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A solidão das massas e a agressão introvertida

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

La sujecion se hace cada vez mas hermetica Y no quiere la comunicacion. Lo contrario del hermetismo es la apertura, pero la mayorfa de las veces lo demoniaco no se expresa, sino que estalla solo de modo atavico. Y no en palabras; su manifestacion mas simple y frecuente, una manifestacion creadora de monstruosidades, no es ni siquiera, como podna pensarse por razon de la interioridad, individual, ni tiene lugar en torno a tales personas singulares, sino que es arrebato de las masas, si bien un arrebato provocado, en la mayoria de los casos, por estas mismas personas. Es un arrebato que va desde el frenesi de las bacantes, de los berserker, hasta los pogromos de los cruzados y hasta la agresion invertida de los flagelantes, desde la embriaguez de la batalla hasta el terror bianco. En todo ello lo demoniaco no hace uso de la comunicacion, ni siquiera cuando penetra en la masa, cuando se hace colectivo. El viejo hermetismo se conserva, mas bien, en su estallido colectivo; lo que aparece como comunicacion es solo contagio, y en el fondo se encuentra la misma soledad como masa. La no-revelacion de lo herme’tico responde en el arrebato demoníco de la masa a la ausencia fundamental de entendimiento, critica, autocontrol y juicio” (Bloch, Ernst, El Princípio Esperanza, 1954. Madrid, Editorial Trotta, 2007, Vol. III, p. 78.)

Segundo o meu rapaz mais novo, os Monty Python têm um humor actual. Como argumento, envia-me vários excertos, entre os quais o episódio da caça à bruxa no filme Em Busca do Cálice Sagrado (1975).

Tenho o vício de visitar os clássicos. São os clássicos, a cerveja e o tabaco. Pensaram as mesmas coisas que nós pensamos. Com mais serenidade. Com tanta velocidade, o cérebro, hoje, estampa-se. Para Ernst Bloch, a submissão contemporânea é  hermética e avessa à comunicação. Não aposta na pessoa e a na subjectividade mas no arrebatamento  colectivo. A explosão colectiva não convoca a comunicação mas o contágio. “A solidão das massas” (Hannah Arendt, As origens do totalitarismo, 1951) é caracterizada pela “ausência fundamental de entendimento, crítica, autocontrole e julgamento”. Assim sucede com os flagelantes e os “caçadores de bruxas”. Nos primeiros, o ritmo, o coro e a “agressão introvertida” exilam a reflexividade e a originalidade. Outrora como agora. Nos segundos, o arrebatamento da besta colectiva nem sequer precisa da intervenção do diabo para julgar e matar a bela feiticeira (ver A cadeira de patinhar). Comparar é uma tentação. No presente, também existem colectivos semelhantes: a praxe, as claques, os concertos musicais, os deputados durante a votação do orçamento e, não sei porquê, os coletes amarelos, tão diferentes dos coletes salva-vidas.

O humor dos Monty Python persiste porque é único. Numa cascata de absurdos, atropelam-se duas formas de grotesco: o cómico regenerador e o sinistro corrosivo. As nossas bocas abrem-se de riso e fecham-se de desconforto. Neste exercício de maxilares, os neurónios escaldam e gelam quase ao mesmo tempo.

Monty Python. Em busca do cálice sagrado. 1975

Ousar pensar

Dare to think! Rebell against the ordinary! The journey is the all point. A Universidade de Ghent, na Bélgica, está em 125º lugar no QS World University Ranking. O anúncio Dare to think é criativo e persuasivo. Pelos vistos, a Universidade de Ghent não perfilha as nossas confusões estratégicas: centra-se nos estudantes. O que anima e sossega. Virá um dia em que muitas universidades funcionarão sem estudantes, cingindo-se a investigadores, professores, burocratas e parceiros. Outro dia virá em que as universidades serão um formigueiro de investigadores sem descobertas científicas. A escrita é uma terapia, um ribeiro que corre contra as fragas de cascata em cascata. Umas vezes, refresca, outras, magoa.

Marca: Ghent University. Título : Dare to think. Agência : Mortierbrigade Brussels. Direcção: Tom Willems. Bélgica, Março 2018.

Animais

pedigree_first-days-outAssusta-me, mas assusta-me mesmo, o modo como o Estado e as organizações para-estatais se insinuam na privacidade das famílias e na intimidade das pessoas. Não sei se é doença infantil do totalitarismo ou biopolítica (Michel Foucault; Giorgio Agamben). Será que há quem olhe para as pessoas e veja animais? Não cheira a cravo, nem a canela, cheira a Hitler e a Estaline. Este azedume decorre do anúncio de novas imagens nas embalagens de tabaco? Talvez… De notícias de almas boas que corrigem almas más está o inferno cheio. No Jornal Público, de hoje, 12/05/2015, junto ao título “Maços de tabaco vão ter imagens de caixões de crianças”, destaca-se a notícia “Comportamento: Projeto aposta na parentalidade positiva para combater perturbações logo na infância”. No corpo do jornal, na página 8, o título é mais sugestivo: “E se houvesse uma “vacina” para os problemas de comportamento?”

Publico_Porto-20150512

Por falar em animais, há animais, em fábulas, filmes e anúncios, com efeito mais humano do que os humanos. Este anúncio brasileiro alonga-se (3:51) a contar a história de dois reclusos, acabados de sair da prisão, que se reintegram na sociedade graças à adoção de dois cães. Ao contrário da emoção sobressaltada, esta é tranquilamente garantida.

Marca: Pedigree. Título: First Days Out. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Ricardo Mehedff. Brasil, Maio 2015.

Acariciar o desejo

Greene King

Há anúncios que surpreendem. Não precisam de ser bons para ser os melhores. Um solo de bateria e um gole de cerveja! Nem mais, nem menos. E, contra a corrente, um trago solitário. Os anúncios de cerveja convocam, normalmente, grupos de amigos em partilha festiva. Este, nem por isso. A cerveja convida, por instantes, o espectador seduzido: “só tu e eu, num momento íntimo de prazer.” E assim se acaricia o desejo.

Marca: Greene King. Título: King Snare. Agência: Grey. Direcção: George Belfield. UK, Novembro 2014.