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Telhas solidárias

Tsuruya

Dar de caras com a criatividade é uma experiência invulgar. Graças ao anúncio Sticking together, no matter what, da Tsuruya, arriscamos não voltar a ver os telhados com os mesmos olhos: menos matéria e mais forma.

Marca: Tsuruya. Título:  Sticking together, no matter what. Agência: ADK Tokio. Direcção: Daisuke Shibata. Japão, Agosto 2017.

A dança dos drones

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Este anúncio japonês, A Kind Drone, da cadeia de roupa Buyma, arrecadou vários prémios. Curiosamente, só foi exibido na televisão uma vez. Teve um enorme sucesso viral. Com pouco se faz um bom anúncio: uma boa ideia e arte para a realizar.

Marca: Buyma. Título: A Kind Drone. Agência: Dentsu, Tokio. Direcção: Takumi Shiga. Japão, Dezembro 2015.

Sem deixar o Oriente, segue uma interpretação da chinesa Jane Zhang, uma voz bastante versátil (música pop e clássica).

Jane Zhang interpreta The Diva Dance Opera, do filme The Fifth Element.

Sushi

japanese sushi

Pensamento oriental do dia: A quem se põe em bicos de pés, algum dia escorregará o tapete.

Publiquei o anúncio japonês Meeting, da Gin No Sara, há mais de seis anos. Lançado em 2010, é um anúncio merece ser recordado. O meu comentário foi, então, lacónico:

Este anúncio é especial. E não parece. É uma construção de 2º grau: um anúncio que parodia e caricatura a publicidade. O resultado é singular e didáctico. Vale a pena estar atento ao extremo oriente.

Prossigo lacónico. O anúncio parodia com humor uma reunião de direcção de uma agência de publicidade. Parodia, também, um processo de decisão. Prossegue com uma performance. Encadear situações díspares comporta riscos. Não detectamos, porém consequências perversas. Ajuda, provavelmente, o facto de o corte entre as duas partes ser ostensivamente assumido. A performance com o casal de jovens combina simplicidade e comunicatividade. A publicidade preza o isomorfismo, bem como a alegoria. A ligação entre o “lego humano” e o sushi é brilhante. Ambos lembram o Yin-Yang.

Para terminar, uma actuação ao vivo do grupo japonês Wagakki Band.

Marca: Gin No Sara Sushi Delivery. Título: Meeting. Agência: Dentsu Tokyo. Japão, Março 2010.

Traditional Japanese Modern Music Dance. Wagakki Band. Live.

Perfume

Shiseido

O Tendências do Imaginário dedica os próximos dias à publicidade oriental.

Admiro os anúncios a perfumes. Um mar de dificuldades. Através do monitor, vemos e ouvimos. Não apalpamos, degustamos ou cheiramos. Não obstante, sentimo-nos tocados. Reagimos aos vídeos e à música com o corpo. Mas o perfume, não o vemos, nem o ouvimos, nem o tocamos. A comunicação do cheiro é complicada, tanto mais que o cheiro é pessoal, irredutível à agregação colectiva. Aliás, nas perfumarias, deve testar-se o perfume na pele! O perfume singulariza-se ao sabor dos clientes. Como atingir massivamente individualidades que são alérgicas à amálgama das categorizações?

O nariz também não ajuda. É um dos órgãos mais desvalorizados do corpo humano. Do ponto de vista estético, como o nariz só os pés e, consoante as circunstâncias, o rabo.

“Infelizmente, se os olhos são, por vezes, o órgão onde se revela a inteligência (…), o nariz é, em geral, o órgão onde mais facilmente se espalha a estupidez” (Proust, Marcel, 1922, A la recherche du temps perdu: Tome V – Sodome et Gomorrhe, NRF, p. 169).

Não me atrevo a contrariar Proust, o escritor observador de minúcias. Na verdade, o nariz só ascendeu, graças ao piercing, a parte decorável do corpo milénios após os olhos, a boca e as orelhas.

O perfume é uma intrusão. Entra no espaço íntimo das pessoas sem pedir licença. No nosso e no dos outros. O cheiro configura uma espécie de nuvem caprichosa: precede-nos, persegue-nos e flanqueia-me com contornos indefinidos.

