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Senilidade intelectual

Ontem, fiz uma comunicação, hoje, outra, sobre “a música do inferno no imaginário medieval”. Tema insólito, indício, quem sabe, de senilidade intelectual. Ninguém acredita na existência do inferno. Ainda menos, na música do inferno. Mas o inferno existe no imaginário e na experiência do mundo. Século após século, a pegada do inferno é incomensurável.

Em jeito de ponte entre a Idade Média e os nossos dias, a comunicação culmina com o trailer do videojogo Agony (2018). O inferno teima em aquecer as nossas almas. A descida ao inferno no videojogo Agony é um tormento vertiginoso. A banda sonora condiz: arrisca desagradar. Mas, apesar das novas tecnologias, pouco se distingue das pinturas medievais. Atente-se no inferno do tríptico O Juízo Final (1467-71), de Hans Memling. O mesmo tormento, a mesma turbulência, as mesmas vertigens.

O “regime da palavra” anda esquisito. Nunca tantos falaram tanto para dizer tão pouco. Um excesso de formatação e de ladainha na Metrópolis do espírito. Uma orfandade do sentido. A ciência está muito regrada, à espera dos robots inteligentes. Nunca pensei que a ciência ingurgitasse tanta burocracia. Uma incontinência para colmatar uma avaliação que analisa as obras como melões na feira e uma perspectiva de desenvolvimento futuro que não se enxerga.

Albertino Gonçalves e Fernando Gonçalves

Agony. Videojogo. 2018.

Almas danadas

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

Marten de Vos. Juízo Final. 1570. Pormenor.

Volta e meia, cruzo-me com autores maneiristas, de Agnolo Bronzino (1503-1572) a Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), passando por Francisco de Holanda (1517-1585) e Wenzel Jamnitzer (1507-1585).Calhou a vez a Marten de Vos (1532-1603), pintor de Antuérpia.

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

O inferno do Juízo Final (1570), de Marten de Vos, é impressionante: fogo, demónios e condenados formam uma corrente rumo à boca do inferno. Os  corpos, com os seus movimentos, contorcem-se como labaredas. Trata-se de um fluxo onde não há parte sem todo. Este dinamismo lembra a queda no abismo, no inferno do Juízo Final (1467) de Hans Memling. (1430-1494).

Hans Memling, Juízo Final. Triptico. 1467-71

Hans Memling, Juízo Final, 1467-71

Marten de Vos, A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594)

Marten de Vos, A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594)

Reencontramos as figuras fantásticas, demoníacas e grotescas na Tentação de Santo Antão (1591-1594), que lembra, por sua vez, a Tentação de Santo Antão, quer de Hieronymus Bosch (1502), quer de Mathias Grunewald (1512-1516). Todos juntos lembram o surrealismo.

Hieronymus Bosch. Tentações de Santo Antão. 1502

Hieronymus Bosch. Tentações de Santo Antão. 1502

Matthias Grunewald. A Tentação de Santo Antão, c. 1512 - 16

Matthias Grunewald. A Tentação de Santo Antão, c. 1512 – 16

Para terminar, uma nota curiosa: o “dinossauro” pintado, antes da data, na parte inferior direita da Tentação de Santo Antão, de Marten de Vos. E Pronto! Quando a vista se regala, a língua cala.

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor