Tag Archive | idosos

Amar perdidamente

Mercedes Benz. Eternal Love. 2019.

Ver um anúncio como quem bebe um licor: devagar e até à última gota. O Eternal Love, da Mercedes Benz, é extenso, atarda-se na viagem. Palavra a palavra, imagem a imagem, desdobram-se memórias da avó e insinua-se um pressentimento. Quando tudo se demora, corre-se o risco de desligar a atenção. Vale a empatia com o avô. Vale também a curiosidade. O desfecho faz-se esperar dois minutos, a duração de quatro anúncios normais. A música ajuda. A noiva, a avó, vem num Mercedes. Afinal, a eternidade é a eternidade do amor. Não há despedida mas continuação renovada.

Marca: Mercedes Benz. Título: Eternal Love. Agência: Inhouse. Direcção: Dorian & Daniel. Alemanha, Novembro 2019.

Abstenção

knock-the-vote-dear-young-people-dont-vote-600-10632

Não vale a pena? Tens mais que fazer? És um original? Não és um parafuso numa engrenagem? Nem um nada na massa? São todos iguais? Não os conheces de nenhum lado? Pois, não votes, outros o farão por ti. Mais do que imaginas! Mas não vale a pena insistir. Nunca se sabe o que se ganha com uma cruz num quadrado.

Desconversemos! Por que motivo o anúncio se dirige a um grupo etário, os jovens? Mesmo que o abstencionismo seja maior entre os jovens, isso não justifica uma discriminação cívica, o dedo apontado à maneira do Tio Sam. Mas o que mais me incomoda no anúncio é a oposição entre jovens, que não votam, e velhos, que votam mal. Senso comum, tão comum quanto perverso. Como diria o cónego Remédios, não havia necessidade.

Anunciante: Acronym. Título: Dear young people, don’t vote. Agência: Nail Communications. Direcção: Lee Beckett. Estados Unidos, Setembro 2018.

Os velhos

Albrecht Durer. Hands.

Albrecht Dürer (?). Hands.

“Velhos são os trapos”. Fico perplexo perante tanta sabedoria. Um argumento incontestável. Os velhos não são velhos, porque velhos são os trapos, e os velhos não são trapos. Com os trapos, desmoronam-se séculos de uma língua. Doravante, os velhos não são velhos, são idosos, seniores e pessoas de idade. Em tempos, terceira idade. Os bem-pensantes pensam bem! No meu entendimento, os velhos são velhos. Os meus velhos continuam a ser os meus velhos. Não são os meus idosos, os meus seniores ou as minhas pessoas de idade. A canção de Jacques Brel chama-se Les vieux e a de Daniel Guichard, Mon vieux, apesar de todas as “personnes âgées” residentes na Bélgica e em França. E o romance O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, nunca será O Idoso e o Mar. Idosos, seniores e pessoas de idade são enxertos linguísticos de burocratas e cientistas. Assim gira a nossa identidade: somos seniores nas universidades seniores, idosos nos centros de dia e pessoas de idade num outro sítio qualquer. O que me intriga é sermos velhos cada vez mais tarde e idosos cada vez mais cedo.

Seguem dois anúncios com velhos. Há mais de dez anos que colecciono anúncios publicitários. Acontece revisitar uma ou outra pasta. São anúncios antigos, porventura, seniores. A qualidade gráfica e a resolução da imagem acusam o tempo. Não deixam de ser bons anúncios.

Marca: Butterfinger. Título: Sharing. Agência: JWT Chicago. USA, 2002.

Marca: Fita Biscuits. Título: Fairy. Agência: Lowe, Makati City Phyllipines. Filipinas, 2003.

 

Teleassistência

Um anúncio da Cruz Vermelha Portuguesa com bom senso, bom gosto e um slogan claro e oportuno: “Você é o primeiro a saber que precisa de ajuda. Seja o primeiro a pedir.” Barroco q.b., nada grotesco. Aguarda-se a divulgação na televisão portuguesa.

Anunciante: Cruz Vermelha Portuguesa. Título: Água. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direção: João Fanfas. Portugal, Agosto 2012.

“Num país cada vez mais envelhecido — há 129 idosos para cada 100 jovens –, 400 mil idosos vivem sozinhos (CENSUS 2011). Este é um problema que é mais grave nas grandes cidades onde as redes de apoio familiar e de vizinhança são mais frágeis. As últimas notícias de idosos encontrados mortos em casa, dias ou mesmo semanas depois de terem morrido, retratam bem esta triste realidade. A dependência das pessoas, seja por idade, incapacidade, doença ou isolamento, bem como a sua segurança e saúde, são preocupação constante da Cruz Vermelha Portuguesa.
Neste âmbito, a Cruz Vermelha Portuguesa decidiu lançar uma campanha que chama a atenção para estas questões e dá a conhecer o seu serviço de Teleassistência.
Este filme, com o título “Água”, conta a história de alguém que precisa de ajuda e de algumas pessoas que estão próximas dela sem se aperceberem desse facto. O objectivo é mostrar que numa emergência, não se pode contar com a sorte, é preciso ser directo e pedir ajuda.
Com o desenvolvimento criativo da Leo Burnett Lisboa e a produção da Stopline como mecenato.” (Cruz Vermelha Portuguesa).

Tempos ingratos

Passei o mês de Julho a corrigir: teses, candidaturas à FCT, exames, trabalhos (licenciatura, mestrado e doutoramento), relatórios de estágio e de investigação, projectos de dissertação, propostas de comunicação a congressos, propostas de artigos para revistas… E a febre correctora prossegue! As teses de doutoramento vão comigo para banhos em Agosto. Detesto corrigir. Detesto, ainda mais, não ter tempo livre. Não aprecio esta incontinência avaliativa exponencial. Pasmo ao ver os meus colegas entusiasmados a inventar novas provas e avaliações. Será que corrigir e avaliar ainda propicia alguma sensação de poder? Por motivo de correcção, não tenho publicado, dias a fio, artigos neste blogue. Salva-se, hoje, este anúncio, ungrateful, tão desencantado quanto o meu humor.

Marca: Tulipan. Título: Ungrateful. Agência: Young & Rubicam (Buenos Aires). Argentina 2012.