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Violência e desporto

Canon Come and see“Um dia, hei-de produzir uma curta-metragem sobre dois amigos, os maiores amigos, que começam a lutar a brincar e acabam a lutar até à morte” (AG).

O ser humano não é imune à violência. E não há vacinas. Tem que lidar com ela. Se o souber fazer, tanto melhor. E quando alguém garante que quer acabar com a violência, isso significa que pretende, de facto, deter, segundo a expressão de Max Weber, o monopólio da violência legítima.

“ É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue.” (Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969)

O confronto desportivo violento retratado no magnífico anúncio Come and See, da Canon, é uma réplica do “calcio” medieval, uma prática disseminada em vários países da Europa. Em Inglaterra tinha várias designações: football, camp ball, hurling

“Nestes jogos, a bola era carregada, lançada e golpeada com pauladas e chutes. As partidas eram jogadas da mesma forma pelas ruas da cidade e nos campos. O número de jogadores variava, não estava formalmente restringido, e algumas vezes superava os milhares. Não havia igualdade no número de participantes de cada grupo. As regras eram oral e localmente definidas – em oposição às escritas, padronizadas e sancionadas por um órgão de governo, central” (Dunning, Eric, citado em Boschilia, Bruno, Futebol e Violência em Campo, dissertação de mestrado em Educação Física, Universidade Federal do Paramá, Curitiba, 2008, pp. 65-66).

“Durante séculos este jogo foi em muitas regiões do país o passatempo favorito das pessoas, uma forma de se divertirem com uma bola de futebol, quer se verificassem ou não ossos partidos e narizes ensanguentados, embora para as autoridades isso fosse considerado um comportamento anti-social (…) Algumas pessoas eram multadas ou enviadas para a prisão por participarem nestes jogos desenfreados. Talvez o costume tivesse desaparecido aqui ou acolá durante um certo tempo. Se assim era, continuava noutros lugares. O próprio jogo excitante não morrera” (Elias, Norbert & Dunning, Eric, A busca da excitação, Lisboa, Difel, 1992, p. 260).

Marca: Canon. Título: Come and See. Gladiatorfootball. Agência: JWT. Direção: Jonathan Glazer. UK, Setembro 2014.

Apetece-me terminar com uma provocação. Quando quero alfinetar os colegas ou os alunos, confidencio que tenho aprendido mais sociologia com alguns romances do que com a maioria dos livros da especialidade que me foi dado ler. E agravo a situação, dando alguns exemplos: a Educação Sentimental (1869), de Gustave Flaubert; Em busca do tempo perdido (1913-1927), de Marcel Proust; A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann… Pois, agora, encontrei uma nova provocação. Sinto-me mais induzido a sondar os fenómenos sociais graças aos anúncios publicitários do que graças aos artigos da especialidade, com ou sem factor de impacto. Dir-me-ão que o que conta não é a embalagem mas a cabeça que a molda e que a preenche. Também me parece.

Boba

Boba? Pensava que os bobos eram como os padres: só no masculino. Não é que me preocupe com bobos, a não ser os bobos da corte que se riem de nós, bobos de terceira classe. Afinal, há bobas! Aparecem em gravuras e pinturas (figuras 1 e 2). Algumas bobas  ficaram célebres.

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

A gravura de Hans Sebald Beham, The Fool and the Lady Fool (c. 1540), com um casal de bobos, despoletou esta indagação. Para quem não é como São Tomé, eis uma evidência a considerar. Mas, pelos vistos, bobas não faltam. Jane Foole, também conhecida com The Queen’s Fool, foi boba da corte inglesa, nomeadamente das rainhas Catherine Parr e Maria I de Inglaterra. Em França, a boba mais famosa foi Mathurine, ao serviço, no séc. XVII, dos reis Henrique III, Henrique IV e Luís XIII.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

No retrato da família de Henrique VIII (c. 1545), pode-se ver, no lado direito, o bobo e, no lado esquerdo, a boba.

Aborrecimento de morte

Até a morte, no seu trono, se aborrece.

Thomas Rowlandson. The English Dance of Death. 1815