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Semear erros

“A última coisa que descobrimos ao terminar uma obra é saber aquela que é preciso colocar primeiro” (Blaise Pascal).

“O conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão” (Gaston Bachelard).

Escrevo sempre textos em construção, papers in progress. Mais ou menos a meio de uma pesquisa. Ousadia? imprudência? Existem motivos que o justificam, alguns por princípio, outros práticos.

Decidir partilhar uma obra apenas quando esteja absolutamente acabada representa candidatar-se a nunca a publicar. A perfeição não está ao nosso alcance. O conhecimento é sempre problemático, provisório e falível. Entre a primeira gota e a almejada cristalização definitiva estende-se uma eternidade. Um texto redondo como um ovo, sem janelas nem trancas, é uma ilusão, pior, uma presunção. Em suma, estamos, de facto, condenados a publicar textos em construção.

Como o sugerem Blaise Pascal e Gaston Bachelard, a ciência apresenta-se não como uma certificação da verdade mas como uma retificação do erro. No início não está a verdade mas o erro. No fim, volta a não estar a verdade mas, na melhor das hipóteses, um erro menor. Errar faz, neste sentido, parte da prática científica. O diagnóstico de um erro já é um mérito, mais, errar pode ser um contributo. Uma ideia errada pode revelar-se um passo rumo ao conhecimento. O exemplo avançado por Gaston Bachelard é desconcertante e convincente: do modelo proposto por Niels Bohr, assumido como decisivo para a teoria do átomo, não restou praticamente nada. Formular uma proposta que suscita tamanho apetite que nem sequer os ossos sobram pode corresponder ao sonho de um cientista. O erro e a dúvida são os companheiros de estrada do investigador. O cientista conjetura, não prega!

Estes apontamentos não configuram um dogma, apenas uma perspetiva, por sinal, bastante partilhada. Esta consciência, de tão geral e abstrata, com ares de maneirismo epistemológico, reveste-se de pouca utilidade se não se consubstanciar numa disposição, num modo prático, incorporado, quase espontâneo, de viver a investigação. Uma arte de ser e de estar, de abraçar, com humildade, a produção e a comunicação do conhecimento.

Mal concluo um texto, logo o começo a rever. No artigo dedicado aos Farrangalheiros, colocado há escassos quatro dias, já introduzi uma mão cheia de alterações. Coisas ínfimas, quase-nadas: melhorar uma formulação, complementar uma informação, limar uma imprudência desnecessária ou corrigir um lapso assinalado por um comentário mais atento com que me deparei quando, já redigido este texto, demandava a origem do vídeo anexo. Por enquanto, as alterações provêm, essencialmente, da mera autocrítica. Mas mantenho-me atento e aberto a reações alheias, a contributos suscetíveis de o melhorar, incluindo quase-tudos capazes de o subverter. Publicado, entregue à sua sorte, um texto passa a ser menos do autor e mais dos leitores, quase um estranho. A investigação esboça os primeiros passos e no princípio não mora o verbo mas a ignorância. Comparado com alguns colegas, sou um aprendiz na matéria.

Quando estudo uma coletividade, pressuponho que os seus membros conhecem a realidade, as respetivas experiências e crenças, com uma dimensão e profundidade que nunca lograrei. Por isso os procuro e escuto com a devida atenção. Dão mais do que dou, dívida que nunca resgatarei. Investigar, para mim, é antes de mais interagir com as pessoas, em cada esquina a cada momento. Se o maior desafio da investigação é a descoberta, a principal recompensa repousa nos laços criados. Longe de partir em cruzada contra o senso comum, caminho com as pessoas, com a sua sabedoria. Promovo a proximidade em vez da distanciação profilática. Não aspiro, sobretudo, a muito mais informação do que aquela que, pela sua memória e pela sua experiência, as pessoas contempladas já possuem.

Qual é, então, a minha utilidade? O meu contributo só pode ser diferente, porventura resultante de quase meio século de treino a interpretar o comportamento social, nomeadamente o imaginário, um exercício constante desde que ingressei, em 1976, no curso de sociologia na Sorbonne e, especialmente, em 1978, no seminário de sociologia da literatura na École de Hautes Études en Sciences Sociales. Esse é o meu património e a minha ferramenta, o meu olhar, que me esforço por usar com criatividade e imaginação, se possível fundamentadas. Acrescento à realidade, sem garantias de justeza, camadas de sentido, que, por vezes, se lhe colam à pele. Só pode ser esse o retorno, a contra dádiva. Conseguido ou não, isso é outra questão.