E no entanto move-se… Não obstante todos estes obstáculos, os anúncios a perfumes constam entre os melhores da publicidade. Como? Podemos enumerar algumas soluções:

– Apostar nos cinco sentidos em detrimento da razão una e analítica. Os anúncios a perfumes são mais sensoriais do que cerebrais;

– Apostar no movimento envolvente, eventualmente, repetitivo e ondulante; o mundo tende a ser pendular e hipnótico;

– Comunicação polífona e orquestral; as diferenças, as singularidades e os contrários concorrem para um efeito de conjunto original e instável;

– Beleza; estetização; tudo é passível de estetização; tudo contribui para destilação estética;

– A natureza, incluindo a humana; é a rainha dos anúncios a perfumes; com doses discretas de efeitos especiais a natureza mostra-se ainda mais natural; o artificial ao serviço do natural;

– Uma pitada de fantasia, seja ela de que tipo for: amorosa, ecológica, onírica…

– Pequenas iniciativas e pequenos nadas propiciadores da identificação e do diálogo, imersivo ou não. Por exemplo, os robôs do anúncio All Beautiful Things Come From Nature, da Shiseido, cuidam, delicadamente, das melhores fragâncias da natureza. Para quem? Porventura para o espectador, sobretudo se for jovem. Este anúncio tem tudo a favor, mormente, uma equipa de luxo: marca: Shiseido; agência: Wieden + Kennedy; Realização: Dvein…

Marca: Shiseido. Título: All Beautiful Things Come From Nature. Agência: Wieden + Kennedy Tokio. Direcção: Dvein. Japão, Junho 2017.

Desconforto

Gravity Cat

Descontrolo gravitacional, caos e vertigem, uma trilogia do desconforto. “Desconforto”, palavra pouco escrita e muito vivida. O trailer Gravity Cat Live Action, do videojogo Gravity Rush 2, para a PS4, provoca, precisamente, uma sensação de desconforto. Desconforto mais do que estranhamento. As sequências iniciais dos filmes Laranja Mecânica e Matrix, bem como a sequência final do filme Blade Runner, causam estranheza e desconforto. Mas quando são observadas pela vigésima vez, a familiaridade aumenta e a estranheza diminui. Mas o desconforto, esse, permanece.

“Vigésima vez”? Há filmes, músicas e livros que revisito dezenas de vezes. Não têm conta as vezes que folheei Os Pensamentos de Pascal. Em contrapartida, há sucessos em que nem sequer toco. Um bom filme, uma boa música e um bom livro são “obras abertas” (Eco, Umberto, A Obra Aberta, 1ª ed. 1962) a reexploração interminável. Um sucesso é, até prova do contrário, um sucesso, uma perda de tempo em potência.

Conheço mal o mundo dos videojogos, mas percebe-se que um jogador pode passar dezenas de vezes pela mesma situação. Faz parte do tipo de progressão, pautada pela repetição e pelo retorno. Ao cabo de muitas passagens, o que se mantém? O estranhamento ou o desconforto?

Aventuro-me a uma ideia peregrina: a sensação de desconforto faz parte da própria dinâmica do jogo. O jogador sai, para exaltação ou alívio, de situações desconfortáveis. O desconforto e a incerteza são componentes do jogo, nomeadamente, dos jogos agonísticos (Caillois, Roger, 1958, Les Jeux et les Hommes: Le masque et le vertige, Paris, Gallimard).

Para terminar, só uma pergunta. Quem é o energúmeno que, com sol vaidoso e vento pasmado, à beira-mar, se empenha a escrever um artigo no blogue? Só um viciado. Ou talvez não! O futuro também nos determina: corrigir testes; verificar a candidatura de um megaprojecto; alinhavar uma videoconferência para uma universidade brasileira; seriar as candidaturas a um mestrado; preparar a apresentação de um livro… Tudo para a semana! Nestas circunstâncias, escrever um artigo no blogue pode oferecer-se como um pretexto autodeterminado, algo legítimo, para atrasar tanta urgência heterodeterminada. Desconforto é uma palavra que muito se vive e pouco se escreve.

Marca: Playstation 4 – Gravity Rush 2. Título: Gravity Cat. Agência: Hakuhodo Inc., Tokio. Direcção: Show Yanagisawa. Japão, Janeiro 2017.

Paródia de uma utopia

Este artigo é do meu rapaz mais novo, o Fernando. Importa assegurar o futuro do blogue.

paprika

“Até as senhoras da corte dançaram ao ritmo das flautas e tambores dos sapos. O remoinho de papel reciclado era uma vista para se ver, como gráficos de computadores! … O frigorífico e a caixa de correio vão liderar o caminho… Caminhem juntos em frente, eu sou o derradeiro governador” (Paprika, 2006).

O tema do filme de animação Paprika, dirigido por Satoshi Kon em 2006, incide sobre o alcance dos sonhos.

A um dado momento, ocorre uma invasão, com a forma de uma parada de vários objectos. O sonho do consumismo. Quem é o sonhador desta parada? Não se sabe. Cada um entra na parada e integra-se como se fosse o seu sonho, cada um é o “derradeiro governador”, um individuo consumido pelo consumismo. O sonho que não é de ninguém mas de todos.

