Francisco de Goya. Leveza e Turbulência
“A estupidez é um peso no espírito que carregamos connosco nas acções e nos discursos” (Blaise Pascal).
Leveza e turbulência, eis uma associação que sempre acompanhou a humanidade. Neste capítulo, a reivindicação de originalidade aproxima-se da sublimação da ignorância. Somos biliões de seres humanos e temos centenas de milhares de anos. Tanta gente criativa! Aspirar a uma ideia original é como procurar uma agulha num palheiro e enfiar-lhe, em seguida, um camelo pelo fundo. Como diria Pascal, demasiada inteligência estupidifica.

Goya. Bruxas no ar. 1797-8.
A leveza e a turbulência estão patentes nos frescos de Pompeia e da Domus Aurea, nas esculturas e nas iluminuras medievais, nos tormentos dos juízos finais, nas artes da bruxaria, nas pinturas de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Francisco Goya, Marc Chagall ou Max Ernst.

Goya. Folly of the Bulls, circa 1815.
A originalidade plagiada exalta pequenos e grandes “mestres pensadores”. Convém, no entanto, não invocar o nome da originalidade em vão! Nem sequer a tirada de Isaac Newton convence: “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Gigantes, só nos contos de fadas, nos filmes e nos videojogos. Só não somos anões porque nos fizeram aos saltos. Importa pagar tributo aos credores. Começo por Francisco de Goya.

Goya. Atropos o Las Parcas. 1820-1823.
É difícil encontrar autor que tão bem conjugue leveza e turbulência. Principalmente nos Caprichos e durante a “fase negra”. Leveza e turbulência no tema e no traço, testemunhos de uma vida e de uma obra conturbadas, senão trágicas. Figuras e pessoas erguem-se nos ares desassossegadas e ameaçadoras: bruxas, monstros, parcas, bestas e seres humanos, ou seja, “os fantasmas de Goya”, título de um filme de Milos Forman, de 2007, menos sobre o pintor e mais sobre a relação entre uma jovem vítima e o seu agressor, um inquisidor, um caso de síndrome de Estocolmo.
Francisco de Goya. Leveza e Turbulência. Uma selecção.
A discriminação dos obesos
Nos séculos XV a XVIII, em plena Idade Moderna, perseguiram-se, exilaram-se e executaram-se judeus, árabes, bruxas, tolos… Quinhentos anos depois, perseguem-se outros seres humanos. Os obesos não são exilados, nem executados, mas são perseguidos, rebaixados e estigmatizados. Continua no vento a intolerância fanática. Uma gorda no governo, nem pensar! No Ministério da Saúde, cruzes! Pelos vistos, é obesidade doente. Assim sendo, não é pecado, mas é defeito. Há quinhentos anos, a perseguição fundamentava-se em derivações religiosas; agora, fundamenta-se em derivações científicas. Religião como ciência e ciência como religião. Em ambos os casos, razão delirante. A discriminação social sempre me interessou. Atento à discriminação dos obesos, não aguardava uma notícia tão crua como esta do Courrier International: Une personne obèse peut-elle être ministre da la Santé? A caça ao gordo é caça ao homem. E a caça ao homem é atributo dos monstros. O sono da razão continua a produzir monstros (Francisco Goya).
Pedagogias
Uma citação, uma gravura e um poema.
“Contrariado, o pai [Grangousier] apercebeu-se que [Gargantua], embora estudasse muito bem e nisso empregasse todo o tempo, não obtinha nenhum aproveitamento e, pior ainda, estava a ficar doido, néscio, completamente aturdido e decrépito.”
(François Rabelais, Gargantua, capítulo XY).
O Cábula
Com a cabeça diz não
mas diz sim com o coração
diz sim àquilo que ama
e ao professor diz não
está de pé
é interrogado
e todos os problemas se colocam
de súbito tem um ataque de riso
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as ratoeiras
e apesar das ameaças do mestre
e sob as vaias dos meninos-prodígio
com paus de giz de todas as cores
desenha no quadro negro da dor
o rosto da felicidade
Jacques Prévert
Tradução: Manuela Torres
Oratória
Sempre que um político fala, inquieta-me uma pergunta: será o povo assim tão estúpido? Rafael Bordalo Pinheiro desenhou, a seu tempo, uma resposta. Mas foi há mais de um século!

Rafael Bordalo Pinheiro (Fundação Mário Soares).
Guarda-chuva
O guarda-chuva não é um objecto qualquer. Consagrado por René Magritte, o guarda-chuva é bom para a imagem e para o imaginário: protege-nos dos céus.
Muitos anúncios recorrem à figura do guarda-chuva, nomeadamente no âmbito de coreografias. É o caso deste novo anúncio da Yoplait.
Tanto guarda-chuva e nenhum preto! Black is the color of my true love’s hair.
Marca: Yoplait. Título: Umbrellas. Agência: Saatchi & Saatchi New York. Direção: Eli Sverdlov. EUA, Setembro 2012.
O negro e o sombrio – Goya
Na história da arte, não há negro mais negro do que as pinturas negras de Goya (1819-23). O sonho da razão insinua-se cedo na sua obra. Durante décadas, Goya desancorou a humanidade e pendurou-a no ar em noite de bruxedo, com tons obscuros, lúgubres e abismais.






