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Vida de esqueleto I: A carne e o osso

01. Vanitas italiana de finais do século XIX
01. Vanitas italiana de finais do século XIX

Não sou dado a invejas, mas Carlo Cipolla exagera. O ensaio “O papel das especiarias (e da pimenta em particular) no desenvolvimento económico da Idade Média” (1988, Allegro Ma Non Troppo) é uma paródia sublime da retórica científica. Da mesma craveira, só a descrição da Academia das Ciências por Jonathan Swift (1726, As Viagens de Gulliver) e o relatório das experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú” (Rabelais, François, 1534, Gargântua). Sou mais devoto do gozo do que da inveja, mas não resisto à tentação de imitar o Cipolla, o Swift e o Rabelais.

Nesta breve digressão pela vida do esqueleto, “a morte dinâmica” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, 1986, Diccionario de los symbolos, Barcelona, Ed. Herder, p. 482), entrançam-se “verdades até prova de contrário” e “quimeras em busca da verdade”. Desafio o leitor a destrinçá-las. Não parto da realidade contemporânea nem a ela pretendo chegar. A nossa sociedade é demasiado pós-tudo e pré-nada para servir de porto a quem deseje navegar. Está entalada no presente. Prefiro demandar os antepassados. Por vezes, enxergamos melhor afastando-nos.

“Eles [os antepassados], que se foram há muito tempo, se encontram em nós, como projeto, como carga pesando sobre o nosso destino, como sangue que corre em nós e como um gesto que desponta das profundezas do tempo” (Rilke, Rainer Maria, Carta a Kappus, 1904, in Cartas a um jovem poeta, 1929).

Os antepassados viviam e morriam, como nós. Viviam, é verdade, menos tempo. A esperança de vida do homem medieval era cerca de metade da esperança de vida do homem digital. Cercou, contudo, a morte com ideias e imagens como poucas épocas históricas o conseguiram. Hoje, afogado em informação, o nosso imaginário tece uma manta de retalhos costurados com fibra óptica. Sem sedimentação nem cristalização, a consistência permanece mole. Não somos milenaristas, cátaros ou beneditinos; somos multi, pluri, poli, inter, trans, pastiche… O homem contemporâneo pouco acrescenta ao imaginário da morte. Fragmentou-o. Não obstante a parada tecnológica, encontra-se menos preparado, mais desamparado e mais só perante a morte. Este despojamento bebe na ânsia do imediato, no sentimento de impotência e na promessa do vazio.

Para os antepassados, a morte e a vida são contrários. Mas contrários muito próximos. Tão próximos que se entrelaçam. Ao extremo de a vida ter morte e a morte ter vida. Esta sabedoria exprime-se em esculturas, pinturas, gravuras e rosários. Por exemplo, nos quadros e nos pingentes em que metade do ser humano é pele e carne e a outra metade, esqueleto (Figuras 2 a 6). O que significam estas artes? Que a morte difere da vida? Ou que não são assim tão diferentes? Pelo menos, aparecem juntas. Os anglo-saxónicos falam, a propósito deste tipo de imagens, em the death inside. Sob a pele, rodeado de carne, “jaz” o esqueleto. Dentro de nós, em nós. O comentário a um anúncio focado no Halloween retoma esta visão da vida e da morte: “Ah, Halloween. Time to let what’s inside, out”

Marca: Party City. Título: The way you look tonight. Agência: Hill Holliday. USA, Setembro 2017. [Recuperado e gravado em 27.06.2026

Particularmente eloquente é a gravura Duplo retrato (1616), de Matthew Merian (Figuras 7 e 8). Uma rotação de 180º basta para transformar a vida em morte e a morte em vida. Matthew Merian inspira-se, provavelmente, nos quadros de Giuseppe Arcimboldo (Figuras 9 a 11): Vegetais numa taça ou o jardineiro (ca. 1590); Cabeça reversível com um cesto de fruta (ca. 1590); e O cozinheiro (ca. 1570).

Objetos e imagens similares são (re)produzidos na modernidade: nas tatuagens, nas t-shirts, na subcultura gótica, nas lojas da Internet, nos cemitérios, nos disfarces do Halloween e, naturalmente, na arte. Por exemplo, a Voluptate Mors (1951), de Salvador Dali e Pilippe Halsman, uma caveira composta por corpos vivos, ou O espelho da morte (ca. 1929), de José Gutierrez Solana.