Qual é o interesse em partilhar precocemente textos em construção, exploratórios e provisórios? Sem escudos de validação nem rituais de verdade? O risco de errar não é contra-argumento. Está sempre presente, em qualquer fase, embora, naturalmente, não se saiba. O que se ganha com a imprudência? Existem duas potencialidades que são outras tantas virtudes. A primeira consiste, precisamente, em detetar e corrigir, a tempo, os erros graças à crítica alheia. O diálogo, o debate e a avaliação, despoletados pela publicação, concorrem para esse efeito. A segunda potencialidade convoca a inspiração: a leitura de um texto pode suscitar e alavancar novas perspetivas, novos problemas, novas hipóteses. Nesta ótica, uma investigação não é só coletiva por ser conduzida por uma equipa, mas também porque é recebida e apreciada por um público, apropriada por outrem, por um colégio mais ou menos invisível. Para quem, como Paul K. Feyerabend, acredita que importa mobilizar tudo o que quer que seja suscetível de propiciar conhecimento, estas possibilidades de retificação e inspiração não devem ser desperdiçadas. Enclausurar significa esterilizar e mumificar. A fecundidade reside na interação.

Recorrendo ao linguajar tecnocrático, subsiste, porém, uma ameaça: a eventualidade de enganar os leitores com falsidades insuspeitas. Risco que se agrava quando o escritor, pelo seu estatuto, desfruta de uma autoridade e de um crédito suplementares. Por mais voltas que dê, não consigo contornar esta questão. A única forma cabal de evitar o contágio do erro seria, logicamente, remeter-se ao silêncio ou escrever para não dizer nada. Acresce que ninguém consegue censurar erros que desconhece. Na falta de melhor, recorro a um arremedo: evito o discurso categórico e académico, a retórica da verdade. À arquitetura do tratado, prefiro a morfologia do conto. Opto por um estilo coloquial e poético, como quem conta uma estória à moda do Camilo Castelo Branco: uma aparente ficção com personagens e acontecimentos reais, na expetativa de que a razão conceda, à partida, menos fé ao literário, ao ligeiro e ao irreverente. Mesmo assim, a probabilidade de indução em erro permanece incomensurável. Deseja-se, neste beco sem saída, que o leitor desconfie das certezas, das respostas fechadas, e se contente com dúvidas, com propostas abertas.

Dou a ler à família os textos antes de os publicar. No caso vertente, a pergunta não se fez esperar: “Tiveste alguma reação?”. Nenhuma, ressalvando a menção num comentário a um lapso: escrevi, baralhado pela velocidade das letras, inverneiras em vez de brandas. Trata-se simplesmente de uma fatalidade do ofício que me preocupa, que me acompanha e perturba como um grilo falante. Escrever ajuda a pensar. O desconforto é geral, tanto vale para o livro que estou a escrever sobre as imagens de Cristo como para a coletânea, em revisão, sobre a morte na arte, o capítulo, no prelo, sobre as bugiadas de S. João do Sobrado ou o artigo, recente, sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Confirma-o a advertência que culmina o capítulo dedicado às Bugiadas:

“O estudo do imaginário requer imaginação. Sem imaginar pouco se descobre e nada se inventa. Interpretar costuma ser um jogo incerto, estimulante na prática e ingrato nos resultados. Os avanços e os recuos resultam de um compromisso entre a dedução a partir daquilo que se sabe e a indução a partir daquilo que se aprende. Quando surge uma intuição, convém acolhê-la, equacioná-la e, eventualmente, explorá-la. Nada se ganha em autocensurar conjeturas em que se apostou, por mais elevado que seja o risco de errar. Infirmadas, corrigidas ou confirmadas, as ideias, mesmo falsas, possuem a virtualidade de abrir caminho ao conhecimento. Contra o desperdício intelectual, sempre que uma intuição nos desarma, avessa a uma promessa de validação, o mais avisado será enveredar pela generosidade e a imprudência de a partilhar. Uma proposta frágil mas honesta, motivada pela vontade de saber, desde que devidamente exposta à crítica e sem aparato de verdade, não incorre em pecado capital. Talvez venha a beneficiar do interesse e da crítica de alguém que lhe proporcione melhor sorte ou a cubra de ridículo. Assim introduzida, passamos a apresentar uma camada suplementar de leitura semiótica dos Serviços da Tarde, dotada de alguma coerência e sedução, conscientes de que carece sustentação mas não proscrição.”

Esta corrente de palavras aponta para uma postura na investigação e na comunicação do conhecimento: a aposta num jogo ponderado entre humildade quanto baste e ousadia tanta quanto possível. De preferência, com asas que voam em vez de asas que pesam: a andorinha no lugar da galinha.

Traje Castrejo. Fonte: PORTUGAL de LES A LES. 7 objetos com história entre Castro Laboreiro e Melgaço. Por Jorge Montez (texto) e Miguel Montez (imagem). Consultado no dia 08 de maio de 2022.

