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O mistério da galinha e a extensão farmacóide

KFC. All Hail Gravy. Março 2025

Se me perguntarem o que faço, qual é a minha principal função atual, não preciso de muito tempo para responder: engolir comprimidos, sobretudo agora que estou a antibiótico (às 02:00, 4; às 10:00, 2; às 11:00, 3; às 13:30, 1; às 18:00, 1; às 21:00, 3). Às segundas, dedico 45 minutos a preparar a medicação para a semana. Lembra uma extensão “farmacóide”. Nesta qualidade de recetáculo de remédios, enquadro-me no regime noturno do imaginário (sobre os regimes diurno e noturno do imaginário, ver Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno). Comprimido a comprimido, enche a galinha o papo!

O anúncio All Hail Gravy, da KFC, também parece remeter para o regime noturno: ambiente fosco, floresta, coletivo tribal, passividade do protagonista, descida, dança ritualística, mistério, fertilidade, ovo, transporte, molho, imersão (batismo?), regeneração… Bom proveito!

Marca: KFC. Título: All Hail Gravy. Agência: Mother. Direção: Vedran Rupic. Reino Unido, março 2025

Mergulhar na irrealidade: a banheira e o chuveiro (revisto)

O toque de Midas dos novos media visa o mergulho experiencial noutros mundos, mais ou menos irreais, estampados eventualessmente em ecrãs. Entre as novas “varinhas mágicas” constam a realidade virtual, as exposições imersivas, como a Living Van Gogh na Alfândega do Porto (2023), e os videojogos FPS (First Person Shooter) como o Half Life (1998). Somos convidados a participar em universos audiovisuais ou multissensoriais (com alterações e estímulos olfativos, táteis, térmicos), de um modo estático (sentados face a um ecrã fixo) ou dinâmico, como nos simuladores do Pavilhão da Realidade Virtual durante a Expo 98, porventura em interação, com o crescente e cada vez mais sofisticado auxílio de interfaces, luvas digitais, óculos estereoscópicos e capacetes de imersão. Em todos os casos, aventuramo-nos a sentir, experienciar, como reais situações ou ações irreais.

O mergulho na irrealidade pode processar-se segundo dois movimentos aparentemente inversos: a projeção e o envolvimento. Por um lado, sintonizamo-nos ou identificamo-nos com elementos do universo proposto: pessoas, humanóides, animais, animações ou objetos. Quanto maior for a semelhança mais fácil a identificação? Nem sempre. O contraste pode favorecer a “simpatia”. Atente-se em figuras como o E.T., o Shrek ou o WALL-E. Por outro lado, o universo proposto interpela-nos, cativa-nos e envolve-nos. No primeiro caso, na projeção, ocorre um efeito banheira; no segundo, no envolvimento, um efeito chuveiro. Frequentemente, projeção e absorção conjugam-se num reforço mútuo (o anúncio Cowboy, da Solo Soda, ilustra este entrelaçamento).

Marca: Solo Soda. Título: Cowboy. Agência: DMB&B. Direção: Les Roenberg. Noruega, 1999

Vem este resumo a propósito da campanha publicitária inaugurada esta semana  pela empresa da Singapura Prism+. No primeiro anúncio, As close as you can get to the concert, mais próximo do “efeito chuveiro”, uma velhinha é arrebatada por uma estrela rock (releve-se o contraste entre as duas personagens); no segundo, As close as you can get to the cooking, mais próximo do “efeito banheira”, um telespetador identifica-se com um perú em vias de ser cozinhado; por último, no terceiro, As close as you can get to the drama, o mais próximo da interação, do duplo efeito de projeção e envolvimento, um casal participa como vítima numa cena de tortura. Ousadia e criatividade a desafiar os limites!

Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the concert. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the cooking. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the drama. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023

Aflição fascinante

Nem sempre se recorre à doçura para cativar o guloso. Por vezes, o isco consiste no inverso: na acidez. É o caso dos anúncios It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff e Scary Fast. O primeiro denuncia o cúmulo, o extremo, da inconveniência associado à absorção alienante provocada pela exposição, quase hipnótica, ao canal de televisão TVZN. O segundo, uma paródia de um thriller de terror, introduz o potente e heroico todo-terreno Ford Raptor R que escapa ileso a uma série de ameaças e perigos diabólicos. Ambos aos anúncios resultam imediata e assumidamente desagradáveis. Esta opção não é novidade. Com receitas e doses apropriadas, a adversidade e a perversidade podem compensar.