Monstruosidade ready-made

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Uma pessoa severamente queimada convive naturalmente com as pessoas que participam no Halloween, o dia em que a exclusão, as diferenças e os estigmas se apagam. Por um dia, o protagonista é uma imitação de si mesmo. Halloween, da Burns and Smiles, é um anúncio excelente com uma duração e um ritmo que permitem o afloramento de uma velha questão: afinal, quem são os monstros? Questão abordada, por exemplo, por Victor Hugo (Notre Dame de Paris, 1831), Tod Browning (Freaks, 1932) ou David Lynch (The Elephant Man, 1980).

Anunciante: Burns and Smiles. Título: Halloween. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Nicolas Galoux. França, Dezembro 2016.

As peúgas são armas de choque

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O anúncio Sock ‘m Dead é dirigido pelo norte-americano Robert Rodrigues, realizador de Sin City (com Frank Miller e Quentin Tarantino; 2005) e de El Mariachi (1992), “o filme mais barato da história” (7 725 dólares). O espírito do Halloween paira sobre esta curta-metragem, uma história bem contada com vampiros e peúgas.

Marca: Happy Socks. Título: Sock ‘m Dead. Produção: Troublemaker Studios. Direcção: Robert Rodriguez. Estados Unidos, Outubro 2015. [Recuperado em 29.10.2026]

Diabo de guarda

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Decoração do Dia das Bruxas. 2011.

O anúncio neozelandês da Energy Online propõe um dispositivo contra vendedores porta a porta: uma aldraba grotesca mais uma espécie de gárgula gótica, ambas animadas e furibundas. Um susto a dobrar. Com esta parceria diabólica, não há vendedor que se atreva. Este anúncio é fruto da época: aproxima-se o Halloween, a festa do horror para todas as idades. Trick or treat.

Marca: Energy Online. Título: Door Knocking. Agência: Contagion, New Zealand. Direcção: James Anderson & Jess Griffin. Nova Zelândia, Setembro 2015.

Abóbora em chamas

The Nightmare Before Christmas. The Pumpkin King

A proximidade do Halloween faz-se sentir na publicidade. É o caso deste anúncio da Reese’s: The Perfect Combination. Técnica e esteticamente cuidado, lembra Tim Burton, nomeadamente o filme A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999) e o videojogo The Nightmare Before Christmas: The Pumpkin King (2005). Mas na ficha técnica, como realizador, consta Crobin. Um conteúdo na melhor tradição do Halloween: um cavaleiro sem cabeça a ajudar uma abóbora sem corpo.

Marca: Reese’s. Título: The Perfect Combination. Agência: Viacom Velocity – New York. Direcção: Crobin. Estados Unidos, Outubro 2015.

Não fazer compras dá azar

Sears. The Denskies. MediumEvitar fazer compras dá azar. Os Denksies são uma família que anda sempre à cata de esquemas alternativos às compras. O resultado é uma série de catástrofes. Medium é um dos anúncios da campanha da Sears. Foi publicado por altura do Halloween, com bruxas, monstros, feitiços e metamorfoses a condizer. Registe-se, por último, a ascensão da galinha no ranking mediático.

Marca: Sears. Título: Medium. Agência: mcgarrybowen, Chicago. Direção: Martin Granger. USA, Novembro 2013.

Anime

Soul.Eater.Evans.fO blogue Tendências do Imaginário tem falhas. Muitas. Por exemplo, a quase ausência dos animes. Começar tarde é um dom, o dom de quem, apesar de tudo, consegue ver por onde não anda. Segue um cocktail anime grotesco, com imagens da série Soul Eater e música de Marilyn Manson. This is Halloween, spice your souls!

Um perfume do outro mundo

Em vésperas de Halloween, a Axe continua endiabrada. Graças ao perfume, um zombie torna-se atraente. O masculino continua a resvalar e o feminino não fica bem na fotografia. Já começa a ser uma tradição.

Marca: Axe. Título: Hot Girl vs. Zombie. Halloween Horror Film. EUA, Outubro 2011. [Recuperado em 27.10.2026]