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Sombra

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946.

A sombra é sombria e assombra. “A sombra é, por um lado, aquilo que se opõe à luz: ela é, por outro lado, a própria imagem das coisas fugidias, irreais e mutáveis” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Editions Robert Laffont S.A.,1982). Incontrolável, a sombra é uma ameaça em potência. Recorde-se o conto A Sombra (1876) de Hans Cristian Anderson : « A sombra tornara-se o mestre, e o mestre tornara-se sombra ». Na parte final do conto, a sombra, agora homem, manda matar o mestre, cada vez mais sombra. A sombra remete, de algum modo, para os nossos recalcamentos. C.G. Jung associa a sombra “a tudo o que o sujeito recusa reconhecer ou assumir e que, contudo, não para de se lhe impor” (La guérison psychologique, Genève, Librairie de Université Georg & Cie, 1953).

manchanegraSuspendendo os academismos, a sombra do anúncio The Shadow, da Intel, desperta fantasmas da infância: o Mancha Negra das revistas aos quadradinhos da Disney, o adversário mais penoso do rato Mickey. Não é propriamente uma sombra, mas parece. O anúncio da Intel sintoniza-se com o ambiente de horror fictício do Halloween, convoca a afeição dos norte-americanos pelo basquetebol, namora a street art e explora primorosamente a imagem espectral da sombra.

Marca: Intel. Título: The Shadow. Produção: Optane Memory + Uproxx. Estados Unidos, Outubro 2018.

O tema das sombras lembra o vídeo Decantação  que fiz, há uns cinco anos, com fotografias de Paulo Pinto e música da compositora e interprete checa Iva Bittova ((https://tendimag.com/2013/03/10/decantacao/).

Albertino Gonçalves. Decantação. Fotografia de Paulo Pinto e música de Iva Bittova. 2013.

Noite dos medos. O Carnaval macabro

Noite dos Medos. Melgaço. Noite de 31 de Outubro de 2018. Produção: Rádio Vale do Minho.

A segunda edição da Noite dos Medos de Melgaço ultrapassou as expectativas. Centenas de pessoas partilharam medos numa catarse colectiva respaldada na tradição. Nenhum medo escapou, nem sequer “os medos que metem medo a um susto”. Numa noite para aquecer, com chamas e queimadas, o protagonista foi o corpo, mascarado, pintado, representado, dançado e comunicado. Revitaliza-se, tribalmente, a memória e reinventa-se o passado.

Acrescento duas músicas a condizer: The End, dos The Doors, e Highway to Hell, dos AC/DC. Faltavam no Tendências do Imaginário. Dispus os vídeos por ordem de estreia. A menor qualidade do som e da imagem do vídeo dos The Doors é compensada pelo facto de se tratar de uma actuação ao vivo no próprio ano do lançamento da música (1967).

The Doors. The End. The Doors. 1967.

AC/DC, Highway to Hell. Original: Highway to Hell. 1979.

O roubo da identidade

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O anúncio Replacement, da Starburst, é um resquício da temporada do Halloween. Versa sobre um roubo de identidade, que acaba por excluir uma criança do seu mundo familiar. No poema Deus, Maria Helena Amaro escreve: “Roubem-me tudo, mas não me roubem Deus!” Uma canção popular elege a cachaça: “Pode-me faltar tudo na vida (…) só não quero que me falte a danada da cachaça”. Pois, salvaguardando Deus e a cachaça, não deve existir pior roubo do que o roubo da identidade. A canção Epígrafe para a arte de furtar aborda o tema: “e de mim mesmo / todos me roubam”.

Marca: Starburst. Título: Replacement. Agência: Team Collaboration. Direcção: Christopher Leone. Estados Unidos, Outubro 2017.

José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz outro amigo também. 1970.

Contactos

M&Ms

Aproxima-se o Halloween. Multiplicam-se os fatídicos anúncios de horror e de contacto com a morte. Da série “Bite Size” Horror, promovida por várias marcas (M&Ms, Fox, Starbust), segue o anúncio Floor 9.5. Qualidade garantida.

