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Geometria do poder

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Linhas. Quino. Hombres de bolsillo. 1977.

Há séculos que se conhece a diferença entre uma linha recta e uma linha curva. A primeira é clássica e a segunda, barroca. Comparada com a linha recta, a linha curva acentua a sensação de volume, movimento, desequilíbrio, jogo luz e sombra e aproximação dos opostos. Para Quino as linhas também se distinguem na sua relação com o poder. A recta é mais obediente, mais disciplinada e, em suma, mais alinhada e mais correcta.

Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer

Lorenz Stoer. Geometria et Perspectiva.

Lorenz Stoer. Geometria et Perspectiva.

Lorenz Stoer (c.1537-c.1621) nasceu em Nuremberga, mas fez carreira em Augsburgo. Parte da sua obra aproxima-o de Wenzel Jamnitzer (https://tendimag.com/2012/03/26/perspectivas-wenzel-jamnitzer-e-m-c-escher/).

“Tudo indica que os estudos académicos dedicados a Stoer se resumem a um par de textos datados de meados do século XX que o associam a dois ourives de Nuremberga – Hans Lencker [ver Figura 2] e Wenzel Jamnitzer- compondo um trio de artistas maneiristas interessados pelo desenho geométrico e pela perspectiva” (http://bibliodyssey.blogspot.pt/2009/09/geometric-landscape.html).

Hans Lencken. Perspectiva Literária. 1567.

Hans Lencken. Perspectiva Literária. 1567.

Uma série de gravuras de Lorenz Stoer foram compiladas na obra Geometria et Perspectiva, publicada em 1567, no mesmo ano que a Perspectiva Literaria, de Hans Lencker, e um ano antes da edição da Perspectiva Corporum Regularium, de Wenzel Jamnitzer. Três obras de “geometria fantástica”, todas publicadas em Nuremberga, com a diferença de um ano. É certo que Stoer desenvolveu uma técnica própria de desenhar poliedros, mas a sua originalidade radica, principalmente, nas gravuras de paisagens geométricas, com figuras minuciosa e caprichosamente dispostas, que antecipam várias práticas artísticas contemporâneas.

Hans Lencker. Schneckenhaus. Perspectiva Literaria (1567)

Hans Lencker. Schneckenhaus. Perspectiva Literaria (1567)

“A justaposição de figuras geométricas e cenários de ruínas traz à mente tanto Escher como Piranesi, um anacronismo tornado mais estranho e exacerbado pelas formas elaboradamente decorativas nos primeiros planos de algumas gravuras, que, como George Hart observou, poderiam passar por esculturas abstractas do séc. XX” (http://www.spamula.net/blog/2003/07/geometry_perspective.html).

É difícil percorrer a obra de Stoer sem convocar M. C. Escher (1898-1972), o surrealismo e, porventura, algumas correstes de arte contemporânea.

Jordi Savall. Ostinato. 2001

Greensleeves to a Ground, a música que acompanha o vídeo com as gravuras de Lorenz Stoer, é da autoria de um anónimo do séc. XVI. A interpretação, próxima do original e com instrumentos da época, é de Jordi Savall, com Hesperion XXI  (Ostinato, 2001).

Para melhorar a qualidade da visualização do vídeo Paisagens Geométricas, carregar em HD no ângulo superior direito.

Galeria com gravuras de Lorenz Stoer:

Perspetivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher

Nos últimos dias, estive absorto a preencher a minha autoavaliação heterodeterminada. Pagar a quota de uma associação científica ou profissional dá pontos. Manter um blogue não conta nada. Ainda bem! É o meu luxo.
Quando andava às voltas com o Christophe Jamnitzer (ver artigo Grotesco Maneirista: Christophe Jamnitzer) deparei com a obra do avô, Wenzel Jamnitzer (1507-1585), tão ou mais interessante do que a do neto. Ourives alemão do séc. XVI, foi um notável artista gráfico maneirista. No livro Perspectiva Corporum Regularium (1568), concebe formas geométricas que exploram as potencialidades da perspetiva. Vários contemporâneos, entre os quais Johannes Kepler, produziram desenhos similares. As gravuras de Jamnitzer lembram algumas obras de M.C. Escher (séc. XX). Ambos são artistas gráficos conceptuais, trabalham com formas geométricas, visam a ilusão do espaço e elegem a perspetiva como alvo privilegiado. Cotejar Jamnitzer e Escher é, assim, uma tentação. Mas só isso. Um mero divertimento. Jamnitzer apurou a perspetiva, Escher mostrou os seus limites. Jamnitzer construiu realidades complexas, Escher mundos impossíveis e paradoxais.

Albertino Gonçalves. Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher. Março 2012.