Bandas sonoras: Stephen Warbeck
Já lhe aconteceu ver um filme para ouvir sobretudo a música? Porventura o Laranja Mecânica (de Stanley Kubrick, 1974) ou o português Capas Negras (de Armando de Miranda, 1947), com a Amália Rodrigues. E ver um filme para ouvir música e relaxar? Talvez O Rei e o Pássaro (de Paul Grimault, 1980), um regalo para o olhar e os ouvidos.

Stephen Warbeck, inglês, nascido em 1953, é um compositor de música para filmes e séries de televisão. Ganhou o óscar de Melhor Banda Sonora Original Musical ou Comédia, pelo filme A Paixão de Shakespeare (1998), bem como outros prémios: BAFTA, BMI, Cannes, European Film Awards, Ghent e Grammy. Compôs mais de trinta bandas sonoras para filmes e séries televisivas.
Os anjos também emigram

Marta Carvalho participou no vídeo musical Talk It Out, de Neil Avery & Nigel Planer, estreado ontem, dia 10 de Outubro, por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental 2019. Marta interpreta o papel de uma espécie de anjo que ajuda um homem desesperado.
Marta foi aluna do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho. Atriz experiente, partiu, há alguns anos, para Inglaterra, onde prossegue uma carreira notável.
Não é de lamentar que os portugueses emigrem em busca do sucesso. Pior seria mantê-los pasmados na sua terra natal. Assuma-se a verdade: quem parte não vai para o inferno, e, por estes lados, ainda não saímos do purgatório. Portugal é um bom país: cheio de oportunidades para quem se aproveita; o melhor do mundo para quem gosta.
Amor em tempo de feira

“Scarborough Fair” é uma balada britânica de origem medieval em que uma pessoa pede à pessoa amada proezas impossíveis. Um tema recorrente no universo dos contos. Scarborough é uma cidade que tinha, na Idade Média, uma das feiras mais importantes de Inglaterra. Segue a balada em duas versões: instrumental clássica, interpretada por Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra); e canção pop, interpretada por Simon e Garfunkel. Pode encontrar a letra e a tradução da balada neste endereço: https://pt.wikipedia.org/wiki/Scarborough_Fair .
Simplesmente só