Entrevista a Madalena Oliveira

Entrevista com Madalena Oliveira. Boletim ICS, abril 2022.

O Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho, adotou como boa prática promover uma entrevista aos ex-membros recentemente reformados, para publicação no respetivo Boletim Informativo. Proporcionou-se uma conversa amável, franca e empática com Madalena Oliveira, atual diretora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade.

A reforma não é a conclusão de um percurso mas uma nova fase. Não é por ser tão gasto que este provérbio deixa de ser verdade. As janelas de oportunidade modificam-se mas mantêm-se abertas para franquear experiências e arejar espíritos. Noutra condição, por outros caminhos e com novas artes.

Segue a entrevista, em pdf, a Madalena Oliveira.

Saudades das aulas

Geese Book. Nuremberga. Alemanha. Entre 1503 e 1510. Volume I – fol. 186r. Morgan Library.

Saudades das aulas? Comparativamente, as restantes experiências universitárias, a carreira, os cargos, a burocracia, os rituais e as rotinas, revelam-se irrisórias ou simplesmente substituíveis. De fraca ressonância, devoto-as ao alívio do recalcamento. Continuo a investigar, a intervir, a comunicar e a acarinhar amizades. Nos momentos aziagos, menos lúcidos, tenta-me reduzir os cerca de quarenta anos de profissão académica a uma extensa insignificância. Acontece nas quebras de polaridade mais negativa. Consola-me a memória de algumas iniciativas, fora de regras e além muros, das quais, não sendo puritano, em assumido pecado, me orgulho. Recordo, para minha própria sanidade, as mais gratas e marcantes, todas na qualidade de promotor, coordenador ou (co)organizador. Muitas nem sequer os meus colegas conhecem. Confesso que estou convencido que se não for eu a dizer o que fiz mais ninguém o fará. Agora que o presente e o futuro andam numa cadeira de rodas, tenho tempo e ensejo para ruminar o passado. Segue, carregado a amarelo, uma espécie de postit ou lembrete terapêutico que enumera vários retalhos da vida de um professor em idade avançada. Se saltar esta lista ou a ignorar, pouco ou nada perde, sem sombra de prejuízo para o tema deste artigo: as aulas.

