Master and Commander. Luigi Boccherini

Luigi Bocherini (1743-1805), compositor de origem italiana, radicou-se jovem em Espanha (1768). Sobre a vida de Luigi Bocherini, pode consultar-se: https://tendimag.com/2018/12/28/beleza-interior/. Acrescente-se que durante séculos repousou no lado cinza da fama. Em 1927, Benito Mussolini resolveu transladar os seus restos de Madrid para a igreja de sua terra natal, Lucca. Segue o Quinteto de Cordas em C Maior, Op 30 Nº 6, G324, tal como é interpretado na banda sonora do filme Master and Commander: O Lado Longínquo do Mundo (2003).
Habilidade e criatividade

Durante a viagem, na rádio a palavra de ordem era skills, skills e mais skills. Triste língua aquela que não sabe dizer o que está na moda. Habilidades ou competências são vocábulos de que prescindimos. S-kill them! Mas há casos de resistência, por exemplo, weekend. Houve um tempo em que a palavra fim de semana passou vergonhas. A língua só se dobrava para dizer weekend. A gente passava o weekend fora. Havia discotecas que se chamavam Weekend. Agora, com a pandemia, passamos o fim de semana em casa. Um destes dias vou escrever um post sobre o assunto.
Gostava de ter as skills estéticas de Bruno Aveillan, o meu realizador de anúncios preferido. De um escaravelho ou de um tecido consegue fazer uma obra de arte. Veja-se este longo anúncio para a empresa de tecidos italiana RATTI. Gorgeous! A ver com tempo e disposição.
Cancelado

E se celebrássemos as iniciativas canceladas por causa da Covid-19? Por exemplo, a Escola de Primavera, a exposição de fotografias de Álvaro Domingues ou o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Todos prontos. Tudo reduzido a nada. Apetece traçar uma diagonal a preto nos respetivos cartazes. Acabaram antes de começar. Como diz uma publicidade antitabaco, “mataram-nos antes de nascer”. A celebração dos eventos cancelados é uma proposta do anúncio Unforgettable Denim, da Diesel: colocar nos bolsos das calças o nome de eventos que não se realizaram. Os italianos têm uma queda para a farsa e a ironia.
Publicidade do mundo

Existe “música do mundo”, “cinema do mundo”, “literatura do mundo”; há espaço para uma “publicidade do mundo”? O anúncio My Way, da Giorgio Armani, parece enveredar por esse trilho. Há mais casos. De qualquer modo, o mundo Armani é infalivelmente bonito. Sem discriminação de género.
Como peixes na rede

Há tanto petisco falso na Internet! Os peixes mordem o isco aos milhões. E quanto mais mordem mais atraente se torna o isco. Quem duvida de uma ligação com mais de 20 milhões de visualizações?
No endereço https://www.youtube.com/watch?v=a0hFZPvanMs, encontra-se um vídeo intitulado Frédéric Chopin – Spring Waltz. Contabiliza 6 750 616 visualizações. Não é um caso isolado. Os fakes são virais. Chopin não compôs nenhuma Valsa de Primavera. A música do vídeo é Mariage d’Amour, composta, em 1978, pelo francês Paul de Senneville, e interpretada por Richard Clayderman (https://www.youtube.com/watch?v=1ej1SI4BRv8) e George Davidson (https://www.youtube.com/watch?v=gKmnb8RpX1E).
A página https://www.youtube.com/watch?v=-ywL_zokELE ostenta o título Adagio – Johann Sebastian Bach. Em letras pequenas, precisa: “Τhis version is made by Élise Robineau – Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. A versão de Élise Robineau substitui o oboé pelo violoncelo. Informa, porém, que o adagio de Bach provém do adagio de O Concerto em ré menor para oboé, cordas e baixo contínuo de Marcello. De Marcello? Será Benedetto Marcello, o compositor veneziano que criticou Antonio Vivaldi? Não, o irmão Alessandro. O Concerto para Oboé em ré menor, e respectivo adagio, foi composto por Alessandro Marcello. Até prova do contrário. Estou convencido que o adagio do Concerto em ré menor para oboé resulta mais atribuído, na Internet, a Bach ou ao Benedetto Marcello do que ao seu autor Alessandro Marcello.
Estou a selecionar algumas músicas de Frédéric Chopin. Se contemplasse a pretensa “Spring Waltz” estava a servir gato por lebre e a fazer figura de parvo. Colocar conteúdos na Internet requer algum sentido de responsabilidade, por exemplo, verificar antes de partilhar.
Quarenta mil olhos vêem mais que dois? Naturalmente, mas depende de quem e do quê. Gosto do arranjo de Élise Robineau do adagio de Bach / Alessandro Marcello para piano e violoncelo. Integra a banda sonora do filme Je te mangerais (2009).
Um mandamento novo

As pessoas de diferentes culturas não só falam diferentes linguagens como, facto possivelmente mais importante, habitam diferentes mundos sensoriais (Hall, Edward T., 2003, La Dimensión Oculta, Buenos Aires, Siglo XXI, ed. original 1966 , p. 8).

Jean Michel Folon. The Topsy-Turvy Economy. 1978. 
Jean Michel Folon. Aguarela sem título.
O Covid-19 criou um mandamento novo: afastai-vos uns dos outros. Apela a um socialização responsável. A publicidade aderiu à sensibilização. Seguem dois anúncios da Heineken em que a cerveja rima com convívio desaproximado.
Portas que não fecham

Há portas a que não convém bater. Nunca mais se fecham. O rio Minho também é uma fronteira que não separa. Existem culturas que nos trazem cativos. Alice é uma cantora italiana que iniciou a actividade nos anos setenta. Ganhou o Festival de Sanremo em 1981. A canção Prospettiva Newskij convoca o bailado, a música e o cinema: Nijinsky, Stravinsky e Eisenstein.
Insisto em colocar obras transalpinas que o Tendências do Imaginário ostensivamente ignora. Cultura boa, só salgada. Dos mares e dos oceanos. Melhor do que cultura salgada, só o bacalhau. É difícil apregoar a diferença a quem tem a cabeça cheia do mesmo. Conhece-se mal a cultura italiana. E depois? Um dia será como a nossa…
Leve, levemente

O tempo passa, mas não para
Nos anos sessenta, as baladas italianas apoderavam-se da rádio. Dar o que as pessoas gostam é um reforço. Dar-lhes o que desconhecem, uma promessa, habitualmente perdida. O siciliano Peppino Gagliardi alcançou vários sucessos. Por exemplo, Che vuole questa musica stasera … (1967) e Sempre… Sempre (1971).