Marca: M&Ms. Título: Floor 9.5. Direcção: Toby Meakins. USA, Outubro 2017.

 

Vida de esqueleto I: A carne e o osso

01. Vanitas italiana de finais do século XIX

01. Vanitas italiana de finais do século XIX

Não sou dado a invejas, mas Carlo Cipolla exagera. O ensaio “O papel das especiarias (e da pimenta em particular) no desenvolvimento económico da Idade Média” (1988, Allegro Ma Non Troppo) é uma paródia sublime da retórica científica. Da mesma craveira, só a descrição da Academia das Ciências por Jonathan Swift (1726, As Viagens de Gulliver) e o relatório das experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú” (Rabelais, François, 1534, Gargântua). Sou mais devoto do gozo do que da inveja, mas não resisto à tentação de imitar o Cipolla, o Swift e o Rabelais.

Nesta breve digressão pela vida do esqueleto, “a morte dinâmica” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, 1986, Diccionario de los symbolos, Barcelona, Ed. Herder, p. 482), entrançam-se “verdades até prova de contrário” e “quimeras em busca da verdade”. Desafio o leitor a destrinçá-las. Não parto da realidade contemporânea nem a ela pretendo chegar. A nossa sociedade é demasiado pós-tudo e pré-nada para servir de porto a quem deseje navegar. Está entalada no presente. Prefiro demandar os antepassados. Por vezes, enxergamos melhor afastando-nos.

“Eles [os antepassados], que se foram há muito tempo, se encontram em nós, como projeto, como carga pesando sobre o nosso destino, como sangue que corre em nós e como um gesto que desponta das profundezas do tempo” (Rilke, Rainer Maria, Carta a Kappus, 1904, in Cartas a um jovem poeta, 1929).

Os antepassados viviam e morriam, como nós. Viviam, é verdade, menos tempo. A esperança de vida do homem medieval era cerca de um quarto da esperança de vida do homem digital. Cercou, contudo, a morte com ideias e imagens como poucas épocas históricas o conseguiram. Hoje, afogado em informação, o nosso imaginário tece uma manta de retalhos costurados com fibra óptica. Sem sedimentação nem cristalização, a consistência permanece mole. Não somos milenaristas, cátaros ou beneditinos; somos multi, pluri, poli, inter, trans, pastiche… O homem contemporâneo pouco acrescenta ao imaginário da morte. Fragmentou-o. Não obstante a parada tecnológica, encontra-se menos preparado, mais desamparado e mais só perante a morte. Este despojamento bebe na ânsia do imediato, no sentimento de impotência e na promessa do vazio.

Para os antepassados, a morte e a vida são contrários. Mas contrários muito próximos. Tão próximos que se entrelaçam. Ao extremo de a vida ter morte e a morte ter vida. Esta sabedoria exprime-se em esculturas, pinturas, gravuras e rosários. Por exemplo, nos quadros e nos pingentes em que metade do ser humano é pele e carne e a outra metade, esqueleto (Figuras 2 a 6). O que significam estas artes? Que a morte difere da vida? Ou que não são assim tão diferentes? Pelo menos, aparecem juntas. Os anglo-saxónicos falam, a propósito deste tipo de imagens, em the death inside. Sob a pele, rodeado de carne, “jaz” o esqueleto. Dentro de nós, em nós. O comentário a um anúncio focado no Halloween retoma esta visão da vida e da morte: “Ah, Halloween. Time to let what’s inside, out”

Marca: Party City. Título: The way you look tonight. Agência: Hill Holliday. USA, Setembro 2017.

