Regresso à Cruz de Ferro

Desencantei, finalmente, uma cópia do filme A Cruz de Ferro (Brum do Canto, 1968) rodado em Castro Laboreiro (ver https://tendimag.com/2015/10/23/a-cruz-de-ferro/). Retrata o conflito entre duas aldeias por causa de um namoro e, por arrasto, da água. Agradeço este reencontro com A Cruz de Ferro, passado meio século, ao Valter Alves, um estudioso das gentes de Melgaço, cujo blogue recomendo: http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/. O filme completo está acessível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8. Segue um excerto. Privada de água, a população, na maioria mulheres, decide construir um engenho de rodas articuladas capaz de elevar a água do rio até à aldeia (vídeo 1). Uma demonstração da potência popular, sobre-humana, cara ao Estado Novo, patente, também, no episódio da reconstrução, “durante três dias e três noites”, da Praça de Touros de Guimarães, no ano de 1947 (vídeo 2).
Vídeo 1. A Cruz de Ferro. Realizador: Brum do Canto. Portugal. 1968. Excerto: 01.32.20 – 01.41.40.
Vídeo 2. Reconstrução da Praça de Touros de Guimarães (1947).
Dilema castrejo
Esta escultura em baixo-relevo pertence ao Museu da Cultura Castreja, junto à Citânia de Briteiros. Encerra um dilema:
“A interpretação deste baixo-relevo não é consensual, divergindo entre um episódio de combate e uma cena sexual / Representa duas figuras humanas, parecendo a figura da direita em posição de fuga e a da esquerda em perseguição da primeira. A figura da esquerda parece atacar a figura da direita, agarrando-a pelo cabelo. Esta leva um objecto na mão (que pode ser uma arma)” (excerto da notícia do museu).
A cena retrata um assédio. Uma figura persegue a outra. Assédio bélico ou sexual? Aquela coisa entre as duas figuras é uma arma ou um falo? O sexo e a guerra, o amor e a violência, sempre se cotejaram. Afrodite, deusa do amor, foi amante de Ares, deus da guerra. Afrodite e Dionísio tiveram um filho, Priapo, deus da fertilidade, condenado por Hera a ter um órgão genital disforme. Estaremos perante um Priapo de Briteiros? Talvez não. O que parece nem sempre é.
As botas de Gulliver. Magritte em Chicago
Há dias, abordei numa comunicação a questão das barreiras e das distâncias entre os espaços culturais e determinados segmentos da população.
Para a avaliação do impacto de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, foram realizados 19 inquéritos noutros tantos eventos (para aceder ao pdf do relatório final, carregar na imagem ou no link: Impactos Económicos e Sociais. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura).
Os resultados revelam que a frequência de recintos abertos é relativamente mais elevada entre as pessoas com menos habilitações literárias (Gráfico 1). Cerca de metade dos licenciados pelo ensino superior foram a eventos em recintos fechados (45,2%). Este valor desce para um quinto nas pessoas com ensino básico (20,2% e 22,1%).
Estes resultados não surpreendem. Pierre Bourdieu e Alain Darbel chamaram, há meio século, a atenção para esta desigualdade em termos de cultura legítima (L’Amour de l’art. Les Musées et leur public, Paris, Minuit, 1966). Em suma, nos eventos, a natureza do espaço é socialmente discriminante. Ao contrário da ponte, que une, a porta separa ou filtra mundos. Os nossos e os dos outros. Se a ponte remete para a passagem, a porta pode funcionar como barreira, que abre ou fecha consoante a origem e a condição social. Apesar da generosidade do apelo dos espaços sociais, nem todos os visados se sentem chamados.
A reserva face aos recintos fechados por parte da população menos escolarizada reaparece nos resultados de outro estudo promovido para a Capital Europeia da Cultura: um inquérito aos residentes no concelho. O gráfico 2 contempla as respostas respeitantes à visita aos espaços culturais locais. Quatro espaços foram visitados, pelo menos uma vez, por mais de 90% dos vimaranenses: Penha (99%), Centro Histórico (97%), Castelo (95%) e Parque da Cidade (92%). Em contrapartida, as visitas situam-se aquém dos 70% no Centro Cultural de Vila Flor (69%), na Citânia de Briteiros (67%), no Museu Alberto Sampaio (66%) e no Museu Martins Sarmento (63%).
Entre os espaços culturais mais visitados pelos vimaranenses, predominam os recintos abertos; e entre os menos visitados, os recintos fechados. As excepções fazem sentido. O Paço dos Duques é, dos espaços museológicos sob a alçada da Direcção Regional da Cultura do Norte, o mais visitado do Norte de Portugal: 137 402 visitas no primeiro semestre de 2015. Neste, como noutros casos, é mais adequado falar em fluxo, capaz de se sobrepor à ponte e à porta. Quanto ao Pavilhão Multiusos, há portas que abrem mais do que fecham: aproximam as pessoas e sintonizam mundos (neste domínio, os centros comerciais surgem como um exemplo extremo (ver Albertino Gonçalves. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado).
