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Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

Vitalismo

Vulnerável e vital! Como um animal ou uma planta. Como um ser humano.

Oh LauraO anúncio Release Me, da Saab, é, ao mesmo tempo, um eco da vulnerabilidade oprimida e uma ode à libertação. Teve o mérito de lançar a banda sueca Oh Laura, de que acrescento duas músicas: Release Me, do anúncio da Saab, e Raining in New York, ambas do álbum A Song Inside My Head (2007).

Vulnerável e vital, como uma gota de água. A curta-metragem Voyage dans l’arbre, do parque de plantas Terra Botanica (Angers, França), é um exímio trabalho a que nos habituou a agência Mac Guff Paris.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

Oh Laura. Release Me. A song Inside My Head, a Demon in My Bed. 2007.

Oh Laura. Raining in New York. A Song Inside My Head, A Demon in My Bed. 2007.

Terra Botanica. Produção: Tvcible. Agência: TBWA Paris. Directores: Thomas Szabo e Helene Guiraud. Pós-produção: Mac Guff. França, 2010.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Estética da libertação

Ana Luisa Santos. Crisálida. Fotografia de guto Muniz.

Ana Luísa Santos. Crisálida. Fotografia de Guto Muniz.

Há dias assim, em que se dispensam discursos que se desfazem em ideias; barrocos por fora, ocos por dentro. Basta uma ideia bem explorada, uma pequena centelha para acender a imaginação. O que sugerem as imagens do anúncio Incoming? Uma múmia? Uma crisálida? Uma clausura? Uma bandagem? Uma dança contemporânea? Um nu feminino? Uma manta simbólica para uma estética da libertação.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço (http://www.culturepub.fr/videos/orange-incoming/) para aceder ao anúncio.

Orange Incoming

Marca: Orange. Título: Incoming. Agência: WCRS. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, 1995.

Não lutem pela escravidão

O anúncio Restart Your Speech, da Amnistia Internacional Portugal, estreou há dias. A paródia, o pastiche e a bricolagem são bons recursos de humor. Neste caso, não nos deixam indiferentes, mas também não nos dão vontade de rir.

Man Ray (1890-1976) - 1936 Dora Maar

Man Ray (1890-1976). Dora Maar. 1936.

“Numa altura em que os discursos de ódio, de medo e de divisão ganham dimensão um pouco por todo o mundo, a Amnistia Internacional Portugal propõe aos líderes mundiais e aos cidadãos comuns que se unam a uma só voz, hoje, amanhã e todos os dias por mais amor e por menos ódio. / “Não lutem pela escravidão. Lutem pela liberdade. Vocês, as pessoas, têm o poder. O poder de criar felicidade. Vocês, as pessoas, têm o poder de fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Vamos usar esse poder. Vamos todos unirmo-nos” / São estas as icónicas palavras de Charlie Chaplin no filme “O Grande Ditador”, de 1940” (Amnistia Internacional Portugal).

Anunciante: Amnistia Internacional Portugal. Título: Restart Your Speech. Agência: Havas Lisboa. Produção: Krypton. Portugal, Abril 2017.

As sandálias de Mercúrio

adidas-break-free

Sinto-me pobre. Falta-me tempo. Mas este falso anúncio não merece esquecimento. Não é publicidade verdadeira. Trata-se de um trabalho realizado no âmbito da Academia do Filme de Baden Wurttemberg, uma escola de cinema alemã. Aborda realidades vividas, infelizmente, por muitos. Liberdade, fetichismo e solidariedade. Um triângulo de circunstância.

Marca: (Adidas). Título: Break Free. Produção: Academia do Filme de Baden Wurttemberg. Direcção: Eugen Merher. Alemanha, Dezembro 2016.

Corpos libertos

KENZO-WORLD-FRAGRANCE-FILM

O Américo enviou-me, do Qatar, o anúncio The New Fragance, da japonesa Kenzo. Tanto perfume numa única mulher! Tanta mulher num único perfume! Tanta exal(t)ação! O anúncio não parece o que é: um anúncio a um perfume. Desvia-se e inova. Deve ser o efeito Don Quixote.

O anúncio é dirigido por Spike Jonze, um realizador consagrado. Lembra-se do filme Being John Malkovich (1999)? Spike Jonze repartia, há pouco tempo, o pódio dos realizadores de vídeos musicais com Chris Cunningham e Michel Gondry.

Ter um conceito dá mais jeito do que ter uma ideia. O conceito transpõe-se com alguma facilidade. O conceito do anúncio The New Fragance é parecido com o conceito dos vídeos musicais Weapon of Choice (2000) e, embora menos, Praise you (1998), ambos realizados por Spike Jonze para Flatboy Slim.

Marca: Kenzo. Título: The new fragance. Direcção: Spike Jonze. Internacional, Agosto 2016.

Flatboy Slim. Weapon of Choice. Dirigido por Spike Jonze. 2000.

Fatboy Slim. Praise you. Dirigido por Spike Jonze. 1998.

A força das palavras

CCHR

As palavras, mais do que dizer, constroem mundos. As palavras convocam di-visões do mundo (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). Ferdinand de Saussure demonstrou-o (Cours de Linguistique Générale, 1916), bem como, mais tarde, Mikhail Bakhtin (Marxisme et Philosophe du Langage, 1929) e J. L. Austin (How to do things with words, 1962). Este anúncio da CCHR International ilustra o poder, polémico, das palavras em termos de identidade e comportamento. Retirei-o do mural da Esmeralda Cristina, com quem tive o prazer de partilhar uma comunicação sobre os letreiros (banners) na publicidade.

Anunciante: CCRH International. Título: Childhood is Not a Mental Disorder. 2010.

Fuga da rotina

Taco BellA primeira parte do anúncio Routine Republic, da Taco Bell, lembra o filme Equilibrium (2002). Na República, totalitária, da Rotina, a passividade dos cidadãos é garantida pelo consumo de hamburgers. Em Libria a neutralização das emoções é assegurada por uma droga, o Prozium, injectada colectivamente ao som da propaganda do regime. Em ambos os casos, destaca-se o aparato policial.

Na segunda parte, esperava outra modalidade de libertação por parte do casal. No anúncio Odyssey (2002), da Levi’s (aceder https://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/), o casal destrói os muros com o próprio corpo. Por seu turno, o muro dos Pink Floyd acaba, apesar de tudo, por se desmoronar. Em Berlim, aconteceu o que  se sabe. No anúncio Routine Republic, a via de libertação resume-se a um pequeno buraco no muro, por onde passa uma pessoa de cada vez. No fim de contas, os dois jovens são desertores (defectors), não são libertadores. A passagem do muro é individual. O mundo permanece dual, maniqueísta. Do lado mau, o totalitarismo, a rotina, o inumano e o hamburger; do lado bom, a democracia, a festa, o humano e o Taco Bell.

Marca: Taco Bell. Título: Routine Republic. Agência: Deutsche. USA, Março 2015.

Borbulhas

Captain Marvel

Captain Marvel

Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa!
O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!

Marca: Lipton. Título: Tiny Bubbles. Agência: DDB New York. Direcção: Style War. USA, Fevereiro 2015.