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Comboios e caveiras

Hans Holbein. The Ambassadors. Vanitas. Anamorfose. 1533.

No cais nº 12, um comboio ultra-moderno: queixo para a frente, testa para trás. Dá jornais, auscultadores e não se sabe que mais. Só lhe falta “andar no ar” como os Maglev japoneses. Na via 13, um comboio ultrapassado que por pouco não deita fumo. Qual escolher? Venho de onde venho, vou para onde vou, na carruagem que me levar. Nos comboios antigos aconteceram-me coisas extraordinárias. Nos comboios avançados, não tenho história para contar.

Comboio maglev japonês

Hoje, dei a última aula de sociologia da cultura, da licenciatura em Sociologia. Conversámos sobre o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, e desembocámos, fatalmente, na anamorfose com a vanitas (ver o artigo Objectos que falam: https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Tudo me lembra alguma coisa. Tenho, por isso, a memória gasta. Lembrei-me de um anúncio romeno com comboios e caveiras. Uma anamorfose original.

Antes do vídeo, não resisto a contar uma das minhas histórias de comboios. Estudava em Paris e vim de comboio para Portugal. Na fronteira franco-espanhola, os passageiros para Portugal eram separados daqueles que iam para Vigo (o meu caso). Os dois comboios percorriam a mesma via até, creio, Burgos. Estacionado na gare de Irún, o comboio tardava a arrancar. Perguntei ao revisor, com o meu bom espanhol, o que acontecia. Confidenciou: “Um alerta de bomba na linha”. Para não dizer a ninguém. Passado algum tempo, o comboio começa a andar. Voltei a abordar o revisor:

– Encontraram a bomba?

– Não! Mas não te preocupes. O comboio dos portugueses vai à frente.

Anunciante: Anim’Est. Título: Train. Agência: Ogilvy Romana. Roménia, 2010.

Homo carnivorus

No artigo precedente, abordámos a situação do homo sapiens fumus. Num registo sério que não me assenta. Resultado: “a argumentação não é má, mas não convence”. Hoje é a vez do homo carnivorus, outra espécie em projeto de extinção. Os sábios do terceiro milénio entendem corrigir o atrevimento que, há cerca de 2,6 milhões de anos, tiveram os nossos antepassados: comer carne. Uma inovação complicada. Não havia talhos e os animais não se deixavam caçar. Por vezes, convinha fugir deles.

Desventuras do homo carnivorus, que a série de anúncios da Nissin, empresa japonesa fabricante de massas alimentícias, recorda.

Marca: Nissin. Título: A avestruz. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: O rinoceronte e os parasitas. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima / Onuki. Japão, 1994.
Marca: Nissin. Título: Puma adormecido. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.
Marca: Nissin. Título: Mamute. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: As maçãs e o puma. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.

Made in Japan

Ajinomoto Stadium. Japão.

Pelos vistos, no Japão os homens gostam de mulheres. E não as deixam em paz. Não sei se, por cá, não configuraria assédio punível por lei. Mas não gostam de mulheres com voz de homem, com sinais exteriores de masculinidade. A voz da mulher quer-se feminina. Tudo por causa do desporto: as pessoas ficam roucas de tanto gritar no Ajinomotu Stadium. Mas o anúncio Husky girls data de 2005. Já lá vão 14 anos! Em suma, no anúncio os homens gostam de mulheres que parecem mulheres. As relações de género parecem confusas. A publicidade também: fique rouco, venha ao Ajinomotu Stadium!

Marca: Ajinomotu Stadium. Título: Husky girls. Agência: Dentsu (Tokyo). Direcção: Jun Kawanishi. Japão, 2005.
Deep Purple. Woman from Tokio. Who do you think we are. 1973.

Anime

Mike Diva. Japanese Donald Trump Commercial. 2016.

Os manga e os anime constam entre os produtos culturalmente ancorados, neste caso de origem japonesa, cuja difusão cresceu e se globalizou a um ritmo impressionante. Povoam o mundo gráfico e audiovisual, designadamente a Internet. Não adquirem, porém, uma presença correspondente nas universidades e noutros templos do conhecimento.

O Tendências do Imaginário dedicou poucos artigos aos manga e aos anime. É tempo de recuperar, com a ajuda de um especialista: o meu rapaz mais novo. Seguem dois vídeos. O primeiro, dirigido por Mike Diva, é uma paródia viral centrada na figura de Donald Trump, porventura o mais mediático e o mais globalizado dos presidentes norte-americanos. O segundo vídeo, da Mercedes Benz, atarda-se, seis minutos, numa perseguição automóvel fantástica e alucinante.

