Anjo (da) guarda


A toda a hora e em todo lado
Posso contar com a sua vigia
Não usa arma, não usa a força
Usa uma luz com que ilumina a minha vida
(António Variações)
Jean Michel Basquiat. Fallen Angel. 1981

58, 56, 54,
Good angels at my door.
63, 62, 61, 60, 59, 58,
Good angels at my gate
59, 58, 57, 56, 55, 54,
Good angels at my door.
(Manfred Mann’s Earth Band)
Sax Berlin. Dollar Angel. Contemporary Expressionist Street Art. 2018
Outrora, o anjo da guarda era uma graça providencial, uma preciosidade desejada. Hoje, proliferam os anjos guardas caídos como chuva, guardiões do templo que infestam e infetam as nossas vidas.
Seguem as canções “Anjinho da Guarda”, do António Variações, e “Angels At My Gate”, dos Manfred Mann’s Earth Band.
Gárgulas impúdicas
Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência estranha mas possível. Em Portugal, existem gárgulas impúdicas na Sé de Braga (figura 1), na Igreja Matriz de Caminha (figuras 2 e 3) e na Sé da Guarda (figura 4). Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Algumas, além do rabo, exibem os genitais. Por exemplo, na Matriz de Caminha, numa casa do século XV em Bruniquel (figura 5) e na Igreja de St Pierre de Dreux (figura 6).
Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se borrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira incontinente.
O que significa tamanha vulgaridade numa igreja? O fenómeno não é inédito. As danças macabras atemorizam tanto as igrejas como os cemitérios dos sécs. XV e XVI. Nos edifícios beneditinas, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.
Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte. Mikhail Bakhtin, convoca os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus.








