Tudo bem?
Em Portugal, uma média de três pessoas morrem por suicídio todos os dias. No entanto, sendo um dos tabus mais profundos da sociedade, a morte (especialmente a autoinfligida) raramente é discutida. Não se fala sobre ela.
O suicídio existe na nossa realidade quotidiana, muitas vezes despercebido, enquanto nos esquecemos de que criar espaço, iniciar conversas e prestar atenção é uma responsabilidade partilhada.
Todos os dias, depois de um simples olá, perguntamos “Tudo bem?” – sem esperar pela resposta. É neste breve e quotidiano momento que devemos aprender a parar, a ouvir e, finalmente, a fazer as perguntas difíceis – aquelas que podem mudar vidas.
Este foi o ponto de partida da campanha: criar espaço para um tema fragmentado e desconfortável na conversa do dia a dia. Com o lançamento do 1411 (a primeira linha de apoio nacional de prevenção do suicídio em Portugal, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana), a campanha reformulou a prevenção como uma responsabilidade social coletiva. (https://www.adsoftheworld.com/campaigns/esta-tudo-bem).
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Empecilhos
Problemas com empecilhos? Experimente tirar-lhes as pilhas!
Irritação

Quem não se sentiu indefeso e frustrado perante a solicitude de um atendedor automático? Exemplo de modernidade avançada, substituto racional do ser humano, arrisca irritar pela sua inflexível impessoalidade lógica. Também pouco amigável, o anúncio Costumer Service Hell assume-se demorado e desmembrado. Mas a repetição, a desorientação e a perda de tempo fazem parte da mensagem. Trata-se de uma demarcação.
Comunicação e alienação
A crescente autonomia deste receptor lembra-nos que o mais difícil na comunicação não é a mensagem nem a técnica, mas o outro . O desafio da comunicação continua sendo a apreensão – e a gestão – da alteridade. (…) Esta omnipresença da alteridade revela a importância da incomunicação que se torna, de certa forma, o horizonte da comunicação. (Dominique Wolton, “Conclusão. Da informação às ciências da comunicação”, in HERMÈS, LA REVUE, 2007/2 (n° 48) , pp. 189-202)

Martin Scorsese, além de filmes, também realiza anúncios publicitários. Hello Down There, para a empresa norte-americana de hospedagem e criação de sites Squarespace, foi lançado durante o Super Bowl, o principal momento da publicidade a nível mundial. Aborda a dificuldade de comunicação entre os alienígenas do espaço e os alienados da Terra.
Insensibilidade

See Me / Feel Me / Touch Me / Heal me (The Who. Tommy. 1969).
Corpo ausente, câmara fria / Laços líquidos, passos perdidos / Memória leve, exílio forçado / Ponte quebrada, rio seco / Vazio social. Alguém consegue ver, sentir, tocar, cuidar? Always listening to you!
The Who, 43 anos após a estreia da ópera-rock Tommy.
De braço dado com a solidão

Avec le temps, va, tout s’en va (…) Avec le temps, va, tout va bien (Léo Ferré, 1972).
Fazer-se só
Senti-me só, na infância, “órfão de vivos”, a lutar com heróis de ficção.
Senti-me só, na adolescência, com a “mortificação do eu”, num internato com excesso de alteridade.
Senti-me só, em Paris, exilado numa “multidão solitária”.
Senti-me só, ao regressar, a um ninho que já não era o meu.
Senti-me só, adulto, no trabalho, pela diferença.
Sinto-me só, na reforma, por deixar de ser o que tanto fui.
Senti-me só, na doença, mais de um ano, isolado, sem mobilidade, a perder faculdades, sem interlocutor na procissão das horas, a sorver o pasmo dos ecrãs. Costuma dizer-se que a comunicação e as redes sociais nos fazem companhia. Talvez sim, talvez não. Talvez se reduzam a uma paisagem, paisagem significante da solidão, como em muitas pinturas da melancolia.
Poderei dizer, como Georges Moustaki, que “nunca me senti só com a minha solidão”, que “fiz dela uma companhia”? Nunca estamos sós quando estamos com nós próprios? Este paradoxo nem sempre convence. Existem momentos em que a repetição sufoca o tempo e a memória. Subsiste sempre o risco de nem a nossa companhia desejarmos, da queda em vórtices em que a existência nos pesa e a identidade nos oprime. Nesses casos, a extrema solidão aproxima-se da morte, social ou não.
A solidão fez, portanto, quem sou. Contributo e produto que estimo.
Albertino Gonçalves, Braga, 03 de fevereiro de 2022.