  • – Seminário Portugal e os Portugueses – Raízes e Horizontes, em Braga, duas semanas de atividades com filhos de emigrantes provenientes de todo o mundo, para a Secretaria de Estado da Emigração, em junho de 1983 (a atividade mais coletiva);
  • XIII Congresso Europeu de Sociologia Rural, em Braga, em abril de 1986 (iniciativa que excedeu os meus limites);
  • – Mediação/organização local, nos anos oitenta, das filmagens de um documentário da BBC sobre a pastorícia e a vezeira na freguesia de Lamas de Mouro, para uma série de ensino de português no Reino Unido (a atividade mais exótica);
  • – Estudo das relações entre residentes e emigrantes, em Braga e Melgaço, 1989-1994 (a investigação mais consistente);
  • – Programa semanário da RTM (Radio e Televisão do Minho) Quarto por Quarto, aos sábados, das 10 às 12 horas, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996 (a atividade mais mediática);
  • – Coordenação de estudos nos bairros sociais das Andorinhas, em Braga, e das Lameiras e de Lousado, em Vila Nova de Famalicão, para o IGAPHE (Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado) e o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, de 1996 a 1999;
  • Inquérito aos Licenciados da Universidade do Minho (anos 1991 a 1997), para a AAEUM, Braga, 1998 (a atividade de utilidade mais imediata);
  • Conferências de Sociologia, Universidade do Minho, em1997 e 1998:
    • I – Histórias de Vida, Família e Mobilidade Social (11/12/97);
    • II – Jovens e Migrações / Ciência e Sociedade (05/01/98); I
    • II – Pós-Modernidade (09/01/98);
    • IV –  Fontes e Métodos da Demografia (21/05/98);
    • V – Contextos e efeitos sociais do futebol (14/12/98);
  • – Estudo da Romaria da Srª da Agonia, para o Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, de 1998 a 2000 (a atividade que mais se aproximou do lazer);
  • – Mediação/organização local, no início dos anos 2 000, das filmagens de um documentário de uma produtora belga sobre os jogos infantis tradicionais em Portugal;
  • –  Seminário Internacional Transição para o ensino superior, na Universidade do Minho, em 18 e 19 de maio de 2000.
  • – Criação do curso de Mestrado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida, na Universidade do Minho, em 2000.
  • Grupo de Missão para a Qualidade do Ensino/Aprendizagem, da Universidade do Minho, de 2000 a 2002;
  • – Criação da revista Sociedade e Cultura, seis publicações, de 2000 a 2004;
  • – Seminário Da Universidade para o Mundo do Trabalho: Desafios para um Diálogo, na Universidade do Minho, em 24 e 25 de maio de 2001;
  • – Criação da série de publicações Apontamentos UM, iniciada em 2001;
  • – Criação do Núcleo de Estudos em Sociologia, em 2002;
  • – Implementação da Rede Social do concelho de Melgaço. e elaboração dos respetivos Diagnóstico Social e Plano de Desenvolvimento Social. de 2003 a 2005 (a atividade de maior intervenção social);
  • Inquérito aos idosos do concelho de Melgaço, para o CLAS e o Município de Melgaço, em 2003 e 2004 (o inquérito com maior impacto social);
  • – Inquérito às Associações Culturais do Concelho de Penafiel, para o Município de Penafiel, em 2003 e 2004
  • – Implementação da Rede Social do concelho de Vila Nova de Cerveira. e elaboração dos respetivos Diagnóstico Social e Plano de Desenvolvimento Social. de 2004 a 2006;
  • – Seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo, no Mosteiro de S. Martinho de Tibães, em 19 de abril de 2005;
  • Inquérito às empresas do concelho de Ribeira de Pena, para a Associação ADRIPÓIO, 2003 a 2005;
  • – Criação e acompanhamento do Espaço Memória e Fronteira (museu dedicado à emigração e ao contrabando), inaugurado no dia 27 de Abril de 2007, para o Município de Melgaço, desde 2005 (a atividade mais visível, mais grata e mais cara: cativado todo o orçamento, sobrou a despesa);
  • Inquérito aos trabalhadores da Zona Industrial de Campos, para o Município de Vila Nova de Cerveira, 2006;
  • – Avaliação do Projeto “Dar Vida às Letras”, para a Rede de Bibliotecas e a Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, 2006 e 2007 (a atividade que granjeou mais reconhecimento internacional e a segunda mais cara: cativados dois terços do orçamento, voltou a sobrar a despesa);
  • Inquérito às necessidades de formação profissional dos concelhos de Guimarães, Fafe e Vizela, para a Associação Sol do Ave, em 2006 e 2007;
  • Comissão Instaladora da Casa-Museu de Monção / Universidade do Minho, 2006 a 2017;
  • – Exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía, e na actualidade, aberta ao público de 24 de março até 2 de Setembro de 2007, na Sala do Recibo do Mosteiro de S. Martinho de Tibães (a atividade mais ousada);
  • – Estudo das Perspetivas de Desenvolvimento do Concelho de Monção, para o Município de Monção e a Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, de 2007 a 2009 (a atividade que mais se aproximou da intervenção política);
  • Avaliação do Impacto Social e Cultural de Guimarães 2012 – Capital Europeia de Cultural, para a Fundação Cidade de Guimarães, de 2010 a 2013 (de todas as atividades, aquela que me deu mais trabalho e canseira);
  • – Criação do curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho, em 2011 (o meu maior contributo para a Universidade);
  • – Blogue Tendências do Imaginário, desde agosto 2011: https://wordpress.com/view/tendimag.com (a minha perdição);
  • – Blogue Comunicação, Arte e Cultura, desde outubro 2011: https://wordpress.com/view/comartecultura.wordpress.com (plataforma para os alunos e a maior iniciativa de marketing);
  • – Ciclo de Sessões Percursos Profissionais na Área da Cultura, para o curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, de 2011 a 2013 (a atividade com maior abertura pedagógica):
    • A Promoção da Cultura no Minho Interior, na Universidade do Minho, com Angelina Esteves, Catarina Afonso e Nuno Soares, em 8 de novembro de 2011;
    • Iniciativas Culturais do Mosteiro de Tibães, no Mosteiro de Tibães, com Aida Mata, Mário Brito e Miguel Bandeira, em 15 de novembro de 2011;
    • A Política e a Democracia Cultural, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, com José Bastos e Carlos Martins, em 6 de dezembro de 2011;
    • A Requalificação do Largo do Toural, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, com Maria Manuel Oliveira, António Amaro das Neves e Samuel Silva, em 28 de fevereiro de 2012;
    • Fotografia e Investigação, na Universidade do Minho, com Álvaro Domingues e Isabel Alves, em 2 de março de 2012;
    • A Lã e a Neve – Coreografia, na Caixa Negra da Fábrica Asa, em Guimarães, com Madalena Victorino, em 28 de novembro de 2012;
    • Mulheres da Raia – Sessão com a presença da realizadora, na Universidade do Minho, com Diana Gonçalves, em 9 de abril de 2013;
  • – Exposição Momentos Rurais, do fotógrafo Rui Pires, na Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, em junho 2013;
  • – Estudos das festas e romarias de São Bartolomeu de Cavez, das Papas, de S. Tiago, de Santa Senhorinha, de Nossa Senhora dos Remédios e de S. Miguel, do concelho de Cabeceiras de Basto, para o Município de Cabeceiras de Basto, de 2011 a 2013;
  • Escola da Primavera, em Monção e Melgaço. Atividade destinada aos alunos dos cursos de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, Doutoramento em Ciências da Comunicação e dos três ciclos de ensino em Sociologia, da Universidade do Minho. Aberta à comunidade. Anual, desde 2013 (a atividade mais diplomática, agradável e oportuna);
  • – Comemoração dos 25 anos da Licenciatura em Sociologia, Universidade do Minho, 20 de outubro de 2015;
  • – Alteração do curso de Mestrado em Sociologia, em 2017 (conjunto de iniciativas que se destacam pelo diagnóstico e pelo sucesso);
  • Encontros de Sociologia, no Mosteiro São Martinho de Tibães, iniciados em 2018.
  • Encontros Minho-Galiza:
    • – II, Casa Museu da Universidade do Minho em Monção, em 2017;
    • – III, Auditório de Goyan, em 2018;
    • – IV, Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em 2019;
  • Quem somos os que aqui estamos? Programa de monografias, documentários, fotografia e eventos dedicado aos agrupamentos de freguesias do concelho de Melgaço, para a Associação Ao Norte e o Município de Melgaço. Concluídos os agrupamentos de Parada do Monte – Cubalhão e Prado – Remoães, está em curso o estudo do agrupamento de Castro Laboreiro – Lamas de Mouro. Programa iniciado em 2016 (a atividade mais reflexiva).

