Antecipação do surrealismo no século XVI: Lorenz Stoer

Em férias, a criatividade perde o cio. Sobram algumas rotinas respeitantes a compromissos de escrita e ao restauro do Tendências do Imaginário, uma canseira imperativa, devido à antiguidade e ao alcance do blogue. Urge recuperar e gravar vídeos desaparecidos. Este resgate de artigos (do mesmo dia) trouxe duas surpresas: as visualizações aumentaram 62% e o peso de Portugal subiu de 30 para 43%.
Imagem: Lorenz Stoer – Sem título. Geometria et Perspectiva, 1567
Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer, artigo colocado em 15 de agosto de 2013, representa o tipo de incursão que mais me motiva: a exploração de artistas, ao mesmo tempo, desconcertantes e precursores, mas pouco conhecidos. Sempre que possível, proponho galerias de imagens e vídeos musicados. O resultado pode ser interessante.
Geometria do poder

Linhas. Quino. Hombres de bolsillo. 1977.
Há séculos que se conhece a diferença entre uma linha recta e uma linha curva. A primeira é clássica e a segunda, barroca. Comparada com a linha recta, a linha curva acentua a sensação de volume, movimento, desequilíbrio, jogo luz e sombra e aproximação dos opostos. Para Quino as linhas também se distinguem na sua relação com o poder. A recta é mais obediente, mais disciplinada e, em suma, mais alinhada e mais correcta.
Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer
Lorenz Stoer (c.1537-c.1621) nasceu em Nuremberga, mas fez carreira em Augsburgo. Parte da sua obra aproxima-o de Wenzel Jamnitzer (http://tendimag.com/2012/03/26/perspectivas-wenzel-jamnitzer-e-m-c-escher/).
“Tudo indica que os estudos académicos dedicados a Stoer se resumem a um par de textos datados de meados do século XX que o associam a dois ourives de Nuremberga – Hans Lencker [ver Figura 2] e Wenzel Jamnitzer- compondo um trio de artistas maneiristas interessados pelo desenho geométrico e pela perspectiva” (http://bibliodyssey.blogspot.pt/2009/09/geometric-landscape.html).
Uma série de gravuras de Lorenz Stoer foram compiladas na obra Geometria et Perspectiva, publicada em 1567, no mesmo ano que a Perspectiva Literaria, de Hans Lencker, e um ano antes da edição da Perspectiva Corporum Regularium, de Wenzel Jamnitzer. Três obras de “geometria fantástica”, todas publicadas em Nuremberga, com a diferença de um ano. É certo que Stoer desenvolveu uma técnica própria de desenhar poliedros, mas a sua originalidade radica, principalmente, nas gravuras de paisagens geométricas, com figuras minuciosa e caprichosamente dispostas, que antecipam várias práticas artísticas contemporâneas.
“A justaposição de figuras geométricas e cenários de ruínas traz à mente tanto Escher como Piranesi, um anacronismo tornado mais estranho e exacerbado pelas formas elaboradamente decorativas nos primeiros planos de algumas gravuras, que, como George Hart observou, poderiam passar por esculturas abstractas do séc. XX” (http://www.spamula.net/blog/2003/07/geometry_perspective.html).
É difícil percorrer a obra de Stoer sem convocar M. C. Escher (1898-1972), o surrealismo e, porventura, algumas correstes de arte contemporânea.
Greensleeves to a Ground, a música que acompanha o vídeo com as gravuras de Lorenz Stoer, é da autoria de um anónimo do séc. XVI. A interpretação, próxima do original e com instrumentos da época, é de Jordi Savall, com Hesperion XXI (Ostinato, 2001).
Para melhorar a qualidade da visualização do vídeo Paisagens Geométricas, carregar em HD no ângulo superior direito.
Galeria com gravuras de Lorenz Stoer:
Perspetivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher
Nos últimos dias, estive absorto a preencher a minha autoavaliação heterodeterminada. Pagar a quota de uma associação científica ou profissional dá pontos. Manter um blogue não conta nada. Ainda bem! É o meu luxo.
Quando andava às voltas com o Christophe Jamnitzer (ver artigo Grotesco Maneirista: Christophe Jamnitzer) deparei com a obra do avô, Wenzel Jamnitzer (1507-1585), tão ou mais interessante do que a do neto. Ourives alemão do séc. XVI, foi um notável artista gráfico maneirista. No livro Perspectiva Corporum Regularium (1568), concebe formas geométricas que exploram as potencialidades da perspetiva. Vários contemporâneos, entre os quais Johannes Kepler, produziram desenhos similares. As gravuras de Jamnitzer lembram algumas obras de M.C. Escher (séc. XX). Ambos são artistas gráficos conceptuais, trabalham com formas geométricas, visam a ilusão do espaço e elegem a perspetiva como alvo privilegiado. Cotejar Jamnitzer e Escher é, assim, uma tentação. Mas só isso. Um mero divertimento. Jamnitzer apurou a perspetiva, Escher mostrou os seus limites. Jamnitzer construiu realidades complexas, Escher mundos impossíveis e paradoxais.
Albertino Gonçalves. Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher. Março 2012.






