Não existe pior solidão do que aquela que nasce da indiferença dos outros (Martin Gray, Le livre de la vie, 1973).
Não desgosto da solidão. Preencho-a com tudo e com nada. Bem cuidada, a solidão seduz. O meu luxo é estar só no meio da multidão. A minha solidão é uma alternativa, não é uma fatalidade. Mas a maioria das pessoas sós não consegue escapar à solidão. Um inquérito promovido, em 2014, pela Fondation France, revela o seguinte:
«Um em cada oito franceses está só: em 2014, a solidão afecta 5 milhões de pessoas, um fenómeno que se agravou sobretudo entre os mais idosos, embora já não poupe os mais jovens (…) Existe mais um milhão de franceses do que em 2010 a não ter relações sociais no âmbito das cinco redes de sociabilidade (familiar, profissional, de amigos, de afinidade ou de vizinhança) (…) Se um em cada oito franceses se encontra hoje só, um em cada três corre o risco de ficar só (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html).
Em Inglaterra, a solidão é encarada como causa de morte precoce. Em Janeiro de 2018, foi criado o Ministério da Solidão. Portugal já tem um Observatório da Solidão (Obsolidão, no ISCET). Os portugueses não se podem queixar de falta de observação.
Do Reino Unido, vem, também, o anúncio Just Another Day, da Age UK. Incisivo! Um idoso, de boa condição social, autónomo e rodeado de pessoas, vive numa solidão despojada, sem assistência robótica nem companhia à distância. Repare-se na opção do realizador pela repetição das situações e dos gestos, repetição que enfatiza o peso da rotina e da circularidade na experiência da solidão.
Gosto de, alheio às regras da boa argumentação, alinhar disparidades. A ópera Madama Butterfly (1904), de Giacomo Puccini, aborda a solidão. Butterfly é uma jovem japonesa que casa com Pinkerton, oficial da marinha norte-americana. Pinkerton parte para os Estados Unidos, onde permanece vários anos sem dar notícias. Regressa um dia, acompanhado pela esposa americana. Butterfly suicida-se. “Com honra morre quem em honra não pode viver””. O “coro à boca fechada” embala esta tragédia.
Hoje, estou mais só. O gato desapareceu há quatro dias. Sente-se a sua falta nas mais pequenas coisas. Não podia, por exemplo, trabalhar no escritório com a porta aberta. O gato cultivava uma atracção pelos papéis e pelos fios. Sempre que o expulsava, esboçava um movimento para sair, mas reconsiderava e enfiava-se, majestoso, no cesto do lixo. O ritual era sempre o mesmo: pegava no caixote com sua excelência e colocava-o no exterior. Às vezes, volvidos alguns minutos, o gato continuava a ronronar no seu berço de palha. Dedico este artigo ao meu gato.
Pompa e Circunstância 1
Cansado. Até dar aulas cansa. Dispenso letras e números. Talvez música. Um concerto de música clássica que pareça um concerto de música popular. Edward Elgar? A Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória), de 1901. Os ingleses têm destes arrebatamentos com carga nacionalista. Não desligue antes do segundo minuto.
Elgar. Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória). Proms 2012. BBC Synphony Orchestra. Royal Albert Hall, 8 de Setembro de 2012.
A Cadeira de patinhar
É no vazio do pensamento que o mal se instala” (Hannah Arendt).
Nós somos bons a fazer o mal. O Marquês de Sade não é um caso isolado. Qualquer dúvida evapora-se com uma visita a um museu, ou exposição, de instrumentos de execução ou tortura. Por exemplo, o Museu da Tortura de Amesterdão. Saimos estarrecidos com tanto engenho, imaginação e requinte em matéria de sofrimento e morte.
Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, durante os reinados de Isabel I e Jaime I, a bruxaria foi severamente perseguida. Recordem-se, do outro lado do oceano, as “bruxas de Salém (1692). Além da fogueira e da forca, pontificavam inúmeros recursos disciplinares. Por exemplo, the ducking stool, a “cadeira de patinhar”. Sentada e suspensa numa cadeira, a mulher acusada de bruxaria, de prostituição ou de outros crimes era mergulhada, repetidamente, na água. Tratava-se de um teste que, devidamente interpretado, pode resultar no seguinte dilema: se a mulher afogar, é inocente; se não afogar, é culpada e castigada em conformidade. Tratava-se, também, de mais um método de execução e humilhação pública. Em local exposto, o público não se fazia rogado. Constituía um espectáculo! Um espectáculo do poder! De quem detém a responsabilidade e legitimidade de vigiar, julgar e punir.
O francês François Maximilien Misson, viajante por terras de Inglaterra no final do século XVII, faz a seguinte observação:
“Na Inglaterra, a maneira de castigar as mulheres desordeiras e depravadas é bastante engraçada. Atam uma cadeira de braços à extremidade de duas traves, de quatro ou cinco metros de comprimento, paralelas uma à outra, de modo a que estes dois pedaços de madeira abracem, nas duas extremidades, a cadeira, que se encaixa entre eles sobre uma espécie de eixo, o que significa que se movem livremente permanecendo a cadeira sempre na posição horizontal, o que permite que a pessoa esteja convenientemente sentada nela, tanto a subir como a descer. Erguem um poste na margem de um lago ou de um rio, e, sobre este poste, põem em equilíbrio os dois pedaços de madeira, sendo que numa das extremidades a cadeira fica suspensa sobre a água. Colocam a mulher na cadeira e submergem-na na água, o número de vezes que a sentença o estipular, de modo a arrefecer o seu calor imoderado” (Misson, François Maximilien, 1698, Memoires et observations faites par un voyageur en Angleterre, La Haye,Henri van Bulderen,Marchand Libraire,p.41).