Este inventário configura uma espécie de testamento de uma fase da vida. Admito que fui um péssimo agricultor: semeei tanto e colhi tão pouco. Convém ressalvar as aulas e os alunos, pelo desafio e pela recompensa.
Subsiste a noção de que as aulas totalizam unidades coerentemente lecionadas, enquadradas, planeadas e sumariadas. Graças à lógica ou à dialética, o professor conduz o aluno pela mão, de argumento em contra argumento, até à verdade final, como quem peregrina um caminho de Santiago. Sondam-se horizontes, somam-se marcos, semeia-se o trigo, separa-se o joio, numa álgebra do pensamento.
Numa aula, proporciona-se expor ou compor, partilhar ou construir conhecimento. Metaforicamente, não deixa de ser romântico propor-se rasgar janelas em anfiteatros claustrofóbicos, esboçar sombras em salas soalheiras ou erguer pontes entre corredores paralelos. Comungar o possível, a dúvida e o paradoxo, o improviso e o imprevisto, a um ritmo de jazz pedagógico. Uma aula quer-se uma performance, em que quase tudo pode servir como “material didático”: teorias, métodos, técnicas e análises, mas também artes e letras, documentários, filmes, anúncios, pintura, escultura, música, objetos, documentos, testemunhos, anedotas, convites, visitas, entrevistas, eventos… O mundo da vida senta-se na mesma sala em que professor e alunos são partes participantes, sabendo que sem criatividade, interpretação e diálogo não existe recurso ou visita que acrescente valor. A monotonia e a monologia abrem-se à polifonia e à diversidade. Um dos principais desafios consiste em cruzar fontes e alinhavar realidades distintas. Por composição e recomposição, a aula oferece-se como um mosaico ou uma travessia em que cada um, professor ou aluno, desenha o seu próprio percurso. A aprendizagem é heterogénea. A assimilação, a compreensão e a retenção variam consoante as competências, os interesses e as disposições. O professor confronta-se com uma multiplicidade de registos, asseverando-se difícil agir em consonância. Trata-se de uma demanda de sintonia que releva praticamente do milagre.
Não é óbvio navegar nestas águas e ainda menos chegar a bom porto. Quando muito, aproximamo-nos. As aulas são particularmente exigentes e vulneráveis. Requerem esforço, adesão, concentração, flexibilidade e investimento pessoal. Não se prestam à passividade, à rotina e à atenção intermitente. Interligar informação díspar não é confortável nem sequer se apoia numa atitude natural. Pressupõe predisposição e preparação, qualidades nem sempre desenvolvidas durante a trajetória escolar. Os alunos tendem a vir calibrados por e para aulas clássicas. O risco de rutura da comunicação é, assim, elevado. Desligar é um risco, uma outra forma de estar: olhar para a janela e embarcar noutro comboio, entreter-se com o telemóvel, distrair os colegas ou, simplesmente, entregar-se à evasão interior. Os alunos não têm todos o mesmo capital, o mesmo passado e a mesma experiência, o que institui desigualdades e injustiças de problemática e incerta reparação. Estas aulas correm o risco de pedir aquilo que, à partida, não foi oferecido. Neste caso, podem encobrir um fundo e uma perversidade elitistas.
Aulas que exigem esforço, concentração e participação apostam na motivação. O investimento deve compensar, a vários títulos. Aprender com prazer não é uma quimera. Ensinar não é apenas, como dita a etimologia, marcar. É, também, envolver e entusiasmar. A razão não é a única hóspede da sala de aula. Para além do Homo sapiens, o professor também lida com o Homo aestheticus (Luc Ferry, Homo Aestheticus, 1990) e o Homo eroticus (Michel Maffesoli, Homo Eroticus, 1990). As aulas são um “fenómeno social total” (Marcel Mauss). Dar aulas, mais do que uma profissão e do que uma vocação, é uma arte. E a universidade, para além do saber intrínseco das disciplinas, deve prodigar cultura e, mais do que saber, sabedoria. É esse o seu batismo.
A interação na sala de aula é decisiva. Caracteriza-se pela abertura; e a abertura pelo imponderável. Nunca se está suficientemente seguro, dotado ou atualizado. Uma boa cultura geral só pode ajudar. Não há apontamentos nem apresentações que valham, que consigam antecipar e dominar os tópicos e os desvios não só previsíveis mas também potenciais. Auxilia possuir um bom acervo de recursos mobilizáveis, ao mesmo tempo adequados e oportunos. Alguns, se possível, da própria autoria do professor ou, inclusivamente, dos alunos. Convém, enfim, ser bom marinheiro. Quando se navega em águas dispersas, com vários mapas e bússolas, torna-se vital a gestão das âncoras. A abertura e eventual dispersão não dispensam a tensão da compressão, querem-se minimamente articuladas, encadeadas e regularmente sintetizadas. De outro modo, corre-se o risco de se perderem alunos e professores. Por mais originais que as aulas se desejem, cumpre-lhes respeitar os objetivos e os conteúdos programáticos da disciplina.
Este tipo de aula expõe-se a uma espécie de penalização indireta. Os procedimentos e os formulários da avaliação passam ao largo da sua especificidade e do seu valor. Com o professor Leandro de Almeida e demais colegas do Grupo de Missão para a Qualidade do Ensino-Aprendizagem, participei na elaboração do primeiro questionário de (auto)avaliação da Universidade do Minho. Tivemos a preocupação de contemplar várias dimensões consistentes, mediante análises fatoriais, testes e benchmarking. Um instrumento desta índole nunca é perfeito. Sofreu, desde então, alterações significativas. Tornou-se mais unidimensional, com itens mais abrangentes e menos incisivos, com ênfase na vertente administrativa e disciplinar em detrimento da formativa e pedagógica. O que ganhou, porventura, em operacionalidade perdeu em validade. Em suma, passa um pouco a leste da inovação pedagógica e do cabo da Boa Esperança.
Estas aulas são, sem dúvida, uma anomalia! Por isso, tenho tantas saudades delas. Eram a modos como o meu desporto favorito. O meu desporto atual é mais solitário, pouco interativo, menos exigente, menos desafiante e menos empolgante. Estou a falar deste blogue.

