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O pranto na era dos media

Elton John / DianaO artigo anterior, Dobras de sofrimento, aflorou a figura do pranteador e da carpideira ao longo dos séculos . De túmulo em túmulo; de cemitério em cemitério. Proporciona-se acrescentar um caso recente e excepcional de lamentação pública: a interpretação da canção Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose por Elton John durante o funeral da Princesa Diana.

Elton John – Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose – Princess Diana’s Funeral 1997.

Imaginação e sensibilidade

Het NetHoje, descobri a Bonkers Amsterdam, uma agência de produção. Cada anúncio é um poema, e cada poema, uma dádiva.

O primeiro anúncio é fruta da época. Envolve uma agência funerária, negócio em crescimento. Alguns anúncios são particularmente criativos. Recordo o anúncio português  A um morto nada se recusa . O anúncio Friends, da Monuta, centra-se num grupo de amigos, que perde o membro estrela. Nenhuma novidade. O que mais cativa não é o tema, mas o modo.

O segundo anúncio, Tennis, da Het Net, propõe um humor absurdo. É necessário intuição para escolher o banal e arte para o subverter.

Marca: Monuta. Título: Friends. Agência: N=5, Amsterdam. Produção: Bonkers. Direcção: Bram Schouw. Holanda, Outubro 2017.

Marca: Het Net. Título: Tennis. Agência : Lowe Lintas & Partners. Produção: Bonkers. Direcção: Van Heyningen. Holanda, 2001.

O funeral do website

NOSSA. Funeral de Website. 2017

NOSSA. Old website funeral. 2017

Eis uma bela autopromoção da NOSSA, eleita agência criativa digital do ano pelos prémios Sapo. Tudo tem o seu tempo. A NOSSA entendeu celebrar a morte do seu último website com honras de um funeral sentido. Uma espécie de luto de remição. Este anúncio vem a preceito: estou a separar uma série de artigos numa categoria intitulada “a morte das coisas”.

Marca: NOSSA. Título: Old Website Funeral. Agência: NOSSA. Direcção: Nuno Maltez. Portugal, Fevereiro 2017.

Corrida no cemitério

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Master of the triumph of death. Triumph of death. Palazzo Abatelis. Palermo, c 1146.

Quanto mais rápido conduzir mais cedo chega ao túmulo. Com honras de aceleração final. Esta é a mensagem do anúncio Funeral, do Conselho de Segurança Rodoviária Checo (UAMK). Um anúncio criativo. Tão turbulento e delirante quanto uma corrida de cortejos fúnebres num cemitério. Uma história bem contada. O caos ultrapassa a ordem.

Marca: UAMK (Road Safety Council). Título: Funeral. Agência: Leo Burnett. Direcção: Jakub Kohak. República Checa, 2003.

Era uma vez a morte

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William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

De rir a chorar

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Ontem como hoje, na Europa e no mundo, há funerais festivos e há funerais macabros. E outros ainda difíceis de classificar. Existem muitos anúncios publicitários com funerais. Começo por reter dois a pender para o risonho.

O ser humano delira. Dá-lhe para dançar e rir quando é suposto ensimesmar e chorar. No primeiro anúncio, um funeral com lágrimas e dança (ver anúncio português semelhante: https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/). No segundo, o humor resulta mais vulgar: o velório passa colectivamente das lágrimas às gargalhadas. Passar de uma emoção à emoção oposta parece ser apanágio do homem. Talvez porque os extremos estão mais próximos do que se pensa.

Marca: Spotify. Título: Play this at my funeral. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Fevereiro 2007.

Marca: Tages Anzeiger. Título: L’Enterrement. Agência: McCann Erikson. Suíça, 1998.

A isabel comentou este artigo relembrando o vídeo Doing It To Death, dos The Kills. Já o tinha colocado no Tendências do Imaginário (https://tendimag.com/2016/11/02/grao-a-grao-meio-milhao/). Mas o vídeo é extraordinário e a coreografia, fantástica. Vou recolocá-lo. O comentário da Isabel vem a preceito, também o vou colocar.

 “Embora não seja novidade no tendimag, suponho que este é um dos casos difíceis de classificar: https://www.youtube.com/watch?v=498zUzNGQxY (…) Quando os mortos têm um sentido de humor fora do comum e se tem um relação próxima com eles, o que fazer? Chorar de saudades ou rir com saudades? Não me parece assim tão difícil de compreender, só sentindo. Não deixa de ser uma homenagem, num sentido ou noutro. Ou oscilando” (Isabel Vilela).

The Kills. Doing It To Death. Ash & lce. 2016.

Reforma

Tornou-se receita corrente tirar um “morto” da urna em vez de um coelho da cartola. Com este “truque”, o anúncio Box, da HBSC informa que na Polónia 57% dos reformados encaram a reforma com um tempo de repouso; no Egipto, 40% consideram a reforma como o princípio do fim; no Canadá, 58% dos reformados perspectivam a reforma como uma oportunidade. E se, em Portugal, uma percentagem semelhante valorizasse a reforma como tempo de aprendizagem e partilha de saber? As universidades seriam menos fábricas de investigação e antecâmaras do emprego e mais, honrando o passado, lugares de cultura, arte e conhecimento. Com reformados, talvez rejuvenesçam.

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Marca: HBSC. Título: Box. Reino Unido, 2007.

Requiem desportivo

requiem-tyc-sports-publicidad-argentinaEis um anúncio que não aspira à santidade. O protagonista é viciado em futebol. Não se enxerga! Confunde uma urna com uma claque e o cemitério com um estádio. Somos contemplados com dois minutos de equívoco. O que é obra! Raia o incómodo. Sem belas almas, mas com boa gente, o ser humano dança o tango no humor argentino. “Nem anjo, nem demónio”, oscila, pardo, entre a graça e o pecado. De vez em quando, cai bem um anúncio dissonante que não prega fé, esperança e caridade.

Marca: T&C Sports. Título: Requiem. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.