Algumas vezes o “calor imoderado” da vítimas arrefecia definitivamente.
“Em alguns casos, o castigo era levado ao extremo de causar a morte. Um antigo texto, sem data, intitulado “Strange and Wonderful Relation of the Old Woman who was Drowned THE DUCKING-STOOL. 5 at Ratcliff Highway a fortnight ago”, relata que “a pobre mulher foi mergulhada demasiadas vezes; concluída a operação, foi encontrada morta”” (Andrews, William, 1890, Old-Time Punishments, London, Simpkin, Marshall, Hamilton, Kent & Co., p. 5).
Nestes sobressaltos de crime e castigo, de efervescências e “calores imoderados”, de tanto aparato, não cabe o demónio? Desencante-se quem pensa que o diabo não anda nos corredores da polícia e da justiça. Estes actos sacrificiais configuram ritos de esconjuração. Atente-se no seguinte testemunho:
“A duckingstool mantinha-se permanentemente pendurada no seu lugar e na parte de trás, junto às acusações, estavam gravados diabos, etc. Algum tempo depois, uma nova cadeira foi erguida no lugar da antiga, com os mesmos apetrechos esculpidos, bem pintados e ornamentados. Quando a nova ponte de pedra foi erguida, em 1754, a cadeira foi retirada” (Hole citado por Willam Andrews (1890. Old-Time Punishments, op. cit, p. 9).
E nós, (pós)modernos, pioneiros do terceiro milénio e herdeiros de séculos de civilização, declinamos ou não o espectáculo da violência, do crime e do castigo? Na verdade, já não acorremos, a toque de tambor, às execuções públicas. E se for a toque de ecrã? Porventura, um telejornal indignado ou uma série CSI? Talvez não sejamos multidão apinhada à volta do patíbulo, mas somos opinião pública, audiência, que não dispensa nem o “sofrimento à distância”, nem as emoções confortáveis. Violência, carrascos e vítimas, cada vez mais alheios, cada vez menos estranhos.
“Paralelamente à eliminação do espectáculo dos actos de tortura, assistimos, por compensação (…), à proliferação de imagens mediatizadas de cenas de violência. Estas, longe de nos tocarem como pretende ser por vezes o seu propósito explícito, levam-nos a pactuar de modo crescente com a sua banalidade e com uma indiferença que a imagem introduz (…) ao interpor-se entre nós e o real, distanciando-o” (Carvalho, Adalberto Dias de, 2010, “Da violência como anátema à educação como projecto antropológico”, in Henning, Leoni & Abbud, Maria (orgs.), Violência, indisciplina e educação, Londrina, online, 19-25, p. 21).
Dentes caninos
Apetece-me desconversar. Os anúncios requerem atenção. Entrevi, distraído, o British Teeth, da Greenies, e retive o seguinte: Se não quer ter british teeth, como os seis exemplares exibidos, se aspira a uma dentadura completa, brilhante e alinhada por dentro e por fora, por cima e por baixo, converta-se à comida para cão. Faz bem aos animais, incluindo o burro, cujos dentes mordem como uma faca quente em manteiga fria. Revi o anúncio e fiquei com outra impressão: se deseja diferenciar-se do seu cão, dê-lhe Greenies. Advirá um contraste dental. Se não quiser parecer-se com o seu cão, coma e ria como ele. Em suma, um excelente anúncio, desenvolto e criativo.
Marca: Greenies. Título: British Teeth. Agência Adam & Eve DDB (London). Direcção: Sam Hibbard. USA, Janeiro 2017.
Vem a despropósito A Salty Dog (um lobo do mar) dos Procol Harum. Tocaram em Cascais em 1973. Em maré de albergue espanhol, acrescente-se A Whiter Shade of Pale, o maior sucesso da banda. Na discoteca ou no baile, quando tocava A Whiter Shade of Pale, todos, raparigas e rapazes, ficávamos mais atraentes.
Procol Harum. A Salty Dog. Live German TV. 1971.
Procol Harum. A Whiter Shade of Pale. 1967. Filme de promoção.
Pintar o campesinato: o Luttrell Psalter
À São.

Luttrell Psalter
Faço parte duma equipa do CECS (Centro de Estudos Comunicação e Sociedade) que está a investigar a Festa da Bugiada, de Sobrado. Uma das componentes da festa contempla várias “danças” e representações relativas à “vida no campo”. Alguns traços parecem ser muito antigos. Demandei, assim, músicas, danças, imagens e relatos medievais.
O Luttrell Psalter (cerca de 1325-1335), encomendado por Sir Geoffrey Luttrell, sobressai entre os livros iluminados medievais pela criatividade e pela originalidade. Ao longo das 309 páginas em pergaminho, sucedem-se imagens sagradas, monstros híbridos e cenas da vida quotidiana, sobretudo, agrícola.
Fiz, há algum tempo, uma apresentação com uma selecção de páginas do Luttrell Psalter. Foi difícil encontrá-las e combiná-las em forma de livro. Para fazer download (13,4Mb) da apresentação (imagem e música), carregar no seguinte endereço:
Acrescento uma galeria de imagens do Luttrell Psalter dedicadas à vida campestre.
O burro e a violência doméstica
Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.
Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.
Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.
Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).
Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Com Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.