Liber ethicorum des Henricus de Alemannia. Scena – Henricus de Alemannia con i suoi studenti. Sec. XIV.

Desaprender

Michel de Montaigne (1533-1592).

Estou a escrever um artigo sobre o questionário para inquérito sociológico. A páginas tantas, dei comigo a folhear os Ensaios de Montaigne (1580). Encontrei estas passagens sobre o ensino e a aprendizagem. A deambulação tem destas artes: encontra-se o que não se procura mas que, por sinal, interessa.

Gostaria também que se tivesse o cuidado de lhe escolher um preceptor com a cabeça mais benfeita do que bem recheada (…) Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram (…) Gostaria que ele corrigisse essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começasse a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir. Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar (…) A autoridade dos que querem ensinar é, no mais das vezes, nociva para os que querem aprender (Michel de Montaigne, 1580. Ensaios. Livro I, Sobre a educação das crianças).


Que o preceptor faça o menino tudo passar pelo próprio crivo e que nada aloje em sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Que os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, não mais que os dos estoicos ou dos epicuristas; que lhe proponham essa diversidade de julgamentos e ele escolherá, se puder, do contrário permanecerá na dúvida.
Che non men che saper dubbiar m’aggrada / E, não menos que saber, duvidar me agrada (Dante, Inferno, XI, 93) (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XXV: Sobre a Educação das crianças).