A abertura dos espaços culturais a novos públicos é um desafio antigo, que se agudizou com o advento do triângulo virtuoso da sustentabilidade, que submete os espaços culturais a três pressões algo desencontradas: redução do orçamento por parte do Estado, incremento das verbas próprias e aumento da afluência de visitantes. Neste cenário, dificuldades, empenho e empreendedorismo não têm faltado. Para aceder ao vídeo seguinte, carregar na imagem.
Unthink Magritte. Exposição no Instituto de Arte de Chicago. Leo Burnett. Chicago. 2014.
O vídeo sobre a exposição de René Magritte no Instituto de Arte de Chicago evidencia algumas destas preocupações. Primeiro, a preocupação com a eliminação de barreiras entre o museu e os públicos, bem como com a promoção da participação dos visitantes. Segundo, a eficiência e a atractividade da exposição, com recurso a novas tecnologias, incluindo uma aplicação para tablets e telemóveis. Terceiro, uma campanha de envolvimento, disseminada por diversos locais de Chicago. É certo que as portas do Instituto de Chicago se abrem. Mas, neste caso, abrem-se para sair, para cativar públicos; informação nos telemóveis, cartazes nas ruas e botas na praia. Sobre o efeito no número de entradas, pouco se sabe. Pressupõe-se….
Subsiste um problema. Tão velho quanto a sociologia da arte. As portas e as pontes mais decisivas são interiores, estão na cabeça das pessoas. Aquém e além das tecnologias. São vidas. Não obstante a qualidade da campanha, muitas pessoas não vão porque não lhes interessa. Pressentem que não vão gostar.Como diria Pierre Bourdieu, é difícil gostar de uma obra de arte quando não se dominam os códigos que possibilitam o acesso ao seu valor. As diferenças e as hierarquias culturais são as principais barreiras à democratização da cultura e ao alargamento dos públicos.
Luta pelo prazer
Em 2009, Wim Mertens deu um concerto memorável no Theatro Circo, em Braga. Compôs, volvidos poucos anos, a obra When Tool Met Wood, especificamente para Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Struggle for Pleasure e Close Cover são duas músicas que integram o álbum Struggle for Pleasure (1983) produzido com os Soft Verdict, um grupo de composição variável dirigido por Wim Mertens. A qualidade do som e da imagem dos vídeos originais deixa a desejar. Mantive o primeiro, Struggle for Pleasure, mas recorri no segundo, Close Cover, a uma interpretação de 2009.
Soft Verdict / Wim Mertens. Struggle for Pleasure. Struggle for Pleasure. 1983.
Wim Mertens Ensemble. Close Cover. Struggle for Pleasure. 2009.
A Requalificação do Largo do Toural – Convite
Percursos Profissionais na Área da Cultura é um ciclo de sessões de trabalho organizado pelo curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho. Em cada sessão, profissionais com perfil relevante na área da cultura são convidados a partilhar a sua experiência, designadamente em iniciativas e actividades concretas.
A Requalificação do Largo do Toural é o tema da próxima sessão de trabalho, que terá lugar no dia 28 de Fevereiro, às 18 horas, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães.
A sessão conta com a participação de:
– Maria Manuel Oliveira / Centro de Estudos da Escola de Arquitectura, Responsável pelo projecto;
– António Amaro das Neves, Presidente da Fundação Martins Sarmento;
– Samuel Silva, Jornalista do Público.
A presente sessão é co-organizada pelo mestrado em Comunicação, Arte e Cultura e pela Sociedade Martins Sarmento.
As sessões do ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura são abertas ao público.
O Director do Curso de Mestrado
Albertino Gonçalves
Um mundo de eventos
“Estamos vivendo a década do esporte, vamos fazer do Brasil o País dos nossos sonhos”. E nós estamos vivendo o ano das capitais europeias, vamos acordar Portugal. O mundial de futebol (2014) e os jogos olímpicos (2016) que o Brasil acolhe são apenas as duas competições desportivas mais importantes do planeta. Mas nós temos eventos todos os dias! Falando sério, o anúncio Dreams é primoroso: tem imagem, tem enquadramento, tem ritmo e não sai da cidade (ver vídeo 1). Em Guimarães, nem sequer se sai de casa para ouvir boa música. Fiquei surpreendido e orgulhoso ao ver alunos a tocar violoncelo no primeiro concerto da CEC 2012, no âmbito do projecto “Mi casa es tu casa” (ver vídeo 2).
Marca: Olympikus. Título: Dreams. Agência: Dcs Paranoid. Direção: Carlos Manga Jr. Brasil, Janeiro 2012.
GMRTV. Casa na Quintã recebeu 1º concerto da CEC 2012. 28.01.2012.











