O Valor da Diferença
À M

Rever-se no olhar dos outros é um consolo; não sentir o mérito reconhecido, uma desgraça. Pensei incluir os subtemas inclusão e reconhecimento no vídeo dedicado à Felicidade. Mas a duração de cerca de 1 hora já duplica o previsto. Sinal de que a participação ultrapassou as expetativas. Impõe-se filtrar e cortar. Com alguma frustração. Os três vídeos seguintes, como muitos outros, ficam, assim, de fora. Coloco-os neste último reduto. Sensibilizam!
Sem limite de idade

Escrevi pelo menos sete artigos dedicados à estratégia publicitária da Dove (para aceder aos artigos, carregar no título):
- A beleza que toca o coração
- A mulher real
- Beleza real
- A beleza da coragem
- Estética de género
- A beleza como obrigação
- Publicidade simpática
Confunde-se muitas vezes envelhecimento com desvitalização. Mas a vida não tem idade — apenas a morte traça um fim. Parece ser este o mote do anúncio “Beauty has no age limit”, da Dove. O que vale para as pessoas vale para as comunidades: uma comunidade envelhecida não é uma comunidade sem vida.
Um (v)eu entre vazios

Nous ne croyons plus que la vérité demeure vérité si on lui enlève son voile ; nous avons assez vécu pour écrire cela [Já não acreditamos que a verdade permaneça verdade se lhe retiramos o seu véu; temos vivido o suficiente para escrever isso] (Friedrich Nietzsche, Le Gai Savoir, 1882)
Com 91 anos, Charles Aznavour canta “Hier Encore” em Yerevan, capital do seu país natal, a Arménia. Nunca é tarde para demandar o ninho, com ou sem penas.
Uma longa caminhada

A collaboration between two former bandmates. A duo which decided to go solo. After their band Alquin stopped performing, Michel van Dijk and Ferdinand Bakker decided to make their own album, just titled LONE. They embarked on a quest of musical experimentation, a search for the stories and references that inspired them both. It was at these crossroads of mutual inspiration that their journey became most interesting, resulting in six more albums. Their new album is appropriately titled “We came a long way” (release 4-25-25). (http://www.loneproject.nl/).
A banda neerlandesa Alquin conheceu dois períodos de atividade: 1971-1977 e 2003-2012. O seu rock progressivo lembra os Camel, com a ressalva de terem lançado o primeiro álbum, Marks (1972), um ano antes dos Camel (1973) [escutar a faixa “Oriental Journey”].
Após a dissolução da banda, Michel van Dijk e Ferdinand Bakker, criaram o duo Lone (Project). Desde 2013, lançaram 7 álbuns; o mais recente, com mais de 70 anos de idade, We came a long way, no passado dia 25 de abril. Existe pouca informação a seu respeito acessível na Intenet. Regra geral, o número de visualizações dos vídeos resulta ínfimo. Os Lone vêm de longe, mas, provavelmente, não irão tão longe quanto mereceriam.
Tenta-me, às vezes, prestar atenção a “menoridades” aparentes. O percurso do duo Lone recoloca-me uma pergunta que me inquieta: o que contribui para a notoriedade de um autor ou de uma obra? O que vale, portanto, o (in)sucesso?
Dada a “invisibilidade”, retive cinco canções dos Lone: “We came a long way” (2025); “Like a Mountain” (2025); “Wait for me” (2023); “Let it rain on me” (2020); e “The lighthouse” (2020). Acresce “Oriental Journey” (1972), dos Alquin.
*****
Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.
A roda da vida
“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).
O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.
Entrar na idade



“A diferença entre os jovens e os velhos é que os velhos têm muito mais recordações e muito menos memória” (Paul Ricoeur, Lire – Octobre 2000)
“Os velhos não morrem, adormecem um dia e dormem demasiado tempo” (Jacques Brel, Les Vieux, 1963)
O que é ter idade? Questiono-me enquanto acompanho carreiras como, por exemplo, as de Mick Jagger (80 anos),Eric Clapton (79), Sérgio Godinho (78) e tantos outros. O que é ser velho? Não perguntem ao Estado, que este oscila, no meu entendimento, demasiado entre a (des)classificação, o assistencialismo e o oportunismo.
David Gilmour, com 78 anos, lança em setembro um novo álbum: Luck and Strange. Segue, em jeito de antestreia, a faixa The Piper’s Call. Observando o vídeo oficial, parece que a religiosidade, não necessariamente a religião, está no ar. Respira-se!
It’s the age, stupid! Discriminação etária