Particularmente eloquente é a gravura Duplo retrato (1616), de Matthew Merian (Figuras 7 e 8). Uma rotação de 180º basta para transformar a vida em morte e a morte em vida. Matthew Merian inspira-se, provavelmente, nos quadros de Giuseppe Arcimboldo (Figuras 9 a 11): Vegetais numa taça ou o jardineiro (ca. 1590); Cabeça reversível com um cesto de fruta (ca. 1590); e O cozinheiro (ca. 1570).

Objetos e imagens similares são (re)produzidos na modernidade: nas tatuagens, nas t-shirts, na subcultura gótica, nas lojas da Internet, nos cemitérios, nos disfarces do Halloween e, naturalmente, na arte. Por exemplo, a Voluptate Mors (1951), de Salvador Dali e Pilippe Halsman, uma caveira composta por corpos vivos, ou O espelho da morte (ca. 1929), de José Gutierrez Solana.

Monstruosidade ready-made

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Uma pessoa severamente queimada convive naturalmente com as pessoas que participam no Halloween, o dia em que a exclusão, as diferenças e os estigmas se apagam. Por um dia, o protagonista é uma imitação de si mesmo. Halloween, da Burns and Smiles, é um anúncio excelente com uma duração e um ritmo que permitem o afloramento de uma velha questão: afinal, quem são os monstros? Questão abordada, por exemplo, por Victor Hugo (Notre Dame de Paris, 1831), Tod Browning (Freaks, 1932) ou David Lynch (The Elephant Man, 1980).

Anunciante: Burns and Smiles. Título: Halloween. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Nicolas Galoux. França, Dezembro 2016.

As peúgas são armas de choque

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O anúncio Sock ‘m Dead é dirigido pelo norte-americano Robert Rodrigues, realizador de Sin City (com Frank Miller e Quentin Tarantino; 2005) e de El Mariachi (1992), “o filme mais barato da história” (7 725 dólares). O espírito do Halloween paira sobre esta curta-metragem, uma história bem contada com vampiros e peúgas.

Marca: Happy Socks. Título: Sock ‘m Dead. Produção: Troublemaker Studios. Direcção: Robert Rodriguez. Estados Unidos, Outubro 2015.

Diabo de guarda

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Decoração do Dia das Bruxas. 2011.

O anúncio neozelandês da Energy Online propõe um dispositivo contra vendedores porta a porta: uma aldraba grotesca mais uma espécie de gárgula gótica, ambas animadas e furibundas. Um susto a dobrar. Com esta parceria diabólica, não há vendedor que se atreva. Este anúncio é fruto da época: aproxima-se o Halloween, a festa do horror para todas as idades. Trick or treat.

Marca: Energy Online. Título: Door Knocking. Agência: Contagion, New Zealand. Direcção: James Anderson & Jess Griffin. Nova Zelândia, Setembro 2015.

Abóbora em chamas

The Nightmare Before Christmas. The Pumpkin King

A proximidade do Halloween faz-se sentir na publicidade. É o caso deste anúncio da Reese’s: The Perfect Combination. Técnica e esteticamente cuidado, lembra Tim Burton, nomeadamente o filme A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999) e o videojogo The Nightmare Before Christmas: The Pumpkin King (2005). Mas na ficha técnica, como realizador, consta Crobin. Um conteúdo na melhor tradição do Halloween: um cavaleiro sem cabeça a ajudar uma abóbora sem corpo.

Marca: Reese’s. Título: The Perfect Combination. Agência: Viacom Velocity – New York. Direcção: Crobin. Estados Unidos, Outubro 2015.

Não fazer compras dá azar

Sears. The Denskies. MediumEvitar fazer compras dá azar. Os Denksies são uma família que anda sempre à cata de esquemas alternativos às compras. O resultado é uma série de catástrofes. Medium é um dos anúncios da campanha da Sears. Foi publicado por altura do Halloween, com bruxas, monstros, feitiços e metamorfoses a condizer. Registe-se, por último, a ascensão da galinha no ranking mediático.

Marca: Sears. Título: Medium. Agência: mcgarrybowen, Chicago. Direção: Martin Granger. USA, Novembro 2013.