, seguindo-se as nádegas, as pernas e a boca, acompanhados por cascatas vertiginosas de símbolos sexuais. Tantos, que parecem esgotar os livros de Carl Jung e Gilbert Durand. Vislumbra-se um toque pavloviano neste anúncio: uma cavalgada de maçãs que fazem salivar o animal antes de o deixar trincar. A lingerie e os sex toys não são corpo mas fazem corpo. Pixel a pixel, desenham o limiar da interioridade. Vagas de luxúria na pele do desejo.
Marca: Coco de Mer. Título: X. Agência: TBWA London. Direcção: RANKIN. UK, Maio 2015.
Não há dois sem três
Na cultura indo-europeia, o número três goza de um estatuto especial (Emile Benveniste, Le Vocabulaire des Institutions Indo-européennes, Paris, Ed. de Minuit, 1969). Georg Simmel (The Sociology of Georg Simmel, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1950) releva, a propósito da composição quantitativa dos grupos, que quando se passa de uma díade para uma tríade ocorrem alterações decisivas. O que é impossível numa díade torna-se frequente numa tríade: a criação de coligações, ou seja, a disposição de dois contra um (Theodore Caplow, Two Against One: Coalitions in Triads, Englewood Cliffs, nj, Prentice-Hall, 1968). Esta fractura conflitual não é, porém, uma fatalidade. Existem trios com relações harmoniosas, ou seja, dois com um e um com dois. Esboçado este breve enquadramento teórico, podemos entregar-nos à observação empírica deste anúncio israelita da Delta Lingerie.
Marca: Delta Lingerie. Título: Mix&Relax. Agência: ACW Grey Tel Aviv. Direção: Ohav Flantz. Israel, Novembro 2013.
Seios ao alto!
A publicidade não desdenha o dia de São Valentim. Este anúncio dedica-lhe uma belíssima animação original: um par de seios solitários acaba por se reencontrar graças ao efeito push up da lingerie Valège. “Finally Together” is the concept of one print ad and three TV spots showing the emotional reunion of two very peculiar characters: left and right breast. The metaphorical images with a touch of humor take advantage of the romantic mood of this special day to demonstrate what every woman knows: they are meant to be together” (Agência Marcel, Paris).
Marca: Valege. Campanha: Finally Together. Agência: Publicis, Espanha e Marcel, Paris. França, Fevereiro 2013.
Comédia da carne
Os anúncios de lingerie apresentam-se cada vez mais longos e mais loucos. A Commedia del’arte espicaçou, com a sua irreverência, os séculos XVI, XVII e XVIII. O carnaval está à porta. Na Antiguidade representava uma despedida da carne (carne vale) alvo de uma profusão de festejos de índole dionisíaca. Este conto da Hope não releva nem da commedia del’arte, nem de uma despedida da carne, assemelha-se, antes, a uma comédia da carne, e remete para outro género de comédia: as histórias sem palavras do cinema mudo.
Marca: Hope. Título: Contos Hope. Agência: Giovanni+Draftfcb. Direção: Marcelo Galvão Brasil, Fevereiro 2013.
Fe(mi)linidade
Mais dois anúncios assinados por Jean-Paul Goude. No primeiro, uma espécie de ópera mediterrânica em praça pública, Chanel antecipa o efeito Axe: tanta mulher com cio e um único homem com perfume. O segundo anúncio retoma o tema da fe(mi)linidade: a “osmose” entre uma mulher e um tigre, “la belle et la bête”.
Marca: Chanel. Título: Égoïste: Montre-toi égoïste. Produção: Pac. Direcção: Jean-Paul Goude. França, 1990.
Marca: Dim Osmose. Título: Beauty & the beast. Agência: Publicis Conseil Paris. Direcção: Jean-Paul Goude. França, Fevereiro 2007.