Direcção: Mike Diva. Tema: Japanese Donald Trump Commercial. 2016.
Marca: Mercedes Benz. Título: NEXT A-Class. Produção: Hakuhodo, AOI Pro., Production I.G. Direcção: Mizuho Nishikubo. Japão, Novembro 2012.

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

Salada de sexo com gomas

Sakeru-Gummy-Ep1-3

Este anúncio japonês respinga sexo por todas as imagens. Bem assumido e bem realizado, insiste na mesma tecla até ao desfecho, tão politicamente correto quanto déjà vu. Uma saga amorosa em dez episódios. Se o tamanho conta, com mais de seis minutos de duração, estamos perante um grande anúncio. Kitsch ou não kitsch, eis a questão!

Marca: Sakeru Gum. Título: Long Long Man: Size Matters. Japão, Abril de 2018.

A mama extraterrestre

Saído esta semana, o anúncio Spaceship, da Rakunoh Mother, provocou uma enorme contestação. Pelo ar bélico da nave espacial? Porque o leite e a vaca roçam o sagrado? Pela ousadia da mama a ultrapassar o estilo de Jean Paul Gaultier? Adivinharam! O motivo é a mama da vaca: “A Japanese TV advert selling milk has been blasted by viewers who think it should be banned – or at least have the giant nipple pixelated” (Mirror, 28.09.2017: http://www.mirror.co.uk/news/world-news/viewers-call-milk-advert-showing-11254231).

Marca: Rakunho Mother. Título: Spaceship. Japão, Setembro de 2017.

Não há recanto em que os sapos da censura se coíbam de coaxar. Desta vez, coube ao Japão, o país dos anime. Se gosto dos anime? Não desgosto, mas, a bem dizer, não provei o suficiente. Não tenho gostos nem induzidos nem deduzidos. Aprecio, por exemplo, algumas músicas dos anime. Não soam estranhas. Acrescento dois excertos do Boku No Hero Academia (direcção: Kenji Nagasaki; roteiro: Yōsuke Kuroda; desenho: Yoshikiko Umakoshi; e música: Yuki Hayashi).

 

 

Telhas solidárias

Tsuruya

Dar de caras com a criatividade é uma experiência invulgar. Graças ao anúncio Sticking together, no matter what, da Tsuruya, arriscamos não voltar a ver os telhados com os mesmos olhos: menos matéria e mais forma.

Marca: Tsuruya. Título:  Sticking together, no matter what. Agência: ADK Tokio. Direcção: Daisuke Shibata. Japão, Agosto 2017.

A dança dos drones

BUYMA-Ad-Campaign-image-2

Este anúncio japonês, A Kind Drone, da cadeia de roupa Buyma, arrecadou vários prémios. Curiosamente, só foi exibido na televisão uma vez. Teve um enorme sucesso viral. Com pouco se faz um bom anúncio: uma boa ideia e arte para a realizar.

Marca: Buyma. Título: A Kind Drone. Agência: Dentsu, Tokio. Direcção: Takumi Shiga. Japão, Dezembro 2015.

Sem deixar o Oriente, segue uma interpretação da chinesa Jane Zhang, uma voz bastante versátil (música pop e clássica).

Jane Zhang interpreta The Diva Dance Opera, do filme The Fifth Element.

Sushi

japanese sushi

Pensamento oriental do dia: A quem se põe em bicos de pés, algum dia escorregará o tapete.

Publiquei o anúncio japonês Meeting, da Gin No Sara, há mais de seis anos. Lançado em 2010, é um anúncio merece ser recordado. O meu comentário foi, então, lacónico:

Este anúncio é especial. E não parece. É uma construção de 2º grau: um anúncio que parodia e caricatura a publicidade. O resultado é singular e didáctico. Vale a pena estar atento ao extremo oriente.

Prossigo lacónico. O anúncio parodia com humor uma reunião de direcção de uma agência de publicidade. Parodia, também, um processo de decisão. Prossegue com uma performance. Encadear situações díspares comporta riscos. Não detectamos, porém consequências perversas. Ajuda, provavelmente, o facto de o corte entre as duas partes ser ostensivamente assumido. A performance com o casal de jovens combina simplicidade e comunicatividade. A publicidade preza o isomorfismo, bem como a alegoria. A ligação entre o “lego humano” e o sushi é brilhante. Ambos lembram o Yin-Yang.

Para terminar, uma actuação ao vivo do grupo japonês Wagakki Band.

Marca: Gin No Sara Sushi Delivery. Título: Meeting. Agência: Dentsu Tokyo. Japão, Março 2010.

Traditional Japanese Modern Music Dance. Wagakki Band. Live.