Humor negro: chinelos biodegradáveis

O regresso do sol e a azáfama pré-festiva contribuem para evaporar a neve e o espírito natalício. Apetece algo diferente. Resulta difícil encontrar um anúncio recente que não respire ternura e esperança. Encontrei noutros meridianos geográficos e culturais: na Índia. “Earth”, da Chupps Footwear, é um expoente de humor negro.
Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
Potência e Angústia

Antonio Vivaldi consta entre os compositores mais inovadores da história da música. Terá inventado ou consolidado a estrutura do concerto e da sinfonia. Foi respeitado e protegido por réis, imperadores e papas. Mas nunca se libertou da oposição de parte da Igreja. Acabou a vida na miséria, tendo sido enterrado numa sepultura anónima de pobre em Viena. A Tempestade (3º movimento do Verão, das Quatro Estações) transmite uma sensação de potência, senão violência, que nos oprime. Recorda a Grande Fuga em Ré Maior, de Beethoven. Mesma potência, mesmo sufoco. A Grande Fuga, publicada após a morte de Beethoven, foi recebida com estranheza pela crítica. Ao contrário de Vivaldi, Beethoven teve um funeral imponente, com mais de vinte mil pessoas a assistir (ver imagem).
Ambas as obras, a Tempestade No Mar, de Vivaldi, e a Grande Fuga, de Beethoven, permanecem atuais, de uma atualidade surpreendente.
O pranto na era dos media
O artigo anterior, Dobras de sofrimento, aflorou a figura do pranteador e da carpideira ao longo dos séculos . De túmulo em túmulo; de cemitério em cemitério. Proporciona-se acrescentar um caso recente e excepcional de lamentação pública: a interpretação da canção Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose por Elton John durante o funeral da Princesa Diana.
Elton John – Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose – Princess Diana’s Funeral 1997.
Imaginação e sensibilidade
Hoje, descobri a Bonkers Amsterdam, uma agência de produção. Cada anúncio é um poema, e cada poema, uma dádiva.
O primeiro anúncio é fruta da época. Envolve uma agência funerária, negócio em crescimento. Alguns anúncios são particularmente criativos. Recordo o anúncio português A um morto nada se recusa . O anúncio Friends, da Monuta, centra-se num grupo de amigos, que perde o membro estrela. Nenhuma novidade. O que mais cativa não é o tema, mas o modo.
O segundo anúncio, Tennis, da Het Net, propõe um humor absurdo. É necessário intuição para escolher o banal e arte para o subverter.
Marca: Monuta. Título: Friends. Agência: N=5, Amsterdam. Produção: Bonkers. Direcção: Bram Schouw. Holanda, Outubro 2017.
Marca: Het Net. Título: Tennis. Agência : Lowe Lintas & Partners. Produção: Bonkers. Direcção: Van Heyningen. Holanda, 2001.
O funeral do website
Eis uma bela autopromoção da NOSSA, eleita agência criativa digital do ano pelos prémios Sapo. Tudo tem o seu tempo. A NOSSA entendeu celebrar a morte do seu último website com honras de um funeral sentido. Uma espécie de luto de remição. Este anúncio vem a preceito: estou a separar uma série de artigos numa categoria intitulada “a morte das coisas”.
Marca: NOSSA. Título: Old Website Funeral. Agência: NOSSA. Direcção: Nuno Maltez. Portugal, Fevereiro 2017.
Corrida no cemitério
Quanto mais rápido conduzir mais cedo chega ao túmulo. Com honras de aceleração final. Esta é a mensagem do anúncio Funeral, do Conselho de Segurança Rodoviária Checo (UAMK). Um anúncio criativo. Tão turbulento e delirante quanto uma corrida de cortejos fúnebres num cemitério. Uma história bem contada. O caos ultrapassa a ordem.
Marca: UAMK (Road Safety Council). Título: Funeral. Agência: Leo Burnett. Direcção: Jakub Kohak. República Checa, 2003.
Era uma vez a morte
Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.
Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.
O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.
Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.
Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.
Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.
Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.
De rir a chorar
Ontem como hoje, na Europa e no mundo, há funerais festivos e há funerais macabros. E outros ainda difíceis de classificar. Existem muitos anúncios publicitários com funerais. Começo por reter dois a pender para o risonho.
O ser humano delira. Dá-lhe para dançar e rir quando é suposto ensimesmar e chorar. No primeiro anúncio, um funeral com lágrimas e dança (ver anúncio português semelhante: https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/). No segundo, o humor resulta mais vulgar: o velório passa colectivamente das lágrimas às gargalhadas. Passar de uma emoção à emoção oposta parece ser apanágio do homem. Talvez porque os extremos estão mais próximos do que se pensa.
Marca: Spotify. Título: Play this at my funeral. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Fevereiro 2007.
Marca: Tages Anzeiger. Título: L’Enterrement. Agência: McCann Erikson. Suíça, 1998.
A isabel comentou este artigo relembrando o vídeo Doing It To Death, dos The Kills. Já o tinha colocado no Tendências do Imaginário (https://tendimag.com/2016/11/02/grao-a-grao-meio-milhao/). Mas o vídeo é extraordinário e a coreografia, fantástica. Vou recolocá-lo. O comentário da Isabel vem a preceito, também o vou colocar.
“Embora não seja novidade no tendimag, suponho que este é um dos casos difíceis de classificar: https://www.youtube.com/watch?v=498zUzNGQxY (…) Quando os mortos têm um sentido de humor fora do comum e se tem um relação próxima com eles, o que fazer? Chorar de saudades ou rir com saudades? Não me parece assim tão difícil de compreender, só sentindo. Não deixa de ser uma homenagem, num sentido ou noutro. Ou oscilando” (Isabel Vilela).
The Kills. Doing It To Death. Ash & lce. 2016.





