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Aleluia

Em qualquer lugar, seja qual for o solo pisado, os pés e os sapatos merecem ser louvados. Resgatemo-los e cuidemos deles! [ver Da excelência dos pés, 06.06.2021].

Marca: ShoeLab Ghana. Título: Clean Sole, Happy Soul. Agência: Spec Project. Produção: 80 Studios. Direção: Frederick Walker. Gana, agosto 2025
George Frideric Handel – Messias: Aleluia, 1742. Interpretação:  Orchestre Le Palais Royal, Auditorium de La Seine Musicale, 30.11.2019

Sarabanda e folias

A alusão ao popular e ao carnavalesco no artigo precedente lembrou-me as sarabandas e as folias, músicas e danças de origem popular e festiva que se aristocratizaram adquirindo um enorme sucesso nas cortes europeias, designadamente nos séculos XVII e XVIII.

Stanley Kubrick é conhecido pelo recurso a músicas clássicas nos seus filmes. A sarabanda de Handel foi uma das eleitas para Barry Lyndon (1975).

As folias, ditas de Espanha, mas de origem portuguesa, ainda inspiram compositores e intérpretes. Seguem as versões de Gregorio Paniagua, uma das minhas preferidas, e de Sergei Rachmaninov, erudita, lenta e longa.

George Frideric Handel – Sarabande Suite in D minor (HWV 437). Entre 1703 e 1706. Main title from Stanley Kubrick’s BARRY LYNDON soundtrack. Lucca Philarmonic Orchestra. Live recording: 2nd June 2014
Gregorio Paniagua – La Folia de la Spagna. Atrium Musicale de Madrid. Harmonia Mundi France, 2022
Sergei Vasilievich Rachmaninoff – ariations on a Theme of Corelli Op. 42. Written in 1931. Recording: Live in Lugano, Switzerland, 1968(?)

O Berço dos mortais deuses

Regressemos a Dario I, o Arqueiro. Na rota da Babilónia, perto do Afeganistão, a Mesopotâmia, “berço da civilização”, da escrita cuneiforme, do código de Hamurabi, da ciência e da agricultura, de canais, palácios e monumentos gigantescos e jardins suspensos e esculturas, de epopeias, tragédias, cativeiros e heróis imortais. Da demanda de Gilgamesh e da torre de Babel.

Impressionou-me a leitura na infância do livro As Ruínas de Palmira (1791), escrito pelo Conte de Volney, protagonista da Revolução Francesa. Consiste numa espécie de julgamento dos grandes impérios e das grandes religiões. Para quem possa interessar, acrescento o link para a digitalização da publicação original.

A Mesopotâmia, designadamente a Babilónia, é tema recorrente na música.  Georg Friedrich Händel dedicou uma ópera a Xerxes (cujo nome significa “governante de heróis”), composta em 1738, que inclui a ária Ombra Mai Fú (trad. Nunca houve uma sombra), uma pérola rara da história da música (ver vídeo 1). A obra de Händel tende a abusar dos metais (ver o artigo Música e Espectáculo: https://wordpress.com/post/tendimag.com/40821); o rei Jorge I de Inglaterra, seu patrono, não apreciava as cordas! Um exemplo da dependência da arte em relação ao poder político. Acresce que na época as mulheres não podiam aparecer no palco, sendo representadas por homens travestidos. Brilha o “castrato, “desvirilizado” na infância para desenvolver voz feminina (soprano, mezzo-soprano, ou contralto). Diverti-me a procurar uma interpretação atual que se aproximasse deste fenómeno (ver vídeo 1 e artigo Castrati: https://wordpress.com/post/tendimag.com/43403).

G.-F. Händel. Aria “Ombra mai fù ” ( 1 Act ) from the Opera “Serse”. 1738. By Philippe Jaroussky,

A música pop também namora o tema da Babilónia. Retenho duas canções bem distintas: Waters of Babylon (vídeo 2), de Don McLean, e Rivers of Babylon. dos Boney M (vídeo 3).

Don McLean. By The Waters of Babylon. American Pie. 1971.
Boney M. Rivers of Babylon. Nightflight to Venus. 1978. Ao vivo: Sopot Festival 1979.

Não resisto a acrescentar Alexander The Great, dos Iron Maiden. Cerca de um século após a morte de Xerxes, Alexandre, homem imortal, conquistou o reino da Pérsia. Na canção dos Iron Maiden, multiplicam-se as referências à Babilónia.

Iron Maiden. Alexander the Great. Somewhere in time. 1986.

Artigos descentrados e desossados como este oferecem-se, porventura. como um modo de viajar confinado.

Música e espectáculo

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749.

Nos tempos áureos do barroco, floresciam os eventos públicos ao ar livre: procissões, triunfos, regatas, concertos, fogo-de-artifício… Eram espectáculos hiperbólicos. Tal como acontece nos nossos tempos com os espectáculos dos Fura dels Baus, as competições desportivas, as cerimónias políticas ou os concertos de música rock.

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749.

Algumas das obras mais célebres de Georg Friedrich Handel (1685-1759) foram compostas expressamente para festas e comemorações. De origem alemã, Handel adquiriu a nacionalidade inglesa. Na Alemanha, foi mestre de capela do Eleitor de Hanôver, que se agastou com ele por causa de suas ausências em Londres. O Eleitor de Hanôver assume, entretanto, o trono da Grã-Bretanha, com o nome de Jorge I. Assim se apertam as malhas do destino. Consta que um amigo de Händel, “o Barão Kielmansegge, divisou um meio de reconciliá-los. Um dos passatempos favoritos dos nobres londrinos nesta época era o passeio de barco pelo Tamisa, acompanhados de uma pequena orquestra que os seguia em um barco próprio. Num desses passeios o Rei foi convidado a participar, e Kielmansegge providenciou para que a música executada fosse de Händel. Sem saber quem era o autor, o Rei se mostrou deliciado, e ao ser revelada a trama, perdoou-o” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Friedrich_H%C3%A4ndel).

03. Jorge I de Inglaterra com Handel, à esquerda.

03. George Frideric Handel (esquerda) e o rei Jorge I no rio Tâmisa, 17 de julho de 1717. Pintura de Edouard Jean Conrad Hamman (1819–88).

A Water Music foi encomendada pelo rei Jorge I para o acompanhar no rio Tamisa. Estreou em 17 de Julho de 1717. O sucesso foi de tal ordem que os músicos repetiram a peça três vezes (ver imagem 03).

The Hornpipe from Handel’s Water Music (HWV 349), performed by the FestspielOrchester Göttingen, Laurence Cummings, director.

O Messiah, encomendado por Lord Lieutenant da Irlanda, para uma campanha de beneficência, estreou no dia 13 de Abril de 1742, em Dublin. Assistiram cerca de 700 pessoas. Prevendo grande afluência, foi solicitado aos cavalheiros que se despojassem das suas espadas e às damas que não vestissem saias com armação, para caber mais gente. Durante o primeiro concerto em Londres, D. Jorge II, emocionado com o coro (Hallelujah), levanta-se. Respeitando o protocolo, “ninguém permanece sentado perante o rei em pé”, toda a assistência se levanta. Continua a ser costume assistir ao Messiah em pé.

Händel: »Hallelujah« (Messiah) ∙ hr-Sinfonieorchester ∙ Chœur du Concert D’Astrée.

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749.

A Music for the Royal Fireworks foi encomendada pelo rei Jorge II para a celebração do Tratado de Aix-la-Chapelle, com  música e fogo-de-artifício. No dia de estreia,  27 de Abril de 1749, ocorreu um incêndio num paiol.

Filharmonia Narodowa. Jacek Kaspszyk conducts Händel’s La Rejouissance from Fireworks Music.

Estas três músicas são empolgantes. Prefiro, contudo, a serenidade do “Ombra ma fui”, largo da ópera Xerxes (1738).

George Szell and the London Symphony Orchestra play Handel’s Largo from Xerxes.