Michel de Montaigne. Essais de Morale. 1580

Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto. Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII: Sobre a experiência).

Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há grande escassez. O principal e mais famoso saber de nossos séculos não é saber compreender os sábios? Não é essa a finalidade comum e última de todos os estudos? Nossas opiniões enxertam-se umas nas outras. A primeira serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalamos, degrau a degrau. E resulta que quem sobe mais alto costuma ter mais honra do que mérito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os ombros do penúltimo (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII. Sobre a experiência).

É só nossa fraqueza individual que faz que nos contentemos com o que outros ou nós mesmos encontramos nessa caça ao conhecimento: um mais hábil não se contentará. Há sempre lugar para um sucessor, e até para nós mesmos, e um caminho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está no outro mundo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si mesmo. Sempre se empenha em ir mais longe e vai além de suas forças. Seus impulsos vão além de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se choca e se revira, só está vivo pela metade. Suas buscas não têm término nem forma. Seu alimento é o espanto, a caça, a incerteza (Michel de Montaigne. Ensaios. Capítulo XIII: Sobre a experiência)

Vem mais ou menos a propósito a música Mon ami, mon maître, de Serge Lama, um cantor francês.

Serge Lama. Mon ami, mon maître. D’aventures en aventures. 1968. Ao vivo: Bercy 2003.

Deambulação

Caravaggio. Adoração dos pastores. 1609.

Raramente encontro o que procuro. Também não armazeno. Tenho as redes folgadas. Nada como parar de procurar. Deambular pelos labirintos. Andar sem destino com pés estrábicos. Ouvir música, por exemplo. Diferente, de preferência. Cativam-me duas músicas, Qui creavit coelum (anónimo) e Nesciens mater (Jean Mouton), do álbum Christmas Music From Medieval And Renaissance Europe. Para não fechar os olhos, escolho a Adoração dos Pastores, de Caravaggio. Sabe bem reencontrar o que já se tem.

Qui creavit coelum (Anónimo) Christmas Music From Medieval And Renaissance Europe. The Sixteen feat. director: Harry Christophers. 1987
Nesciens mater (Jean Mouton) Christmas Music From Medieval And Renaissance Europe. The Sixteen feat. director: Harry Christophers. 1987

O baloiço

O projecto Quem somos os que aqui estamos surgiu no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Visa o estudo das freguesias de Melgaço: iniciou em 2018, com as freguesias de Parada de Monte e Cubalhão; em 2019, foi a vez das freguesias de Prado e Remoães. O projecto prevê, para cada freguesia, as seguintes actividades e resultados: fotografias faladas; uma exposição de fotografia documental; um catálogo dedicado à exposição de fotografia documental; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; uma exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares; e uma publicação (um livro).

“Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto é coordenado por Álvaro Domingues, tem produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante”.

O Daniel Maciel escolheu para uma das fotografias faladas O Baloiço, com Celina Ribeiro, por sinal, minha tia. Comprova-se que houve mulheres emigrantes que gostaram de viver no estrangeiro; regressaram a Portugal um pouco contrariadas. Mas existem outras fotografias faladas, igualmente interessantes, na página Lugar do Real: http://lugardoreal.com/.

Em Julho de 2019, foi lançado o livro Pedra e Pele respeitante às freguesias de Parada do Monte e Cubalhão. No dia 20 de Outubro, foi a vez do livro Quem fica, da autoria de João Gigante, com textos de Álvaro Domingues e Albertino Gonçalves. Segue a fotografia falada O Baloiço e uma pequena galeria de fotografias do João Gigante.

O Baloiço, com Celina Ribeiro. Produção: AO NORTE. Agosto 2019.

Conversa sobre investigação

Convite: O ofício do investigador: aprender com a prática

Sexta, dia 1 de Março, vou partilhar experiências graças às quais melhorei a arte de investigar. Com uma vintena de projectos concluídos, algo se aprende. As histórias contadas não aparecem nos manuais. Pouco valem se as procuramos nos livros. São histórias que remetem para a vida e as suas contingências. Sexta, às 17:30, é uma data ingrata. Para muitos, já é fim de semana, tempo para voar noutras paragens. Acresce que estas conversas não dão pontos no pinball da intelligentsia académica.

Modernidades

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946.