“Pergunto-me aonde se dirigia a parada. Sinto que estava mesmo perto de controlar o mundo.” Os participantes na parada sentem uma promessa, uma recompensa final. Contudo, esta é uma parada sem fim, uma viagem em espiral, crescendo aos círculos.

No final, a parada invade o mundo real. As pessoas vão-se transformando em objectos. O individuo vale o que possui.

Os anúncios e a própria internet não são mais do que formas de sonho. Um sonho que se aloja no subconsciente. Um jogo em que a realidade afeta os sonhos que, por sua vez, afetam a realidade, uma realidade onírica.

Reencontram-se muitas figuras e situações do filme Paprika no filme Inception lançado quatro anos depois, nomeadamente a interpenetração entre sonho e realidade.

Paprika.Satoshi Kon. Japão. 2006. Excerto.

 

Como os animais

Sagami Act of Love

“[As fábulas] não são apenas Morais; elas facultam outros conhecimentos. Os atributos dos Animais, e os seus diversos caracteres, nelas se exprimem; por conseguinte, os nossos também, porque nós somos a abreviatura daquilo que há de bom e de mau nas criaturas irrazoáveis” (Jean de La Fontaine. Fables. Préface, 1668).

“Nós somos a abreviatura daquilo que há de bom e de mau nas criaturas irrazoáveis”. Pensando bem, até somos irracionais. Segundo Karl Marx, “a anatomia do homem dá-nos uma chave para compreender a anatomia do macaco” (Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política, 1858). Prefiro acreditar, com La Fontaine, que o macaco e os outros animais são o molde do homem. Atente-se nas danças do anúncio aos preservativos Sagami Original, em que os seres humanos imitam os rituais de galanteio dos animais. “O amor é profundamente animal: é a sua beleza” (Remy de Gourmont, Physique de l’Amour, Essai sur l’instinct sexuel, 1903. Nada que os Maroon 5 não cantem (Animals, 2014).

Marca: Sagami Original. Título: Act of Love. Agência: White Briefs. Direcção: Greg Brunkalla. Japão, Janeiro 2016.

Maroon 5. Animals. Álbum: V. 2014.

Malmequer

Fireflyman

Desfolhar anúncios publicitários como quem desfolha um malmequer.

Gosto! Anúncio com humor fantástico centrado no tema da luz. A morte que precede a lâmpada Ocedel tem tanto de catastrófico como de risonho e promissor. O anúncio progride sob o signo do amor e da esperança. A figura do homem vaga-lume é luminosa.

Marca: Ocedel. Título: Firefly Man. Agência: Nitto Tokio. Japão, Dezembro 2015.

Não gosto! Anúncio bem concebido e bem realizado, centrado na interacção trágica entre o amor e a morte. Nem sequer falta o “beijo da morte”! A morte é medonha, fatal, e a vida pecadora e frágil. Após décadas de planalto, vislumbram-se montanhas de medo. O medo propaga-se nas nossas sociedades. Porventura, mais do que a liquidez, as condutas de risco e o tribalismo. Não aprecio a educação pelo medo. Já há medo quanto baste! Livrai-nos de sociedades assustadas!

Anunciante: Western Cape Government. Título: The First Kiss. Agência: Y&R Capetown. África do Sul, Março 2016.

Cosmética

shiseido-hed-2015Ele ou ela? Uma questão de cosmética? Eis a magia da liquidez: mergulha-se mulher e sai homem; e vice-versa. O anúncio High School Girl?, da Shisheido, embora não o explicite, lembra a figura do andrógino, cara ao imaginário japonês.

As marcas de moda evidenciam-se pela qualidade dos anúncios. Este é um bom exemplo. Para aceder ao making of: https://www.youtube.com/watch?v=CM_uPPvXUXs.

Marca: Shisheido. Título: High School Girl? Japão, Outubro 2015.

Deus Máquina

Zenith

Zenith

O meu rapaz mais novo raramente visita este blogue. Desta vez, proporcionou-se. Gostou do artigo “o cronómetro da morte”. Lembra-lhe (está nos genes) um videojogo japonês: Resonance of Fate (ressonância do destino). A humanidade vive toda numa torre. No topo, está uma máquina com cristais de quartzo, um por cada pessoa. Quando chega a hora da morte, o respectivo cristal é destruído. Não há suicídio ou acidente que interfira. A máquina é associada a Deus. O enredo do jogo consiste em tentar sabotar a máquina sagrada e libertar o destino. Segue um trailer e um excerto do filme do videojogo (sem legendas).

Trailer. Resonance of Fate. Tri-Ace. Sega. PlayStation 3, Xbox 360. Takayuki Suguro. Japão, 2010.

Excerto do filme. Resonance of Fate. Tri-Ace. Sega. PlayStation 3, Xbox 360. Takayuki Suguro. Japão, 2010.