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Desconforto

Gravity Cat

Descontrolo gravitacional, caos e vertigem, uma trilogia do desconforto. “Desconforto”, palavra pouco escrita e muito vivida. O trailer Gravity Cat Live Action, do videojogo Gravity Rush 2, para a PS4, provoca, precisamente, uma sensação de desconforto. Desconforto mais do que estranhamento. As sequências iniciais dos filmes Laranja Mecânica e Matrix, bem como a sequência final do filme Blade Runner, causam estranheza e desconforto. Mas quando são observadas pela vigésima vez, a familiaridade aumenta e a estranheza diminui. Mas o desconforto, esse, permanece.

“Vigésima vez”? Há filmes, músicas e livros que revisito dezenas de vezes. Não têm conta as vezes que folheei Os Pensamentos de Pascal. Em contrapartida, há sucessos em que nem sequer toco. Um bom filme, uma boa música e um bom livro são “obras abertas” (Eco, Umberto, A Obra Aberta, 1ª ed. 1962) a reexploração interminável. Um sucesso é, até prova do contrário, um sucesso, uma perda de tempo em potência.

Conheço mal o mundo dos videojogos, mas percebe-se que um jogador pode passar dezenas de vezes pela mesma situação. Faz parte do tipo de progressão, pautada pela repetição e pelo retorno. Ao cabo de muitas passagens, o que se mantém? O estranhamento ou o desconforto?

Aventuro-me a uma ideia peregrina: a sensação de desconforto faz parte da própria dinâmica do jogo. O jogador sai, para exaltação ou alívio, de situações desconfortáveis. O desconforto e a incerteza são componentes do jogo, nomeadamente, dos jogos agonísticos (Caillois, Roger, 1958, Les Jeux et les Hommes: Le masque et le vertige, Paris, Gallimard).

Para terminar, só uma pergunta. Quem é o energúmeno que, com sol vaidoso e vento pasmado, à beira-mar, se empenha a escrever um artigo no blogue? Só um viciado. Ou talvez não! O futuro também nos determina: corrigir testes; verificar a candidatura de um megaprojecto; alinhavar uma videoconferência para uma universidade brasileira; seriar as candidaturas a um mestrado; preparar a apresentação de um livro… Tudo para a semana! Nestas circunstâncias, escrever um artigo no blogue pode oferecer-se como um pretexto autodeterminado, algo legítimo, para atrasar tanta urgência heterodeterminada. Desconforto é uma palavra que muito se vive e pouco se escreve.

Marca: Playstation 4 – Gravity Rush 2. Título: Gravity Cat. Agência: Hakuhodo Inc., Tokio. Direcção: Show Yanagisawa. Japão, Janeiro 2017.

Borbulhas

Captain Marvel

Captain Marvel

Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa!
O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!

Marca: Lipton. Título: Tiny Bubbles. Agência: DDB New York. Direcção: Style War. USA, Fevereiro 2015.

Desafiar os limites

Red Bull. 2013 World ofDesportistas elevam-se, saltam, desafiam os limites e a gravidade. Em ambientes grandiosos. Eis a aposta da Red Bull. Este anúncio dedica um minuto a diversas proezas desportivas radicais financiadas pela marca, incluindo o salto “estratosférico” de Felix Baumgartne. “O único limite é aquele que te impões a ti próprio”.

Marca: Red Bull. Título: 2013 World of Red Bull. EUA, Fevereiro 2012.

Levitação 2

Por falar em suspensão da gravidade, a Madonna levita a pequena altura no vídeo musical da canção Frozen. Até lembra a Marilyn Monroe fotografada pelo Philippe Halsman.

Philippe Halsman. Marilyn Monroe

A velocidade do passado

La Vitesse du Passé (2011, com mecenato da Audi) é uma curta-metragem que conta uma história de amor tensa, trágica e intemporal em que se conjugam a realidade e a ficção, o sensível e o oculto, o instante e a duração. Neste conto poético e onírico, a justaposição de várias temporalidades provoca uma suspensão da gravidade (mais uma para a coleção) em foco neste trailer. Clicar no seguinte endereço (http://vimeo.com/38652739) ou na imagem para visionar.

Dominique Rocher. La vitesse du passé. Trailer

Um par de asas

Uma sugestão sábia: não vencemos a gravidade (the grave) sozinhos, só partilhando as nossas asas. Entre a vida e a morte, a complementaridade faz a diferença. “We are, each of us angels with only one wing; and we can only fly by embracing one another (Luciano de Crescenzo)”. Uma história animada original, criada pelos alunos da classe 2012 da escola dinamarquesa The Animation Workshop.

Levitação

Fiz, recentemente, uma comunicação sobre a suspensão da gravidade nas iluminuras medievais e na publicidade actual. Neste domínio, Marc Chagall é incontornável. Deixo aqui um pequeno apontamento dedicado não tanto a quem levita, mas a quem faz levitar os outros.