Quanto mais observo a sociedade, menos leio os sociólogos. Dizem que somos pós-modernos… Quando saio de casa, saio da modernidade e quando entro na universidade, na modernidade entro. Duvido que tenha existido algures universidade mais moderna do que a actual. Não sou um incondicional do Jurgen Habermas (O Discurso filosófico da modernidade, 1988), do Anthony Giddens (As consequências da modernidade, 1990), nem do Gilles Lipovetsky (Os tempos hipermodernos, 1985), mas atrai-me a ideia de a pós-modernidade não passar de uma faceta, de uma das máscaras, da hipermodernidade ou da modernidade tardia. Para complicar, duvida-se que tenhamos sido modernos…

“A modernidade jamais começou. Jamais houve um mundo moderno. O uso do pretérito é importante aqui, uma vez que se trata de um sentimento retrospectivo, de uma releitura de nossa história. Não estamos entrando em uma nova era; não continuamos a fuga tresloucada dos pós-pós-pós-modernistas; não nos agarramos mais à vanguarda da vanguarda; não tentamos ser ainda mais espertos, ainda mais críticos, aprofundar mais um pouco a era da desconfiança. Não, percebemos que nunca entramos na era moderna. Esta atitude restrospectiva, que desdobra ao invés de desvelar, que acrescenta ao invés de amputar, que confraterniza ao invés de denunciar, eu a caracterizo através da expressão não moderno (ou amoderno)” (Latour, Bruno, Jamais fomos modernos, São Paulo, Editora 34, 1994, p. 51).

M.C. Escher. Devils. 1950.

M.C. Escher. Devils. 1950.

Pensar deste jeito baralha-me. Não obstante esta encruzilhada baptismal, estimo que o anúncio Les Français et la route, da Sécurité Routière, corresponde a um discurso moderno. Obra de uma burocracia, evidencia uma narrativa linear, com princípio, meio e fim. O objectivo, assumido, é claramente conseguido e o desempenho devidamente medido. O projecto engloba subprojectos calendarizados, articulados e hierarquizados. Eficaz, convoca e vence os obstáculos mais ou menos bárbaros: os recalcitrantes e os inconscientes. Em suma, a acção, que visa a sensibilização dos cidadãos, é racional. Ao contrário do que sustenta Michel Crozier (On ne change pas la société par décret, Paris, Fayard, 1979), com autoridade, razão e técnica, não é impossível mudar a sociedade por decreto.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

Em voz baixa, posso ousar uma confissão. Ao arrepio do comando e do primado epistemológico da teoria, nas minhas investigações concretas, as teorias da pós-modernidade, da modernidade líquida, da modernidade tardia e da hipermodernidade de pouco préstimo se têm revelado. Têm sido úteis para quase nada. São faróis que não me ofuscam. Tenho um defeito de estimação: durante a investigação, não sirvo a teoria, sirvo-me dela. Nesta perspectiva, encaro o “estado da arte” e a “revisão da literatura” como rituais de iniciação e, porventura, de menorização do investigador. Capacitar-se teoricamente é tarefa sem início nem fim, onde cabem, eventualmente, o estado da arte e a revisão da literatura. A  reflexão teórica quer-se activa e criativa. Reconfesso: nunca a actividade científica me pareceu tão burocrática como hoje. E ainda pedem mais! Os críticos da burocratização da ciência Pitirim A. Sorokin (Fads and Foibles in Modern Sociology, 1956), C. Wright Mills (A imaginação sociológica, 1959) e Alvin Gouldner (Anti-Minotaur: The Myth of Value-Free Sociology, 1964) não concebiam, há meio século, tamanha teia burocrática. O cientista move-se, cada vez menos, pela vocação (Max Weber, A ciência como vocação, 1919) e cada vez mais pelo rendimento. Torna-se mensurável. Proletariza-se. Às voltas com metas e milestones.

O anúncio da Sécurité Routière, bem conseguido, aposta na eficácia. Oferece ao público um efeito de espelho. Assinalar, legitimar, disciplinar, eis uma tríade que mais que moderna, é simplesmente humana.

Marca: Sécurité Routière. Título: Les Français et la Route. Agência: La Chose. França, Maio 2018.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal

Ousar pensar

Dare to think! Rebell against the ordinary! The journey is the all point. A Universidade de Ghent, na Bélgica, está em 125º lugar no QS World University Ranking. O anúncio Dare to think é criativo e persuasivo. Pelos vistos, a Universidade de Ghent não perfilha as nossas confusões estratégicas: centra-se nos estudantes. O que anima e sossega. Virá um dia em que muitas universidades funcionarão sem estudantes, cingindo-se a investigadores, professores, burocratas e parceiros. Outro dia virá em que as universidades serão um formigueiro de investigadores sem descobertas científicas. A escrita é uma terapia, um ribeiro que corre contra as fragas de cascata em cascata. Umas vezes, refresca, outras, magoa.

Marca: Ghent University. Título : Dare to think. Agência : Mortierbrigade Brussels. Direcção: Tom Willems. Bélgica, Março 2018.