Alterações climáticas. Hipocrisia
Eis um anúncio da Greenpeace deveras oportuno. Em diversos tempos e escalas. Por cá e alhures.
A Eni, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, está a utilizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno para maquilhar a sua destruição provocada pelos combustíveis fósseis.
Não se pode proteger os desportos de Inverno enquanto um dos maiores patrocinadores dos Jogos estiver a alimentar a crise climática.
Os poluidores não devem subir ao pódio nos Jogos. É tempo de o Comité Olímpico Internacional abandonar o patrocínio do petróleo e do gás.
Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos
Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.
A fibra do guerreiro

O filósofo grego Filóstrato (séculos II-III d.C) escreve no Tratado sobre a ginástica:
“Estes antigos atletas tomavam banho nos rios e nas fontes, dormiam no duro, uns sobre peles, outros sobre ervas que cortavam nas pradarias. Os seus alimentos consistiam em maza e em pão mal cozido e não fermentado; alimentavam-se ainda de carne de boi, de touro, de bode e de antílope. Untavam-se com óleo de azeitonas vulgares ou de outras espécies de azeitonas; permaneciam assim resguardados de doenças e retardavam a devastação da velhice. Alguns participaram nos confrontos durante oito olimpíadas, outros durante nove, e tornaram-se hábeis no manuseamento de armas pesadas. Batiam-se como se fossem donos de uma fortaleza, e não se mostravam inferiores nesta espécie de combates; eram julgados dignos do prémio da valentia e de troféus; faziam da guerra um exercício para a ginástica, e da ginástica um exercício para a guerra” (Philostrate, Traité sur la gymnastique, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie, 1858).
Norbert Elias fala em etos guerreiro (Elias Norbert. Sport et violence. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°6, décembre 1976, p. 8; pdf anexo). Mas, agora como dantes, nem todos os desportos pressupõem disposições guerreiras.
“Em suma, desta breve comparação entre as características dos desportos mais populares e dos desportos mais novo-burgueses ressalta uma oposição paradigmática entre ascese (áskësis) e estese (æsthësis). Enquanto que muitas das práticas mais típicas dos desportos populares parecem movidas por um éthos guerreiro as dos desportos novo-burgueses remetem mais para o éthos do mestre ou do artista (Gonçalves, Albertino, Imagens e Clivagens, Porto, Afrontamento, 1996, p. 114); pdf anexo).
O anúncio The only way is through, da Under Armour, é uma ilustração concisa do etos guerreiro: esforça-te, castiga-te, resiste, treina, concentra-te, supera-te, enfrenta e vence. Under armour. Mas, ao contrário das olimpíadas da antiguidade, não podes, em princípio, nem estropiar nem matar o adversário.
Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda
Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)
O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também. Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!
Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.
O encapuçado: o reverso dos patrocínios aos jogos olímpicos
Este belo anúncio da Gatorade apresenta-nos um encapuçado, que se descobre apenas no momento essencial da prova. Não sendo sebastiânico, o encapuçado lembra muitos heróis de romances históricos. Mas o anúncio encerra uma história actual, que o torna sobremaneira inteligente e oportuno. E mostra o poder da palavra. Atentemos no comentário da Advertising Age (http://adage.com/article/news/gatorade-highlights-real-olympic-presence/236721/):
“Gatorade might not have been an official sponsor of the London Olympic Games, but its reminding consumers it was still very much a part of the event with a pointed spot airing tonight.
Non-sponsors are heavily restricted from having any sort of presence or affiliation with the Olympic Games. And in order to protect sponsorship dollars, the IOC limits athletes competing in the Olympic Games from appearing in advertising during, as well as shortly before and after, the games. Olympic athletes have spoken out against such rules, claiming that restrictions on advertising are ultimately affecting their performance by obstructing sponsor relationships.
Those restrictions expired August 15, and Gatorade isn’t wasting any time reminding consumers how important it is to world-class athletes. The spot, which never explicitly mentions the Olympics, shows a figure, obscured by a hood and clad head to toe in black, walking through the streets of London.
A voiceover says: “We weren’t there on stadium billboards. We weren’t there on double-decker buses. We weren’t on buttons, souvenirs or commemorative snow globes. We weren’t there officially sponsoring anything. We were there for real — inside the bodies of some of the greatest athletes on earth.”
The figure is revealed to be Usain Bolt. He eats a Gatorade Chew before the screen flashes to him in a packed stadium preparing to race. The spot closes with the Gatorade logo and the hashtag #WinFromWithin. TBWA/Chiat/Day is Gatorade’s agency.”