Uma vez assente a poeira, gostaria de revisitar uma bolha mediática que, pela mão de políticos e da comunicação social, absorveu e preocupou os portugueses.
Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros (Título de artigo, 08 nov, 2022: https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2022/11/08/jovem-de-21-anos-sai-da-faculdade-para-o-governo-e-vai-ganhar-quatro-mil-euros/307102/).
Aponta-se o dedo, mediático, a uma “anomalia”: suspeita-se de entorse político. Até que ponto é admissível um jovem de 21 anos ir para o governo ganhar quatro mil euros? Inverto a pergunta: por que é que não é possível? Por causa da idade, por ter 21 anos? Este é o nó da discórdia, os outros argumentos convocados ou são meros corolários ou falácias. Assumir que um jovem de 21 anos não deve ir para o governo ganhar 4 000 euros, brutos, é um preconceito entranhado que se traduz numa discriminação abusiva baseada na idade. E, no entanto, quanta obra notável da história da humanidade empreendida por pessoas com menos de 21 anos na música, na arte e na literatura, na ciência e na técnica, na economia, na política e na guerra! Tal como não existe raça ou género, também não existe idade que diminua, à partida, um ser humano. Esta penalização pela idade, por mais espontânea que seja, nem sempre é bem-intencionada. Neste caso, o denunciante é tão suspeito quanto o denunciado.
A experiência profissional oferece-se, de algum modo, como um corolário da idade, um avatar preconceituoso, logo nem sempre justificado, que dificulta o acesso dos mais jovens à vida ativa. Configura um preconceito considerar mais garantia para a assessoria de um órgão do governo a experiência profissional, seja ela qual for, em detrimento das experiências política e de gestão associativa, sejam elas quais forem.
Em suma, discriminação e preconceito de braço dado.
Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros
(…) Um jovem de 21 anos que acabou recentemente o curso de Direito foi contratado para ser adjunto da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, sem ter qualquer experiência profissional.
Tiago Alberto Cunha vai ganhar cerca de quatro mil euros brutos por mês.
Segundo a nota biográfica publicada em Diário da República, Tiago acabou o curso de Direito no ano passado, na Universidade do Porto, e este ano ingressou no mestrado na Universidade de Lisboa, na mesma área.
Nas últimas autárquicas foi candidato à Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia pelo Partido Socialista, não tendo no entanto sido eleito. Ocupava o 32.º lugar da lista.
Entre 2020 e 2021, o agora adjunto de Mariana Vieira da Silva foi secretário-geral do Conselho Nacional de Estudantes de Direito (CNED).
Faz também parte da Assmblei de Freguesia de Vilar de Andorinho, em Vila Nova de Gaia.”
Não esqueças onde vais: Memória e idade

“Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo” (Ortega y Gasset, José, Meditaciones del Quijote, Madrid, Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1914, pp. 43-44).
Em Moledo, dá-me para escrever textos como este. Como sugere Ortega Y Gasset, convém atender às circunstâncias mais ínfimas e mais íntimas. Com escassa mobilidade, debato-me com um computador ultrapassado com som e imagem péssimos. Dedico-me, assim, a escrevinhar textos de média reflexão como este sobre “A memória e a idade” ou, há duas semanas, as “Canções de luto por vivos” (https://tendimag.com/2022/06/05/cancoes-de-luto-por-vivos/). Uma escapatória. Uma tábua de salvação.
Tornou-se proverbial associar a memória à idade. As pessoas maiores são, por excelência, os arquivos vivos. Com o tempo, acumula-se e destila-se o vivido. Será? Não me atardo sobre a degenerescência da memória. Limito-me à memória como actividade e produto social. A vida e a memória não são coisas. Nem a primeira é um conjunto de segmentos, nem a segunda o respectivo repositório. Não tinha completa razão Sherlock Holmes ao apoquentar-se com a selecção das recordações; na sua opinião, a memória é assimilável a uma caixa que depressa se enche; a cada recordação que entra, outro sai. Não, a memória não é um depósito de elementos, antes uma teia, uma agência, de virtualidades, “cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte nenhuma” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XVII). A vida é acção, experiência e abertura e a memória presentificação e criação. Um simples momento pode inspirar um oceano e a eternidade reduzir-se a uma gota A memória não condiz com a extensão do calendário. Quando muito, pode comportar episódios mais antigos. Não se pode assumir que longevidade seja sinal ou sinónimo de maior biografia ou memória.
A memória remete para o passado mas actualiza-o e reforma-o no presente. É potência, emergência e protensão. Apresenta-se debruçada para o futuro. Dependente das condições, os encontros e os diálogos tendem a facilitá-la. A interacção social propicia a comunhão e a partilha de memórias. Não cessa de nos mergulhar no passado para nadar no presente e no futuro. Chamemos a esta comunhão e partilha de memórias comemoração (recordar em conjunto). Quem tem mais probabilidades de comemorar? De desfrutar de encontros? A idade aumenta as hipóteses de isolamento e diminui as oportunidades de intercâmbio e comemoração. O anúncio Come Home propõe uma ilustração extrema: um idoso simula a própria morte para forçar a visita dos filhos.
“Toda a gente sabe” que as pessoas maiores “vivem mais do/no passado”. Para trás, uma vida inteira, para a frente, uma promessa incerta. Voltamos a cair na tentação de geometrizar o vivido.
Com o avançar da idade o presente tende a ser cada vez mais pautado por rotinas, que, apesar dos preconceitos, comportam uma inestimável espessura vivencial. Com os anos, mirra o restolho do passado, desbota o mapa do futuro e aumenta a repetição cíclica. Conjugar rotina e memória aproxima-nos de um oxímero, de uma espécie de memória automática do presente.
A orientação temporal da mente é variável. A bússola aponta para horizontes ora para o passado ora para o futuro. Por exemplo, em algumas comunidades, à memória outonal do verão, sucede o alheamento do inverno e a esperança da primavera. Uma pessoa pode recordar a última visita dos emigrantes como um cão que rilha um osso e acalentar a próxima como um pássaro que faz o ninho (Gonçalves, Albertino, “O Presente Ausente: O Emigrante na Sociedade de Origem”, Cadernos do Noroeste, vol. I – nº1, 1987, pp. 7-30; e Gonçalves, Albertino & Gonçalves, Conceição, “Uma vida entre parênteses. Tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 – nº6-7, 1991, pp. 147-158). Não se pode, portanto, afiançar que na vida das pessoas, mesmo as maiores, predomina o passado. Nem a minha experiência nem a alheia me permitem decifrar este enigma. Arrisco, em contrapartida, que com a idade cresce o sentimento e a experiência da ausência, e com esta, a memória dos ausentes, daqueles que “estão fora” e daqueles que “partiram para não mais voltar”, inclusivamente para o Além. Esta presença da ausência e dos ausentes torna-se obsessiva. Trata-se de um tipo de memória que afeta, naturalmente, mais as pessoas maiores.
Assim como, com a idade, tende a definhar a socialização, também tende a encolher o espaço vital. Cada vez se restringe mais a um espaço fixo exíguo, porventura a uma mera divisão da habitação. Diminuem a expansão, exploração e deambulação, em suma, a exposição a estímulos e rastilhos da memória. A dança do passado tende a evoluir num circuito fechado solitário, com sobre investimento nos marcadores disponíveis, por exemplo, as fotografias e as lembranças. Corresponderá este cenário a um acréscimo da memória e do seu exercício? Talvez da sua importância vivencial. Quando tudo tende a desaparecer, restam, como alternativa, os fósseis de uma vida. Por uma vez, concordo com os médicos e os cientistas: uma das principais ameaças à memória das pessoas maiores reside não no excesso mas na falta de exercício.
Subsiste, enfim, uma derradeira dimensão, propensa, aliás, a ser parceira da memória da ausência. Para além dos testemunhos, das pessoas e dos acontecimentos, a vida também acolhe a imaginação. É real. Fabrica-se, abraça-se, sente-se. “É virtual nos seus fundamentos e real nas suas consequências”. Refém do isolamento, o novo eremita entrega-se a sonhos e pesadelos. Cria mundos, interpreta personagens e inventa histórias. Experiencia-os. Salta de uns para outros. Pelo caminho, ficam as carícias e as cicatrizes do imaginado, tão familiares e sensíveis como as do vivido.
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).
Duvido que com a idade aumente a memória ou o seu exercício. Acredito que a passagem do tempo tende a diferenciá-los: propende a cavar a ausência e a beber no imaginário.
Como sociólogo e como pessoa, encaro os relatos de vida como a mais compensadora das fontes. Gosto de remexer no passado e partilhar experiências. No tempo em que costumava passar as férias e os fins de semana em Melgaço, comprazia-me a registar “testemunhos e confidências” de pessoas maiores, individualmente ou em grupo. Assentava-me bem o papel de regenerador, provocador e esquentador de memórias. E de vidas…
A cadeira vazia e o espírito de Van Gogh

And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did
I never thought you would(Don McLean. Empty Chair. 1971)