Para aceder ao vídeo seguinte, carregar na imagem e ligar o som.

Marca: TVZN+. Título: It’s Free. But it Could Cost You/Wooing Jeff. Agência: Dentsu Creative ANZ (Aotearoa). Direção: Damien Shatford. Nova Zelândia, junho 2022.
Marca: Ford Raptor R. Título: Scary Fast. Agência: Wieden+Kennedy New York. Direção: Lauren Sick. Estados-Unidos, julho 2022.

Pós-modernidade avançada

Meow Wolf. 2021.

Tudo no anúncio Get Out And See The Worlds, da Meow Wolf (https://meowwolf.com/), é grande. Grande a Meow Wolf, “uma empresa americana de artes e entretenimento que cria instalações de arte imersivas em grande escala, bem como produz conteúdo de streaming, vídeos musicais e festivais de arte e música” (https://en.wikipedia.org/wiki/Meow_Wolf); grande a agência de publicidade, a Wieden+Kennedy, uma das melhores do planeta; a produtora Biscuit Filmworks; e o próprio anúncio, dois minutos e meio de imaginação e efeitos especiais. Anuncia-se a inauguração de um gigantesco “parque temático” em Denver, a Convergence Station, com resmas de km2, cenários, artistas, performances, mundos paralelos, alta tecnologia, imersão e emoção. Lembra-me o comboio fantasma da minha infância. Estimo o anúncio e o projeto tão interessantes que, caso regresse às aulas, que penso passa-lo aos alunos como exemplo de recurso à tecnologia, ao fantástico e ao grotesco na era da pós-modernidade avançada.

Marca: Meow Wolf. Título: Get Out And See The Worlds. Agência: W+K PortlandECD. Estados-Unidos, setembro 2021.

Alquimia digital

Guerra das estrelas

Em colaboração com o Fernando.

Pode citar-se uma obra própria sem incorrer em autofagia. Acontece no anúncio Become More Powerful, de Dante Ariola, para a Electronic Arts Inc. Na primeira parte, que dura 70 segundos, as personagens desvanecem-se deixando para trás a roupa e os objectos. Trata-se de uma alusão à luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi no filme Star Wars: Episode IV A New Hope. Obi-Wan desaparece deixando a roupa. Esta espécie de despojamento é frequente nas experiências místicas, significando uma maior exposição à alteridade e, eventualmente, à divindade. As personagens desaparecidas readquirem vida na segunda parte do anúncio (50 segundos). Entram no mundo fantástico da Guerra das Estrelas. O mergulho é alucinante. Paira uma sensação de imaterialidade. Troca-se de pele, de corpo e de alma. Algo como uma transubstanciação com transfiguração. Somos nós e não somos nós. Uma espantosa alquimia do ego. Na Idade Média, os gamers seriam, provavelmente, suspeitos de santidade: são propensos a êxtases! Mas a imersão e o alheamento são temporários, cedendo lugar à banalidade do indivíduo e do real. Há sempre uma âncora, um punhado de roupa, à nossa espera!

Neste artigo, ainda não desconversei o suficiente. Faltam umas linhas. Será o gamer o monge da pós-modernidade? O monge precisa de uma célula recatada, o gamer de um casulo electrónico; um debruça-se sobre manuscritos, o outro, sobre ecrãs; aquele medita, este concentra-se; o primeiro pertence a ordens, o segundo a tribos. Ambos se expõem a visões. Os monges foram úteis ao longo da história. Quanto aos gamers, para além do divertimento, importa promover um Quizz sobre o assunto na Internet. Palpita-me que os videojogos são pedagógicos. Aliás, na nossa sociedade, tudo tende a ser pedagógico. Até a mais inenarrável boçalidade. Foram necessário séculos e milénios para chegar à sociedade aprendiz. Nem Michel Foucault nos acode. Este parágrafo é da minha exclusiva responsabilidade.

Marca: Electronic Arts Inc. Título: Become More Powerful. Agência: Heat. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Novembro 2015.

Luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi, no filme Star Wars: Episode IV A New HopeI, 1977.

 

A ligação à Internet

“A última diligência da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Há quem acredite que a Internet começa no ecrã. O gesto inicial do utilizador seria a ligação, seguida pela imersão. A minha ideia é outra, o utilizador faz parte da Internet. Nem ponto de partida, nem ponto de chegada, mas ponto de passagem. Não vamos à Internet, reencontramo-nos na Internet: no correio electrónico, nas redes sociais, no blogue… Mesmo quando não estamos na Internet, estamos na Internet.

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Maurits C. Escher, Convex and Concave, lithograph, 1955

Apesar do entusiasmo pelo fenómeno da imersão, não se vislumbra sombra de luto pela emersão. A emersão enche-nos os olhos e os ouvidos, mais o corpo do que a mente. Entre a imersão e a emersão, as fronteiras são frágeis e porosas. Há filmes, vídeos musicais e anúncios publicitários que, nesse capítulo, lembram as gravuras do E. C. Escher.

Nestes anúncios da Terra Zoo, a imersão e a emersão intrincam-se. Num gesto, conjugam-se, num ápice, imersão e emersão. É raro um anúncio ser, simultaneamente, tão expedito e tão sedutor. Um piscar de olhos perfeito para promover uma empresa comercial online.

“A razão nunca se sobrepõe totalmente à imaginação, o contrário é corrente” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Marca: Terra Zoo. Título: Dog Food. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Coleira. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Marca: Terra Zoo. Título: Osso. Agência: Quadrante Advertising, São Luís. Brasil, Junho 2015.

Dentro e fora. O olhar do século.

Dentro ou fora? De dentro para fora? De fora para dentro? Dentro e fora.

M. C. Escher. Print Gallery. 1958.

M. C. Escher. Print Gallery. 1958.

Para Francesco Casetti, o cinema é o olhar do século XX (L’occhio del Novecento. Cinema, esperienza, modernitàMilanoBompiani, 2005), um olhar que entra no ecrã, do cinema ou da televisão (Dentro lo sguardo. Il film e il suo spettatore, Milano,  Bompiani, 1986; com F. di Chio, Analisi della televisione. Strumenti, metodi e pratiche di ricerca, Milano, Bompiani, 1998).

“With regard to vision, the film aims to “fill the eyes” of the spectator, to solicit him sensually: the filmic experience mobilizes a perceptive intensity that allows the spectator to “immerse” him or herself in that which he or she is watching. In this sense we can say that filmic images, more than objects to be seen, constitute a visual environment. But film seems to do other things, as well: it seems to want to “restitute” to the spectator that reality which on the screen is not present if not in its appearance; and it seems to want to do so through an illusion” (Casetti, Francesco, 2007, The Filmic Experience: An Introduction, p. 10: https://francescocasetti.files.wordpress.com/2011/03/filmicexperience1.pdf).

O envolvimento visual, além de propiciar a entrada do olhar no ecrã, promove a imersão do próprio espectador, convidado a co-construir a experiência fílmica. “O olhar do século XX” não é apenas imersivo, não se limita a “encher os olhos”, é também interactivo. A imersão coexiste com um sentido de distanciação. Dentro e fora, o cruzamento de olhares conjuga-se na experiência fílmica. O anúncio do Seattle International Film Festival contempla, de algum modo, este tango de perspectivas.

Anunciante: Seattle International Film Festival / SIFF. Título: Be Watching. Agência: Wongdoody. Direcção: Lindsay Daniels. USA, 2015.

Agarra que é imagem!

Este anúncio justificaria uma experiência laboratorial: cobrir o corpo com sensores e registar os resultados. Sequências e planos alucinantes ao ritmo de uma música eletrizante. Imagens fantásticas captadas por câmaras que se colam ao olhar como lentes de contacto. Espetamos o nariz nas perseguições, acusamos os choques, desviamo-nos da bola, pasmamos durante os frozen… Movimento, potência, excesso e cavalheirismo. Tudo o que se espera do rugby. Muitos anúncios visam lograr impacto; poucos o conseguem; raros o fazem como este.

Anunciante: HSBC. Título: Serious Play. Agência: JWT London. Direção: Paul Middleditch. Reino Unido, Março 2012.