Entre a toma de um medicamento e o pequeno almoço, tenho um tempo morto de 30 minutos. Como rotina, consulto o correio eletrónico. O meu amigo e colega Adalberto Faria insiste num pedido feito há algum tempo a “solicitar uma singela colaboração no [seu] trabalho de campo para um livro a editar sobre a temática «A SOLIDÃO – SOLIDÕES» (…) Gostaria que cada um, consoante a sua experiência, vivência ou opinião, pudesse definir o que pensa do conceito de solidão, entre os vários tipos de solidões, de físicas a psicológicas, e que abranjam na sua diversidade geográfica a urbe e o campo. Aceito um simples parágrafo ou uma conversa com conceitos mais profundos ou complexos”.
O Adalberto soube insistir e o pedido de “um simples parágrafo” foi um argumento feliz. Decidi responder de imediato, para não voltar a esquecer o desafio.
Esbocei mentalmente o texto “Fazer-se só” enquanto tomava o pequeno almoço. Selei-o antes da fisioterapia. Pessoal, alude a diversas formas de solidão: a ausência do próximo, a evasão, a anulação nas “instituições totais”, o desterro, a diluição na multidão, o desencontro e o desaninho, a diferença e a unicidade, a rutura e a descontinuidade, a incomunicação de massas e a desmaterialização das redes sociais, a rotina e a repetição, a reificação e a espacialização do tempo e da memória, o isolamento e a morte social, a crise subjetiva, a desintegração e a alienação do ego. Faltou falar, porque não consigo, da solidão da escrita. Tudo isto coube neste texto raquítico com letras vividas.
Penso que o Adalberto não se importa por eu não ter resistido à tentação de colocar este textinho no arquivo do Tendências do Imaginário.
Seguem três canções, das minhas preferidas, dedicadas à solidão enquanto companhia, destino e erosão da vida: Georges Moustaki, Ma Solitude (1969); Léo Ferré, La Solitudine (1972); e Léo Ferré, Avec le Temps (1972).
Cantar sem voz
À Té.
Não são apenas as grandes marcas que promovem causas, o terceiro sector também o faz, eventualmente, com brio e arte. No anúncio Unsilenced, da associação francesa La Parole Aux Sourds, a imagem, o som, a dança e a mensagem dialogam de um modo ímpar. O resultado é sublime: um bailarino surdo “canta” com gestos… Para pessoas que têm a cabeça do avesso.
“Première en son genre, Unsilenced est un morceau original dont les paroles sont “chantées” dans une combinaison de langue des signes et de danse. La création des paroles et des mouvements a demandé une étroite collaboration entre le danseur Billy Read et le duo electro Haute. Découvrez-en plus sur le projet et soutenez-le sur Unsilenced.fr. » (La Parole Aux Sourds).
Anunciante : La Parole Aux Sourds. Título : Unsilenced. Agência : BETC. Direcção : Alban Coret. França, Março 2018.
A língua dos clones e a língua de Camões
O mundo da imaginação está cada vez mais povoado por clones. E o mundo dos clones, muito limitado na sua perfeição singular, está cada vez mais dominado pelo monoteísmo da língua única. Já aprendemos, em português, que para aceder à inteligência convinha falar inglês. Segundo este anúncio, com o sexo acontece o mesmo. Esta exclusão não teria, certamente, ocorrido no tempo de Luís de Camões e da Ilha dos Amores: “Impossibilidades não façais / Que quem quis sempre pôde: e numerados / Sereis entre os heróis esclarecidos / E nesta Ilha de Vénus recebidos” (Os Lusíadas, canto IX, estrofe 95), sabendo que o que Vénus proporciona “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo / Mal julgue-o quem não pode experimentá-lo” (Os Lusíadas, canto IX, estrofe 83).
Marca: Ccaa. Título: Megan ou Mike. Brasil, Janeiro 2012.