Marca: Gatorade. Título: What’s Inside. Agência: Tbwa\chiat\day Los Angeles. EUA, 16 de Agosto de 2012.
See you at breakfast
Um anúncio da Kellogg’s particularmente bem concebido e que não podia ser mais oportuno.
“The Olympics: where finishes are celebrated and immortalized with records, medals, and climbs to the podium. As the world gathers there to honor the glory and excitement of the finish, Kellogg’s invites us to go a different direction: by reminding us to celebrate the promise of the start. Using American swimmer Rebecca Soni (who would go on to win two gold medals and break three world records in London), this one-minute film starts by questioning our focus on the finish, only to make us remember the importance of the start — something no one other company understands as well as Kellogg’s.”
“Why does the finish get all the glory?
Is the win all that matters?
Is it in our human nature?
Is it our survival instinct?
Is that how we get ahead in life?
Is the end the most rewarding part of the journey?
Is it?
The truth is that there’s no destination without a beginning.
No good-bye without hello.
No dream without closing your eyes.
No “happily ever after” without “Once upon a time”.
For us, there’s no finish …without the most important part of the day…
The Start.
Kellogg’s
See you at breakfast”
Marca: Kellogg’s. Título: Swimmer. Agência: Leo Burnett / Lapiz, USA. Direção: Ivan Bird. EUA, Agosto 2012.
Ecrãs
Na enxurrada de anúncios inspirados nos jogos olímpicos, um ou outro não se afoga.
Anunciante: Bell. Título: Home truths. Agência: Grey London. Direção: Simon Ratigan. Reino Unido, Agosto de 2012.
Poção mágica
No que respeita a hinos desportivos, os nossos antípodas (neozelandeses e australianos) são mesmo curtidos. Neste anúncio empolgante, o coro é todo acção e toda a acção. Uma poção mágica não oficial para os atletas australianos em competição nos Jogos Olímpicos. “For the London 2012 Olympics, we wanted to send a special message to support our athletes. So we asked Colin Hay, singer/songwriter for Men at Work, to take his classic anthem “Down Under”, and make a brand new version. The twist was, we wanted you guys to be the singers. Here’s the result”.
Marca: Telstra. Título: Down Under. Agência: DDB Sydney. Direção: Tubby Brothers & Stuart. Austrália, Agosto 2012.
Choque tecnológico
Em 2008, vigorava em Portugal o “plano tecnológico”. Na China, decorriam os XXIX Jogos Olímpicos de Pequim. E a GE – General Electric produzia, pela ocasião, dois anúncios de humor votados ao desporto e à tecnologia. O primeiro, Discus, parece uma sequência de um filme do Astérix. No segundo, Dragon, o engenho no aproveitamento da chama do dragão para aquecimento dos banhos só tem paralelo na origem, segundo François Rabelais, de algumas das mais famosas termas de França: Pantagruel adoeceu; um “fluxo de bolsa” provocou-lhe urina quente. Esta, infiltrada no solo, deu origem às termas de água quente de Cauterets, de Dax e de outras estâncias termais gaulesas (Le Tiers Livre des faits et dits Héroïques du noble Pantagruel, chapitre 33).
Anunciante: GE. Título: Discus. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008
Anunciante: GE. Título: Dragon. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008
Um mundo de eventos
“Estamos vivendo a década do esporte, vamos fazer do Brasil o País dos nossos sonhos”. E nós estamos vivendo o ano das capitais europeias, vamos acordar Portugal. O mundial de futebol (2014) e os jogos olímpicos (2016) que o Brasil acolhe são apenas as duas competições desportivas mais importantes do planeta. Mas nós temos eventos todos os dias! Falando sério, o anúncio Dreams é primoroso: tem imagem, tem enquadramento, tem ritmo e não sai da cidade (ver vídeo 1). Em Guimarães, nem sequer se sai de casa para ouvir boa música. Fiquei surpreendido e orgulhoso ao ver alunos a tocar violoncelo no primeiro concerto da CEC 2012, no âmbito do projecto “Mi casa es tu casa” (ver vídeo 2).
Marca: Olympikus. Título: Dreams. Agência: Dcs Paranoid. Direção: Carlos Manga Jr. Brasil, Janeiro 2012.
GMRTV. Casa na Quintã recebeu 1º concerto da CEC 2012. 28.01.2012.

